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vida de michelangelo buonarroti

universidade estadual de campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori De Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Alcir Pécora – Christiano Lyra Filho José A. R. Gontijo – José Roberto Zan Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara

Comissão Editorial da coleção Palavra da Arte Jens Michael Baumgarten – José Roberto Zan Luciano Migliaccio – Luiz Marques (coord.) – Marcos Tognon

giorgio vasari

vida de michelangelo buonarroti florentino. pintor, escultor e arquiteto (1568)

tradução , introdução e comentário :

Luiz Marques

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em vigor no Brasil a partir de 2009.

ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação M582v

Vasari, Giorgio, 1511-1574. Vida de Michelangelo Buonarroti: florentino, pintor, escultor e arquiteto (1568) / Giorgio Vasari; tradução, introdução e comentário: Luiz Marques. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, 2011. 1. Michelangelo Buonarroti, 1475-1564. 2. Artistas – Itália – Biografia. 3. Pintura italiana. 4. Escultura italiana. 5. Arquitetura italiana. 6. Arte – História. I. Marques Filho, Luiz Cesar, 1952- II. Título.

cdd isbn 978-85-268-0941-3

928 750.945 730.945 720.945 709

Índices para catálogo sistemático:

1. 2. 3. 4. 5. 6.

Michelangelo Buonarroti, 1475-1564 Artistas – Itália – Biografia Pintura italiana Escultura italiana Arquitetura italiana Arte – História

Texto original: Vita di Michelagnolo Buonarruoti Fiorentino. Pittore, Scultore et Architetto www.memofonte.it Copyright © by Luiz Marques Copyright © 2011 by Editora da Unicamp

1a reimpressão, 2012

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistema eletrônico, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor.

Editora da Unicamp Rua Caio Graco prado, 50 – Campus Unicamp cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728 www.editora.unicamp.br  –  vendas@editora.unicamp.br

928 928 750.945 730.945 720.945 709

palavra da arte é uma coleção consagrada às fontes, às referências moder­ nas e à reflexão contemporânea sobre a tradição clássica. Entende-se essa como o processo histórico de “longa duração” pelo qual a história das for­ mas constitui sua própria memória, num triplo movimento de cris­taliza­ ção, transmissão e transformação dos modelos antigos. Centrada na his­ tória da arte, a coleção entende abrigar também estudos de história das retóricas e poéticas, antigas e modernas, de modo a divulgar de maneira crítica e metódica em língua portuguesa, eventualmente em textos bilín­ gues, as vias diversas através das quais a tradição clássica constituiu-se e foi apropriada por seus legatários. Luiz Marques

A Sabine, Elena, Leon e Iza, dedico este trabalho.

Agradecimentos

Ao longo de seu desenvolvimento, esta pesquisa recebeu apoio, que aqui agradeço, da Fapesp e do CNPq. É com prazer também que agradeço ao meu departamento pelo apoio prodigalizado de diversas formas no curso deste trabalho. A Pina Ragionieri e ao professor Luciano Berti agradeço a generosidade e a confiança de que deram pro­ va ao emprestar, em 1996, ao Museu de Arte de São Paulo, quando de minha atuação nessa instituição como curador-chefe, um conjunto apreciável de desenhos de Mi­ chelangelo pertencentes à Casa Buonarroti, ocasião em que pudemos organizar um proveitoso colóquio internacional consagrado ao artista. Com Luciano Migliaccio, Maria Berbara, Jens Baumgarten, Daniela Cabrera, Juliana Barone, Ricardo de Mambro Santos, Waldemar Gomes, Alexandre Ragazzi, Elisa Byington, Letícia M. de Andrade, Marina Berriel, Fernanda Marinho e Patrícia Dalcanale Meneses compartilho há anos o amor por Michelangelo, por Vasari e pela arte italiana. Talvez não avaliem na justa medida o muito que este trabalho lhes deve. Jens Baumgarten, Maria Berbara e Elisa Byington leram parte da Introdução. Luciano Migliaccio dirimiu, além disso, muitas dúvidas de italiano. João Angelo Oliva corrigiu e melhorou enormemente meu português. Luiz Arnaldo Ribeiro ocupou-se, com sua habitual competência e prestatividade, da montagem dos sítios <www.vasari.art.br> e <www.mare.art.br>. A todos esses amigos, renovo aqui minha gratidão. Agradeço também aos meus alunos de graduação e pós-graduação pelo interesse e paciência com que acompanham ano após ano meus cursos sobre Vasari e Michelangelo. Os comentários da banca examinadora de meu concurso de livre-docência a que subme­ ti este trabalho em março de 2010 foram de grande utilidade para corrigi-lo e aperfei­ çoá-lo. Reservo uma palavra final de agradecimento a Lúcia Helena Lahoz Morelli, pela atenção e gentileza com que reviu o manuscrito. Graças a seu impecável acume, o leitor pode recebê-lo nas melhores condições possíveis.

