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Antonio MaurĂ­cio Dias da Costa -

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Editora da Universidade do Estado do ParĂĄ

4 - Festa na Cidade: O circuito bregueiro de Belém do Pará

Universidade do Estado do Pará Reitora Vice-Reitora Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Pró-Reitor de Graduação Pró-Reitora de Extensão Pró-Reitor de Gestão

Marília Brasil Xavier Maria das Graças da Silva Jofre Jacob da Silva Freitas Ruy Guilherme Castro de Almeida Mariane Cordeiro Alves Franco Manoel Maximiano Junior

Coordenadora Revisor Designer Gráfico

Josebel Akel Fares Nilson Bezerra Neto Hudson Maik Campos da Silva Pedro Henrique Brasil Xavier Silva Laíza Araújo Loureiro Willame de Oliveira Ribeiro Bruna Toscano Gibson

Apoio Técnico Conselho Editorial

Elizabeth Teixeira Hebe Morganne Campos Ribeiro Ivanilde Apoluceno de Oliveira Jofre Jacob da Silva Freitas Joelma Cristina Parente Monteiro Alencar Josebel Akel Fares Maria das Graças da Silva Marília Brasil Xavier Norma Ely Santos Beltrão Tânia Regina Lobato dos Santos

Antonio Maurício Dias da Costa -

FESTA NA CIDADE O Circuito Bregueiro de Belém do Pará

2009

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Diretoria de Biblioteca Central da UEPA

Costa, Antonio Maurício Dias da Festa na cidade : o circuito bregueiro de Belém do Pará / Antonio Mauricio Dias da Costa.Belém: EDUEPA, 2ª edição, 2009. 234 p. : il. ; 21 cm.

ISBN: 1. Música eletrônica-Pará. 2. Antropologia Social. 3. Música e antropologia. 4. Festas I. Título. CDD 22.ed. 786.74098115

Para a Maria Luíza e para o João Gabriel, que virá!

Agradecimentos

Ao professor e orientador José Guilherme Cantor Magnani, que foi fundamental para a realização deste trabalho. Sua postura profissional, seu envolvimento acadêmico e sua amizade foram determinantes para que este texto viesse a surgir. À professora Maria Angélica Motta-Maués, que escreveu o generoso e elegante texto disposto na orelha deste volume. Aos colegas membros do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, que contribuíram profundamente para a definição das linhas gerais da pesquisa que resultou neste texto. À Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Pará, que financiou integralmente esta segunda edição de “Festa na Cidade”. Sem o apoio decisivo da Fapespa, seria inviável o lançamento deste e de outros títulos de pesquisadores paraenses que militam na vida acadêmica local. À Coordenação de Pessoal de Ensino Superior, que me forneceu uma bolsa de doutoramento no período de 2000 a 2003, fator decisivo para a elaboração deste texto dentro do prazo e para a pretensão de alcançar o excelente padrão acadêmico da Universidade de São Paulo. Aos colegas que contribuíram para a materialização desse volume: William Gaia, José Miguel, Nilson Bezerra Neto e Hudson Maik. À professora Josebel Fares, que aceitou o desafio de publicar esta segunda edição. Aos muito amados Cátia Macedo, Maria Luíza e João Gabriel, pela inspiração. Aos personagens do circuito bregueiro, pessoas de “carne e osso” que vivem o mundo das festas, tanto como trabalho ou como diversão e que me receberam da maneira mais cordial possível quando da realização de entrevistas e de conversas informais. Minhas conclusões sobre o circuito bregueiro são resultantes destes encontros “de campo” que foram, acima de tudo, aprendizado. As contribuições para esta publicação foram muitas e de origens diferentes. Os equívocos porventura presentes na obra são todos meus.

Prefácio Pode parecer mais um exotismo, uma idiossincrasia circunscrita ao norte do país devido a fatores específicos a essa região, distante dos centros urbanos que ditam preferências musicais, modas culturais e hábitos de consumo e que por isso se arvoram no direito de separar o que seria de bom gosto daquilo que se considera... brega, por exemplo. É quando entra a antropologia para colocar as coisas em seu devido lugar, e Antonio Maurício não hesitou na escolha de seu objeto de estudo para o doutorado: o “circuito bregueiro” em Belém do Pará. Na verdade, esse tipo de música já ultrapassou as fronteiras da capital paraense e pode ser ouvida e desfrutada, por meio dos shows com suas aparelhagens e vendas de cds em outras cidades brasileiras. Portanto, constitui um fenômeno que merece ser estudado, principalmente pelo fato de estar cercado de mal entendidos e até de preconceitos. Aliás, esta é uma das formas de operar da análise antropológica: tomar como ponto inicial o próprio senso comum e os estereótipos que dele derivam para, através de uma cuidadosa investigação, situá-los num quadro mais amplo de referência e só então propor uma linha interpretativa. Antonio Mauricio começa justamente com a própria noção de “brega” e, para distinguir os vários usos do termo procede a uma minuciosa contextualização histórica, mostrando as diferentes vertentes que, desde os anos cinquenta, terminaram produzindo esse particular estilo de música, dança e entretenimento. Não cabe, entretanto, retomar esse caminho: a leitura do texto, bem escrito e documentado, oferece um bom panorama da questão. O que importa aqui é ressaltar outras características deste livro e das escolhas feitas pelo autor, durante o processo da pesquisa, que resultaram na sua tese de doutoramento defendida com sucesso no Programa de Pósgraduação em Antropologia Social da FFLCH da USP. Antes de mais nada, a presença da etnografia é marca registrada dos trabalhos desenvolvidos no Núcleo de Antropologia Urbana, onde o autor pôde discutir, com outros colegas, aspectos teóricos e metodológicos de sua pesquisa. Além de entrevistas com os diferentes participantes dessa prática de lazer, pode-se perceber a riqueza das observações em campo com sua gama de detalhes só perceptíveis a um olhar treinado e sensível. Músicos, intérpretes, compositores, técnicos, produtores, membros dos fãs clubes – esses e outros agentes envolvidos no circuito bregueiro não escaparam ao registro do pesquisador, pois o brega é todo um empreendimento que não se reduz ao momento do desfrute: consciente desse aspecto, a pesquisa não deixou de lado os aspectos econômicos, comerciais e institucionais do “negócio do brega”, como é também apropriadamente classificado. Merece destaque a análise das aparelhagens: mais que um mero equipamento de som, trata-se de um elemento central, um agente “não-humano”, para usar um jargão em moda, de especial importância no empreendimento. Alvo da preferência de um público fiel, desperta lealdades que se traduzem no conhecimento da história de sua formação, nos comentários sobre suas particularidades tecnológicas e comparação com aparelhagens rivais ou concorrentes. As adjetivações que acompanham sua publicidade – “O Demolidor”, “A

Fera do Som”. “O Anormal”, “O Exterminador”, O “Arrasta Povo”, “O Dragão da Vila”, “O Todo Poderoso” etc. são uma mostra do clima que despertam. E se a análise é rigorosa na perspectiva de um olhar de “perto e de dentro”, evidenciando as redes de sociabilidade que se instauram nos bairros de periferia, abre-se também para um contexto mais amplo e contempla a presença do brega em outros eventos e manifestações tradicionais da cidade como o Carnaval, a Festa de Nazaré e as festas juninas. O circuito bregueiro, desta maneira, se expande até mesmo para fora da capital paraense, podendo ser registrado em Parintins, Macapá, Manaus, em cidades da Guiana Francesa e do Suriname, para citar apenas algumas das localidades mencionadas no trabalho, além de capitais nordestinas onde a recepção dessa forma de música e entretenimento apresenta algumas variantes. Vale a pena, pois, entrar neste universo ainda marcado por uma certa conotação pejorativa induzida pelo termo que o caracteriza e apreciar toda sua complexidade e riqueza através das páginas deste livro.