sumário

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Prefácio Luiz Marques

21 Introdução

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Origens Florença (1524-1527) Roma Clementina Sob Alessandro (1533-1536) Morte e transfiguração (1537-1539) A cura de Camaldoli

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Michelangelo e Paolo Giovio (1541-1548) A parte de Michelangelo (1543-1550) O tríptico de Paolo Giovio A revitalização do gênero histórico

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O presente como problema histórico: a terceira perspectiva

73 Vida de Michelangelo Buonarroti Florentino. Pintor, escultor e arquiteto (1568) Giorgio Vasari 203 Comentário 205 Advertência sobre o Comentário 207 1. Proêmio (Notas 1-12) 214 2. Nascimento e ascendência de Michelangelo (Notas 13-24) 220 3. Instrução e primeira formação artística (Notas 25-43) 229 4. As cópias e o Jardim de San Marco (Notas 44-55) 237 5. A Centauromaquia e a Madonna della Scala (Notas 56-67) 250 6. O Hércules e o Crucifixo de S. Spirito (Notas 68-74) 258 7. A primeira estada em Bolonha (Notas 75-84) 263 8. O San Giovannino, o Cupido e a primeira viagem a Roma (Notas 85-97) 271 9. O Cupido Galli, o Baco e a Pietà (Notas 98-115) 283 10. O retorno a Florença e o Davi (Notas 116-144) 297 11. O Davi em bronze, os tondos e o São Mateus (Notas 145-153) 304 12. A Madona de Bruges e o Tondo Doni (Notas 154-162) 311 13. A Batalha de Cascina (Notas 163-192)

326 347 361 368 433 452 498 519 526 568 580 589 596 598 600 603 616 617 623 625 628 630 680

14. Roma e a encomenda do Sepulcro (Notas 193-228) 15. O Moisés e o retorno a Florença (Notas 229-251) 16. A segunda estada em Bolonha e a estátua de Júlio II (Notas 252-265) 17. Os afrescos da abóbada da Capela Sistina (Notas 266-348) 18. O retorno dos Medici e a fachada de San Lorenzo (Notas 349-382) 19. A Sacristia e a Biblioteca de S. Lorenzo, a Leda e o Cristo da Minerva (Notas 383-426) 20. A Fuga e a Defesa de Florença (Notas 427-455) 21. A Biblioteca Laurenziana (Notas 456-472) 22. O sepulcro de Júlio II e os afrescos do Juízo Final (Notas 473-538) 23. A Capela Paolina, a fortificação do Borgo e a Pietà de Florença (Notas 539-550) 24. A Basílica de S. Pedro, o Capitólio e o Palácio Farnese (Notas 551-567) 25. Júlio III e as tumbas de San Pietro in Montorio (Notas 568-585) 26. San Giovanni dei Fiorentini (Notas 586-591) 27. Intrigas, o palácio de Júlio III e a ponte Santa Maria (Notas 592-598) 28. A Escadaria da Biblioteca Laurenziana (Notas 599-603) 29. Paulo IV, a morte de Urbino e a destruição da Pietà (Notas 604-628) 30. O modello da cúpula de S. Pedro (Notas 629-634) 31. Pio IV, os retratos de Michelangelo e a Sala Grande (Notas 635-650) 32. Porta Pia e Santa Maria degli Angeli (Notas 651-653) 33. San Giovanni dei Fiorentini, o Bruto e Tiberio Calcagni) (Notas 654-658) 34. Últimas manobras contra Michelangelo (Notas 659-662) 35. Morte, desenhos de homenagem, dicta e retrato de caráter (Notas 663-754) 36. As exéquias e a homenagem da Academia (Notas 755-820)

697 Bibliografia 769

Índice onomástico

783

Índice remissivo das obras de Michelangelo

791 Caderno de imagens

PREFÁCIO

Il mondo come “torso”. Em 1940, Roberto Longhi assim definia a arte de Michelangelo, compensando por uma fulgurante intuição o (quase) silêncio que seu gênio crítico manteve em relação ao maior artista da Idade Moderna. Fulgurante essa intuição é porque diz o elemento de Michelangelo. É no torso que se formula sua consciência do Antigo como cosmos e como fragmento, como começo e como fim; é por ele que se opera a implacável redução da multiplicidade fenomenológica do visível à unidade do nu; é nele, numa palavra, que se elabora a síntese entre história e natureza. O torso oferece de Michelangelo a imagem essencial do embate com a interio­ ridade e com a superfície do mármore, embate que atravessa a existência do artista, até se sublimar em educação pela pedra, exercício espiritual, experiência religiosa. A Michelangelo, mais que a ninguém, poder-se-ia aplicar a sentença de Schleier­macher: “ser alma quer dizer ter corpo”. O mundo como torso remete, enfim, à proclamação do artista segundo a qual o mármore contém o universo do exprimível. Séculos de­ pois, Ezra Pound diria algo semelhante na equação Dichten = Condensare. A primeira edição de Le Vite de’ più eccellenti architetti, pittori e scultori italiani da Cimabue insino a’ tempi nostri, descritte in lingua Toscana, da Giorgio Vasari ­Pittore Aretino. Con una sua utile et necessaria introduzione a le arti loro, para os tipos de Lorenzo Torrentino, editor ducal, aparece em Florença em março de 1550. O título será alterado na segunda edição, de 1568, com inversão na ordem das artes: Delle Vite de’ più eccellenti pittori scultori et architettori, scritte da M. Giorgio Vasari... di nuovo dal Medesimo riviste et ampliate, con I Ritratti loro, et con l’aggiunta delle Vite de’ Vivi et de’ Morti, dall’anno 1550, infino al 1567. Con tavole copiosissime De’ nomi, Dell’opere, E de’ luoghi ou’elle sono. In Fiorenza appresso i Giunti. A Vita di Michelagnolo de Gior­ gio Vasari, na edição de 1568 — de que se propõem aqui a tradução e uma versão abreviada da Introdução e do Comentário que constituíram minha tese de livre-do­ cência (2010) —, narra o percurso do artista entre Lorenzo de’ Medici, morto em 1492, e o pontificado de Pio IV, morto em 1565. Nenhuma das transformações histó­  Cf. Longhi [1940/1980:160]. Nas notas de seu curso de 1913-1914, Longhi [1913/2005:78] via Michelange­

lo “imaginando uma humanidade gigantesca que age, mas em movimentos contidos e concisos e como que travados pela massa”. Sobre as reservas de Longhi ao Juízo Final, expressas neste curso, e seu relativo laconismo em relação ao artista, cf. Agosti e Farinella [1987:9].  Apud E. Staiger, Grungbegriffe der Poetik (1968). Trad. port. Rio de Janeiro, 1972, p. 63.  Non ha l’ottimo artista alcun concetto / c’un marmo in sé non circonscriva. Soneto datável entre 1538 e 1544 (Girardi, 151) (vide infra o texto da biografia e as notas 417 e 704).  Ezra Pound, ABC of Reading (1934). Nova York, Penguin Books, 1960, p. 97.  O texto integral encontra-se em <www.vasari.art.br>.