José Guilherme Cantor Magnani Departamento de Antropologia Universidade de São Paulo

“As festas representam a vida social às avessas, não porque tenha sido tal outrora, mas porque nunca foi, nem poderia jamais ser, de outro modo.” LÉVI-STRAUSS, Claude. Estruturas Elementares do Parentesco. Petrópolis: Vozes, 1976, p. 532.

Nota da Segunda Edição Este livro é a adaptação da tese de doutorado defendida em 2004 na Universidade de São Paulo. Sua primeira edição foi lançada em 2007. Esta segunda edição é agora apresentada ao público em 2009. A distância temporal em relação ao período da pesquisa de campo (2001 a 2003) exige que façamos algumas observações quanto às mudanças que ocorreram no circuito bregueiro desde então e que não foram incluídas neste texto. - Os bailes da saudade cresceram de importância e são tão economicamente relevantes como as festas de tecnobrega. Da mesma forma, algumas aparelhagens, especializadas em bailes da saudade, alcançaram o “grande porte”, investindo pesadamente na caracterização do equipamento associado ao que se entende como “passado”: discos de vinil, unidade de controle ornamentada como calhambeque, como fusca, como locomotiva, etc; - A maioria dos fãs-clubes se autointitulam “equipes” ou “galeras”, mantendo, no entanto, a mesma estrutura organizativa e preservando a ligação “familiar” com os proprietários e trabalhadores da aparelhagem; - As unidades de controle das aparelhagens de grande e médio porte tornaram-se mais sofisticadas, com maior quantidade de efeitos sonoros e visuais. Na maioria delas, atualmente, o DJ controla o equipamento de frente para o público, animando a festa; - Algumas casas de festa aqui mencionadas faliram, enquanto outras cresceram ainda mais de importância. Da mesma forma, algumas aparelhagens aqui apresentadas como “de grande porte” entraram em decadência nos anos seguintes, ao mesmo tempo em que outras ascenderam ao posto de maior sucesso no interior do circuito. Entendo que o chamado presente etnográfico deve ser aqui identificado como o registro de um contexto histórico específico: o início da década de 2000. Por conta disso, optei por não incluir as “novidades” do circuito bregueiro para não descaracterizar o texto original e para manter a especificidade do registro de uma época, de um momento do processo, do devir, do universo de relações sociais dos apreciadores e trabalhadores das festas de brega em Belém. No entanto, considero o registro etnográfico aqui apresentado como válido para o presente, uma vez que a lógica de participação dos envolvidos no circuito bregueiro é a mesma do início da década, associando lazer e atividade empresarial simultaneamente. Separado do texto e no final, como pós-escrito, segue um artigo meu recentemente publicado sobre as transformações que ocorreram nos últimos anos no circuito dos bailes da saudade.

O autor

Índice 17

Introdução

Parte 1

O Ritmo do Povão: histórias do brega paraense 1. Os sentidos do universo cultural do brega 2. A questão da difusão local e nacional 3. Brega, cultura de massa e o recorte da pesquisa 4. O brega e as classificações musicais regionais 5. O brega definido pela dança 6. O circuito bregueiro como empreendimento e lazer 7. A festa em questão

23 25 36 39 49 55 61 70

Parte 2

O Negócio do Brega: música e festa como empreendimento 8. A dimensão empresarial do circuito bregueiro: as aparelhagens 9. As casas de festa do circuito bregueiro 10. Produtores fonográficos e gravadoras 11. As rádios e o brega 12. Os artistas e o circuito bregueiro

77 79 108 122 127 131

Parte 3

A Dinâmica do Circuito: o público das festas de brega 13. Os circuitos dentro do circuito 14. Os fãs-clubes de aparelhagens Para além das fronteiras do circuito

Parte 4

15. Preâmbulo: Calendário festivo de Belém e circuito bregueiro 16. Festas de brega no Carnaval 17. Festas de brega na Festa de Nazaré 18. Circuito bregueiro e Festas Juninas Conclusão Referências