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ricas que, entre esses dois marcos cronológicos, remodelaram a fisionomia da Itália passa ao largo da arte de Michelangelo. Poucas são as personagens centrais da história política, literária ou artística da península que, em um momento ou outro desses três quartos de século, deixaram de interagir, direta ou indiretamente, com ele. Ao recons­ tituir o tecido dessas relações, Vasari põe em evidência outro sentido da máxima de Longhi: no torso em torno do qual gravita a arte de Michelangelo, encerra-se o mun­ do que se convencionou chamar Renascimento. Isso não significa apenas que Miche­ langelo é, em medida maior que a de qualquer outra personalidade de seu tempo, aí incluídos papas, reis e imperadores, um fenômeno tentacular cujo estudo pressupõe o das mais diversas esferas da história. Isso significa, principalmente, uma presença qualitativa: vistas pelo prisma de sua arte, as diversas determinações de seu século parecem entrar em perspectiva e formar uma figura. Retirado o prisma, a história da arte do século XVI seria reduzida à aparência absurda de uma anamorfose. Poder-seia, assim, transitar facilmente da fórmula de Longhi para a de Hegel, e afirmar que a arte de Michelangelo é “seu tempo apreendido em um torso”. A paráfrase de Hegel é tanto mais pertinente pelo fato de ter sido necessário à arte de Michelangelo, para apreender seu tempo, não se limitar a ser apenas um aspec­ to dele, mesmo o mais “profundo”. Para exprimi-lo em sua totalidade, essa arte de­ veria estar, de certo modo, desidentificada com seu tempo. Essa desidentificação deve ser entendida em dois sentidos. De um lado, Michelangelo é o passado do século XVI e um passado que o século XVI já não reconhece como seu. A pretensão miche­langiana de condensar no nu, e tão somente nele, o universo do exprimível permanece tribu­ tária do horizonte cultural da Florença dos anos 1480-1494, momento em que o jovem artista estruturou sua forma mentis. Ora, desse horizonte a Itália, precipitada em cri­ ses político-militares e religiosas abissais, seria rapidamente distanciada, e isso já a partir do pontificado de Leão X (1513-1521). Não obstante o fato de que os nus de Michelangelo — retorcidos, vergados e arcados sob o peso da “expressão” — já nada têm a ver com o homo quadratus do Quatrocentos, eles permanecem a seu modo um paradigma absoluto, que o século XVI, finda sua “Idade de Ouro”, tenderá a abandonar e mesmo a censurar. Neste sentido, a arte de Michelangelo é, paradoxalmente, uma arte do passado, no sentido de uma arte não atual ou intempestiva. Malgrado o en­ deusamento de que o artista foi objeto em vida, o fato incontornável é que a recepção de sua arte foi, desde ao menos os anos 1540, crescentemente negativa. Michelangelo não podia dar ao século de Trento a arte pela qual este ansiava. Por outro lado, a arte de Michelangelo desidentifica-se com a arte do século XVI por ser, igualmente, uma arte do futuro, enunciadora de um destino não adverti­ do pelos homens de seu século. Assim Burckhardt a vê, em um texto de 1885:

 Hegel, Philosophie der Rechts (1805): Die Philosophie [ist] ihre Zeit in Gedanken erfasst (A filosofia é seu tempo apreendido em ideias). Em 1927, Ernst Cassirer iniciava a Introdução a Indivíduo e o cosmos na

filosofia do Renascimento, problematizando esta afirmação de Hegel no que tange à filosofia desse pe­ ríodo. Mas não é com a filosofia, e sim com a arte de Michelangelo que se pode parafrasear o dictum de Hegel.

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[Michelangelo] foi como uma personificação do destino para a arte; nas suas obras e no seu sucesso residem os elementos essenciais para definir a íntima natureza da cultura moderna. A característica da arte dos últimos três séculos, vale dizer, a subjetividade, comparece aqui sob as vestes de uma criatividade absolutamente livre de todo limite. E isto não involuntariamente ou inconscientemente, como em tantos grandes movimen­ tos culturais do Quinhentos, mas com uma intencionalidade hiperpotente. Dir-se-ia que Michelangelo tenha concebido tão sistematicamente a arte que cria e postula o mundo, quanto algumas filosofias pensam o Eu criador do mundo.

Maurizio Ghelardi retira dessa passagem, bem como de um texto extremo de Burckhardt, que ele publica em 1991, seus desdobramentos últimos: Burckhardt é o primeiro a ter percebido em toda a sua agudez o [...] contraste entre o historicismo rafaeliano da Escola de Atenas, ao qual atribuíra grandíssima importância artística e ética, e a arte de Michelangelo, na qual vira, ao contrário, o exemplo típico de fuga do clássico equilíbrio dos pesos e das medidas, a manifestação de um ato de existir mais que de conhecer, o símbolo da preponderância do ser sobre o conhecer.