137 139 150 171 173 175 180 191 221 216

Pós-Escrito: Bailes da “Saudade” e do “Passado”: atualidades do circuito breguei- 220 ro de Belém do Pará

Índice das Figuras Fotografias

Páginas

Foto 1 Foto 2 Foto 3 Foto 4 Foto 5 Foto 6 Foto 7 Foto 8 Foto 9 Foto 10 Foto 11 Foto 12 Foto 13 Foto 14 Foto 15 Foto 16 Foto 17

Mapa 1 Mapa 2 Mapa 3 Mapa 4 Mapa 5

Ilustração 1 Ilustração 2

59 67 85 86 93 93 104 111 120 141 142 155 156 207 208 208 208 Mapas

Páginas 98 116 158 162 163

Ilustrações

Páginas 94 114

Obs.1: Todas as fotos sem identificação foram feitas pelo próprio autor. Obs.2: Todos os mapas e ilustrações são de autoria de Joelson Barros Gomes.

Introdução É noite de sexta-feira nos bairros de periferia de Belém, mas poderia ser sábado ou segunda, ou mesmo um domingo à tarde. O som vem de longe, mas ao aproximar-se da casa noturna ou do balneário observam-se inegavelmente os primeiros rumores de uma festa de brega. A placa da aparelhagem de som e a concentração de pessoas na frente do estabelecimento não deixam dúvidas: está prestes a começar mais uma das muitas festas dançantes que se espalham por toda a cidade de Belém e por municípios vizinhos, animadas com as músicas dos bregas mais recentes que são ouvidas nas rádios locais ou que se adquire na compra de CDs “piratas”. O público já está acostumado com estes eventos e se dirige para as casas que fazem parte de seu trajeto de lazer conhecido na cidade ou, de vez em quando, se arrisca a participar de uma festa em um bairro com o qual se está pouco familiarizado. Nem todos os nomes dos cantores das músicas tocadas são conhecidos, mas saber os mais novos “passos do brega” é obrigatório para o dançarino, senão torna-se muito difícil conhecer pessoas, flertar, acompanhar a vibração da festa. O DJ anima a “galera” e os fãs seguidores da aparelhagem, enquanto o dono da casa de festa espera agradar o público para garantir o sucesso em seus negócios. Nem todas as informações apresentadas na descrição acima podem ser compreendidas imediatamente por alguém que não mora ou nunca morou em Belém, pelo menos, nas últimas duas décadas. Aliás, a própria menção ao termo brega assume sentido diferenciado localmente. Bregas são quase todas as músicas de cunho popular tocadas nas rádios locais, vendidas nas lojas de CD mais populares e que são o centro de um tipo de festa que se espalha por diversos bairros da cidade. O sentido local de brega em muito se distancia da concepção mais comum nacionalmente difundida do brega como comportamento ou produção cultural “cafona” ou “kitsch”, dentro das opções oferecidas pela sociedade de consumo. Aliás, as inevitáveis referências ao “mau gosto”, “sentimentalismo” e “vulgaridade” das músicas consideradas como bregas e que alcançam difusão nacional não se aplicam à percepção do público de Belém do que constitui “um brega”. A menção local a qualquer música deste estilo é feita dessa forma (“um brega”), sem qualquer sentido depreciativo. Na verdade, o brega local está tanto ligado ao sentido de popular quanto ao de “música para dançar”, “para festejar”. Por isso, não podemos compreender plenamente o sentido do brega em Belém (e mesmo na Região Norte) se não considerarmos a sua ligação com uma forma de lazer típica da cidade: as festas de brega. As festas de brega surgiram com sua feição atual a partir dos anos 80 do século XX, desembocando com muita vitalidade nos últimos anos. Elas são eventos festivos que conjugam lazer e empreendimento econômico simultaneamente. Este trabalho focaliza esses eventos, apresentando-os como um conjunto de práticas culturais típicas que se espalha por toda de Belém, concentrando-se em maior número em seus bairros periféricos. Um “circuito concreto” de eventos se faz com a presença das casas de festa em diversos pontos da cidade e com a movimentação das aparelhagens que se deslocam para essas casas nos dias de festa. A festa de brega em si, o encontro das pessoas e o tipo de sociabilidade produzida, dentro de certos padrões repetidos na maioria dos eventos, constitui o que ora denominamos prática cultural. A compreensão desse tipo de práticas culturais padronizadas dos apreciadores de brega situadas na paisagem urbana de Belém é o objetivo geral deste estudo.