Nessa “fuga do clássico” — fundadora da maniera e premonitória de um além histórico-artístico cujo alcance foi apenas parcialmente compreendido por seu sécu­ lo —, manifesta-se o que Longhi viu já no Tondo Doni: Mesmo na Itália, o ápice clássico não durara mais que poucos anos. Máximo autor do desvio ninguém mais que Michelangelo. E sua atitude não devia parecer algo que se pudesse retomar e trocar em miúdos, tão altiva, solitária, aparentemente intocável era sua intenção primeira.

Em mais de uma passagem dessa biografia, Vasari colocará Michelangelo fora da história, em parte para poder nele fundar a história da arte, mas em parte também porque o biógrafo parece consciente de que a arte de seu amigo apontava para um horizonte situado muito além da recepção adversa que começava então a se desenhar. Antes de passar, na Introdução, ao percurso que leva Vasari às suas biografias de artistas, impõe-se uma palavra sobre o cerne deste trabalho: a tradução do texto do biógrafo e o comentário que este engendra. Pouco há a avançar no que se refere à tradução10, realizada a partir do texto de 1568, segundo a edição de 1966-1987, pro­

 J. Burckhardt, Gesamtausgabe, IV, ed. por H. Wölfflin, Basileia, 1933, p. 82 (apud Ghelardi [1991:607]).  Cf. Ghelardi [1991:608]. Agradeço a Cássio Fernandes ter chamado minha atenção para esse texto.  Vide infra nota 159 do Comentário. 10 Uma tradução parcial desta Vida de Michelangelo, por A. Della Nina, comparece no volume X da co­ leção Biografias de Homens Célebres. São Paulo, Ed. das Américas, 1955.

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posta por Paola Barocchi e Rosanna Bettarini (6 vols., vol. 6; Florença, S.P.E.S., 1987, disponível no sítio da Fondazione Memofonte <www.memofonte.it>). Não cabe a mim um juízo sobre o valor literário do original. Vasari não está entre os maiores literatos do século de Pietro Bembo. Mas é um escritor que olha nos olhos do leitor e que possui no mais alto grau três qualidades: um senso inigualável da écfrase, uma enorme verve narrativa e um senso da história em grande angular. As duas primeiras qualidades foram-lhe reiteradamente louvadas. A última não lhe terá talvez sido reconhecida em sua justa medida. As Vidas compõem uma história de três séculos da civilização italiana, construída graças ao talento de grande orquestrador de seu vasto material histórico; graças também a uma genuína teoria da história, à qual não faltam uma aguda consciência da unidade desse período, a especificidade de seu objeto e a maestria no manejo de seu aparato conceitual. Trata-se de uma com­ plexa e fecunda teoria da história, irredutível ao “evolucionismo” ou a uma simplória crença no “progresso” das artes a que se a quis expeditiva e anacronica­mente reduzir. Acima de tudo, Vasari é um homem capaz de imensa empatia em relação a seus semelhantes, qualidade imprescindível de todo grande biógrafo. Com seus pares, ele revive sucessos e alegrias, mas também infortúnios, que lhe oferecem ocasião para digressões de plutarquiana memória sobre o inelutável destino e a “inimizade que há entre a fortuna e a vontade (virtù)”. Em uma carta a André Gide de 25 de agosto de 1894, Valéry escrevia: Il faudra écrire la vie d’une théorie comme on a trop écrit celle d’une passion. Justamente, Vasari foi capaz de escrever nesta biografia de Michelange­ lo a vida de uma ideia de arte como se escrevesse a vida de uma paixão. Quem quer que o tenha traduzido terá passado por uma experiência gratificante, pois não se pode conviver com seu texto sem se deixar contagiar por seu entusiasmo. Caberá ao leitor ajuizar o resultado aqui obtido. Para maior comodidade de leitura, acrescenta­ mos em nossa tradução os subtítulos que pontuam o texto. O Comentário foi concebido a partir de um modelo: o Commento a esta bio­ grafia publicado por Paola Barocchi em 1962, com o título: La Vita di Michelangelo nelle redazioni del 1550 e del 1568 (um volume de texto e quatro volumes de comen­ tário. Milão, Nápoles, Riccardo Ricciardi). Nesses quatro volumes, a estudiosa retra­ ça a fortuna crítica de cada frase do texto de Vasari sobre o artista, fornecendo, ademais, análises penetrantes sobre seu valor crítico. De 1960 a 2010, meio século de bibliografia sobre Michelangelo e sobre Vasari, como biógrafo, supera, ao menos em número de títulos, tudo o que fora escrito sobre ambos os artistas nos quatro sécu­ los anteriores. Apenas os livros, artigos e atas de congressos publicados no quarto centenário da morte de Michelangelo, em 1964, os estudos sobre novas atribuições e interpretações iconográficas, sobre as relações do artista com a história política, religiosa e literária, sobre as descobertas de um número considerável de suas obras juvenis, sobre as restaurações do Tondo Doni, da Capela Sistina, da Capela Paolina e do sepulcro de Júlio II, apenas os novos catálogos dos desenhos e de sucessivas exposições sobre os mais diversos aspectos e períodos de sua vida e atividade de artista e poeta, e, enfim, as tentativas de síntese ultrapassam nesses últimos decê­ nios a casa dos mil títulos.