20 - Festa na Cidade: O circuito bregueiro de Belém do Pará A ideia é que, apesar de algumas variações situadas no tempo e no formato mais recente das festas, elas ressaltam determinadas regularidades gerais que oferecem ao pesquisador uma ideia de totalidade, no sentido apresentado por Magnani (2002). Para este autor, a ideia de totalidade remete-se à presença de ordenamentos particularizados e setorizados na paisagem urbana, apresentados em múltiplos planos e escalas. No processo de pesquisa, é necessário fazer uma ponte entre a experiência dos atores e a aparência desses ordenamentos no sentido de deslindar as fronteiras e a silhueta dessa totalidade. É a partir deste ponto que se torna importante utilizar a categoria analítica de circuito desenvolvida por Magnani (1996), para quem o circuito compõe o exercício de uma prática cultural ou a oferta de um serviço qualquer, demarcado por estabelecimentos, equipamentos e espaços sem relação de contiguidade entre si e reconhecido em conjunto por seus usuários regulares. No contexto das festas de brega, a presença maior ou menor de casas de festa em determinados bairros da cidade e as apresentações alternadas de aparelhagens nestas mesmas casas, especialmente em dias como sexta-feira, sábado, domingo e segunda, representam materialmente um circuito. De um lado, temos a oferta de um serviço fundamentalmente voltado para o lazer de final e início de semana. De outro, surge um universo de sociabilidade que é a festa em si, marcada por códigos (saber dançar, reconhecer as músicas, estar familiarizado com determinada casa de festa, fazer parte de um fã-clube de aparelhagem, etc.), encontros e comunicação. Temos aqui uma distensão do conceito de circuito, tal como propõe Magnani (2002). Conjugando as facetas de serviço e de sociabilidade do circuito das festas de brega, temos em foco a totalidade delineada por este trabalho. O nível de abrangência do circuito bregueiro não se resume somente ao espaço exclusivo das festas. Ele só pode ser compreendido de forma integral se diversos elementos, partilhados pelos integrantes do circuito, forem levados em conta. O circuito bregueiro tem sua referência básica na gênese da música brega, típica de Belém do Pará, cuja história remonta aos boleros e merengues tocados nas “gafieiras” e “cabarés” da cidade dos anos 50 e 60 do século XX. Contudo, a sua construção como um estilo musical típico inicia-se em fins da década de 70 e começo da de 80, principalmente com sua difusão nas, agora, festas de brega. Para compreender a totalidade proposta, é necessário reconhecer os elementos fundamentais que a compõem e a circundam, considerando que o seu reconhecimento é também partilhado pelos integrantes do circuito. Tais elementos, a serem discutidos nesse trabalho, são: o processo de desenvolvimento do brega como estilo musical, os significados locais desse tipo de música, a questão da difusão local e nacional do ritmo, a importância simbólica da dança, a presença de uma indústria cultural local produtora dos “sucessos” e dos “astros” de brega, o sentido empresarial dos eventos do gênero (por conta do papel desempenhado pelas casas de festa e pelas aparelhagens), a lógica da presença de casas de festa e aparelhagens na paisagem urbana, os modos de inteirar-se sobre a realização de festas e apresentações de aparelhagens por parte do público, as escolhas dos trajetos no interior do circuito bregueiro, as características identificadoras do público desse circuito, os tipos de festa de brega existentes e sua inserção nos grandes eventos festivos de Belém. A questão central estudada aqui (e que liga cada um dos tópicos acima) é a recorrência de um modelo festivo que se consolidou na cidade, caracterizado como circuito bregueiro.