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O objetivo primeiro do presente Comentário foi dar a devida evidência a esta literatura surgida após a publicação do Commento de Barocchi, destacando os trechos em que se cristaliza o pensamento dos estudiosos. Salvo quando se tratava de passa­ gens de outras biografias do próprio Vasari, da correspondência de Michelangelo, de seus outros biógrafos quinhentistas (Giovio, Condivi, Varchi), ou, ainda, de autores centrais dos estudos michelangianos (Gotti, Thode, Tolnay...), ative-me, em geral, ao critério de remeter ao Commento de Barocchi os textos anteriores a 1960, já ali cita­ dos. Além disso, não raro retomei as análises da própria Barocchi acerca de Vasari e de Michelangelo. No mais, tentei seguir de perto seu método que consiste em organi­ zar o próprio Comentário tanto quanto possível como um mosaico de passos rele­ vantes de outros autores sobre o tema discutido. Isto posto, convém explicitar a ordem de exposição adotada nos comentá­rios aqui propostos. Salvo nas notas puramente informativas e de contexto (notícias sobre per­sonagens e fatos históricos citados), priorizou-se grosso modo a seguinte hierarquia: I. Em relação ao texto:

a) questões atinentes à tradução; b) eventuais discrepâncias entre o texto vasariano de 1550 e o de 1568; c) cotejamento dos textos vasarianos com o das outras biografias coevas de Michelangelo (Paolo Giovio, Ascanio Condivi, Benedetto Varchi) e demais testemu­ nhos antigos; d) exame da correspondência e da poesia de Michelangelo; e) análise dos comentários modernos à passagem em apreço. II. Nas notas relativas às obras de Michelangelo:

Tentou-se em seguida a análise da obra, sucedendo-se em princípio em nosso enfoque os seguintes aspectos: iconografia, datação, estudos preparatórios, circuns­ tâncias da encomenda, recepção, fortuna crítica etc. A seleção dos aspectos considerados mais relevantes da bibliografia é, em si, uma tácita tomada de posição. Quando cabível, as notas explicitam posicionamentos próprios em relação ao debate em curso. O segundo objetivo deste Comentário é reconstituir de modo sistemático a biografia e o corpus das obras de Michelangelo, através da análise da documentação textual e visual disponível. No que se refere à documentação visual, uma ênfase es­ pecial foi colocada na ilustração do Comentário, que remete a imagens da quase totalidade das obras de Michelangelo e, secundariamente, também de obras de ou­ tros artis­tas que com estas se relacionam. A esse corpus de 1.027 imagens tem-se acesso no sítio <www.vasari.art.br>, que deverá no futuro abrigar todas as imagens de obras existentes, bem como seus estudos preparatórios, cópias e derivações, men­ cionadas nas Vite de Vasari. A leitura do texto de Vasari e do comentário que ele

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engendra deve ser ­feita concomitantemente com a consulta das imagens desse sítio. Ele se desenvolve, de res­to, em estreita interação com outro, também de nossa auto­ ria — <www.mare.art.br> —, graças ao qual as obras de Michelangelo são colocadas em perspectiva do ponto de vista da história da iconografia. Luiz Marques

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Vida de Michelangelo Buonarroti