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Procuramos demonstrar que a regularidade deste modelo de festa favoreceu a existência de uma forte identificação entre o brega e seu público consumidor. Essa identificação forneceu a base para as evocações locais mais comuns do brega como uma marca ou símbolo regional, englobando não só o Pará, como outros estados da Região Norte, onde são comuns as festas de brega. A tese aqui sustentada é a de que as festas de brega e seu circuito, observadas em sua dimensão histórica e social, constituem uma prática cultural que está pautada em conflitos, negociações e trocas entre público apreciador, agentes empresariais e representantes do poder público. Este modo de festejar no contexto urbano belenense envolve mediações econômicas e políticas entre pessoas de fora e de dentro do circuito. Por conseguinte, pode-se propor que este tipo de festa, com sua tônica ligada a questões como lazer e negócios, represente uma prática cultural vinculada às diversas esferas da vida social em Belém. Na primeira parte, são apresentados e discutidos o sentido regional do brega, o histórico da produção musical, alguns conceitos chave que serão recorrentes durante todo o texto e os elementos característicos do circuito bregueiro. Na segunda, trataremos especificamente do circuito bregueiro do ponto de vista estrito do empreendimento econômico. As ações empresariais ligadas às festas de brega serão equacionadas àquelas da produção musical, buscando demonstrar a continuidade entre ambas. Já na terceira parte, será focalizada a dinâmica do circuito bregueiro, seus vários planos e as ações dos sujeitos no seu interior. Neste ponto, os elementos anteriormente apresentados serão vistos em movimento dentro do circuito festivo. Na última parte, discutiremos a presença do circuito bregueiro nos grandes eventos do calendário festivo da cidade, tais como o Carnaval, o Círio de Nazaré e as Festas Juninas. Com isso procuramos demonstrar a amplitude do circuito e a sua presença marcante tal qual modelo festivo na cidade. Torna-se necessário, neste momento, destacar algumas questões metodológicas consideradas durante a pesquisa e a preparação deste trabalho. Boa parte do texto é apresentado no feitio de um diálogo com as fontes levantadas em campo, de modo a oferecer, também, uma visão crítica acerca das próprias percepções e conclusões construídas. O que se procura é destacar o encontro com as fontes e com os interlocutores como o momento privilegiado de produção de conhecimento sobre o circuito bregueiro. O circuito é interpretado, nesta pesquisa, a partir da intervenção investigativa do pesquisador e não como uma realidade detentora de um significado “lógico” preexistente à observação. A experiência dos atores no circuito só se torna inteligível ao tomarmos como parâmetro a intervenção do pesquisador e sua relação com a vivência no campo. Minha condição de pesquisador-nativo de Belém não garante facilidades quanto à observação e à compreensão da realidade pesquisada, mas proporciona novos problemas no que concerne à questão de proximidade e distância em relação ao objeto investigado. Minha percepção pessoal como alguém “de fora” do circuito bregueiro é um exemplo destes “novos problemas”. Por outro lado, um certo grau de familiaridade com os símbolos representativos deste circuito é comum entre a maior parte dos moradores de Belém. Estes são problemas que deverão circundar a todo o tempo a discussão em torno da questão maior da pesquisa. Este trabalho, portanto, é um exemplo de “Antropologia Nativa”, no sentido proposto por Caldeira (1988, p. 144). A maioria das entrevistas realizadas em campo foi direcionada para pessoas consideradas como tipicamente “de dentro” do circuito, como proprietários e funcionários de aparelhagens

22 - Festa na Cidade: O circuito bregueiro de Belém do Pará e casas de festa, membros de fãs-clubes de aparelhagens, donos de gravadoras, músicos e cantores, “festeiros” e pessoas envolvidas com a “mídia do brega” (revistas especializadas no assunto, programas de rádio, etc.). A escolha das pessoas para as entrevistas seguiu um critério típico: os entrevistados me levaram a outros entrevistados sucessivamente. Para isso, utilizei a extensa rede de contatos existente entre os integrantes do circuito bregueiro,1 que liga o público das festas, os empresários e os produtores musicais. Os locais de realização das entrevistas representam muito bem o itinerário da pesquisa pela cidade: casas de festa (durante as festas ou não), sindicatos, estúdios de gravação, casas de donos de aparelhagens, terreiros juninos, dentre outros. Já o uso das entrevistas, seguiu o esquema das citações editadas ao longo do texto. É claro que quase tudo o que foi dito durante as entrevistas serviu como fonte, de modo a construir uma maior familiaridade com o circuito bregueiro. Mas a citação de trechos das entrevistas serve, no máximo, para estabelecer um diálogo com os interlocutores da pesquisa. É certo que a escolha de determinados trechos supõe o descarte de outros e a seleção das falas “mais apropriadas” à pesquisa. No entanto, a presença do “discurso nativo” traz para o texto o “clima” do circuito festivo e a relação de alteridade com o pesquisador. Segundo Viveiros de Castro (2002), a “relação de sentido” entre o antropólogo e o nativo é fundamentalmente desigual: mesmo que eles compartilhem a mesma cultura, “a relação de sentido entre os dois discursos diferencia tal comunidade. A relação do antropólogo com sua cultura e a do nativo com a dele não é exatamente a mesma” (Id. Ibid, p. 2). Para o autor, esta é uma dificuldade quase intransponível e que só pode ser amenizada quando a dimensão dialógica do texto é ressaltada. Com essa ênfase na interlocução, o trabalho antropológico passa a acentuar a diversidade de sentidos, a “multiplicar nosso mundo”, que é o resultado de todo os encontros ocorridos em campo. É desse modo que emergem os resultados desta pesquisa, a partir dos diversos encontros que travei com os sujeitos do circuito bregueiro em campo. Mesmo que em alguns momentos deste texto seja empregada a estratégia retórica da “ocultação do autor”, é necessário levar em conta que os dados apresentados são oriundos da interlocução, do encontro, da relação. Este texto, portanto, é resultado de uma experiência, a experiência de campo. Seu ponto de partida foi a iniciativa do pesquisador de trabalhar com este tema específico. Em seguida, entro em contato com os sujeitos em campo, engendrando uma multiplicidade de sentidos que busco organizar aqui em forma de texto. Embora certas doses de convenções textuais sejam empregadas aqui para acentuar o realismo da pesquisa de campo, é preciso considerar que o processo de escrita é sempre diferente do processo de pesquisa. Como afirma Darcy Ribeiro, na introdução de “Os Índios e a Civilização” (1986, p.16), “(...) certo dia, por motivos práticos, se tem de dar por concluído um trabalho que poderia estender-se indefinidamente, o que resulta é um estágio do esforço de compreensão, na forma de materiais para compor um livro”. Neste caso, o relato etnográfico é tipicamente incompleto e inacabado por se tratar de um momento do “esforço de compreensão”. Daí, a construção do texto, “(...) sua apresentação final é No final de cada entrevista era comum que o entrevistado me passasse o número de telefone de uma outra pessoa que também poderia ser entrevistada.

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sempre uma construção ‘artística’, em que não se reconstituem os caminhos pelos quais se chegou às inferências, mas estas são apresentadas da forma mais demonstrativa e persuasória possível” (Id. Ibid, p. 16). É dessa forma que apresento este texto ao leitor. Aliás, a presença do autor no texto, quando aqui ela é ressaltada, deve ser avaliada pela relatividade das suas interpretações. A voz do autor no texto é resultado da interlocução ocorrida em campo, da presença de vozes muitas vezes dissonantes que contribuíram para uma maior avaliação crítica das informações obtidas. Grande parte da observação participante foi feita no contexto efervescente das festas, em suas variadas formas, em diferentes pontos da cidade e períodos do ano2. Essas observações construíram o diário de campo como uma importante fonte de consulta para a elaboração deste texto. Também entrei em contato com algumas pessoas da administração pública municipal, nem sempre sob forma de entrevista, mas em busca de documentos importantes como a lista de “Registro das Aparelhagens de Belém”, obtida junto à Divisão de Polícia Administrativa do Estado do Pará. Nessas buscas, conversas informais sobre as festas de brega tornaram-se importantes fontes de impressões de pessoas aparentemente externas ao circuito. Aliás, a especificidade do circuito bregueiro encaminhou a pesquisa para o uso de diferentes meios para a busca de informações. As demais fontes utilizadas foram: revistas locais e nacionais, que apresentaram artigos tratando da música e das festas de brega; referências encontradas sobre o brega em periódicos locais (no período da pesquisa); os sites da internet voltados para o brega paraense e as fotos tiradas em campo, que registram componentes típicos do circuito bregueiro na paisagem urbana. Estas últimas são tratadas no trabalho como fontes e suas informações são discutidas criticamente no corpo do texto. É hora de nos apressarmos em direção ao circuito. A festa está para começar!

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A pesquisa foi realizada entre os anos de 2001 e 2003.

O RITMO DO POVÃO:

HISTÓRIAS DO BREGA PARAENSE

78 - Festa na Cidade: O circuito bregueiro de Belém do Pará Analisar a festa do ponto de vista do seu contexto sócio-histórico, portanto, permitenos observá-la no campo das grandes trocas realizadas socialmente. Essas trocas não se resumem àquelas baseadas no contato entre as pessoas no interior do evento, em que se troca trabalho por reconhecimento, bens de consumo por dinheiro, danças por olhares atraídos, investimento de esforço pelo sucesso, como nos aponta Brandão (1989, p. 11). As trocas produzidas através da festa podem ir mais longe e vão se instaurar entre grupos de vizinhança e poder público (ligações políticas pelo apoio eleitoral) ou, no caso de Belém, entre o público das festas de brega e as rádios locais (audiência por reconhecimento das músicas de sucesso das festas de brega), por exemplo, dentre outros tipos de trocas que veremos adiante. A festa de brega, percebida em sua dimensão histórica e social, é uma prática que está inserida no campo dos conflitos e negociações simbólicas desenvolvidas na sociedade local. A festa popular, na sociedade urbana e industrial, é um fenômeno complexo que abarca mediações econômicas (empreendimentos, oferecimento de bens culturais) e políticas (sistemas de troca de interesses, conflitos por poder e prestígio). Por conta disso, ela não pode ser considerada unicamente como expressão da alienação de um ou vários grupos sociais ou, num pólo oposto, como meramente um mecanismo de “resistência” à indústria cultural ou a esta entidade opaca que é a “cultura dominante”. Trata-se de uma experiência cultural mutante, ligada às diversas esferas da vida social, cuja reprodução está condicionada à multiplicidade de interesses de agentes internos e externos ao evento.

O NEGÓCIO DO BREGA:

MÚSICA E FESTA COMO EMPREENDIMENTO

A DINÂMICA DO CIRCUITO: O PÚBLICO DAS FESTAS DE BREGA

PARA ALÉM DAS FRONTEIRAS DO CIRCUITO

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Título

Festa na Cidade: O circuito bregueiro de Belém do Pará

Autora

Antonio Maurício Dias da Costa

Revisão

Nilson Bezerra Neto

Editoração Gráfica e Criação de Capa Formato Tipologia Papel

Hudson Maik Campos da Silva 18 x 23,5 cm Garamond e BenguiatGot Bk BT 9/10/11,5/12 Cartão triplex 250 g/m2 (capa) AP 90 g/m2 (miolo)

Páginas Tiragem Impressão e acabamento

234 500 und. Gráfica Marques

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FESTA NA CIDADE: Circuito Bregueiro de Belém do Pará