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FÉ HOJE

N0 36 - Mar/2012 - R$10

PA R A

Comprometida com a Fé que foi entregue aos santos

9 de uma

MARCAS

IGREJA

SAUDÁVEL

Prezado leitor, Desde 1999 a Editora Fiel enviou mais de 600 mil cópias da revista Fé para Hoje gratuitamente para o povo de Deus em países de fala portuguesa. Esta revista foi designada para ser uma ferramenta para ajudar a Igreja e seus líderes a crescer no conhecimento de Deus, e refletir Sua glória para as nações através de vidas e igrejas saudáveis. Entretanto, já há alguns anos, tornou-se inviável a sua publicação, devido a restrições de recursos necessários à sua distribuição gratuita, e, dessa forma, a produção da revista impressa ficou suspensa por algum tempo. É com alegria que comunicamos aos prezados leitores o retorno da publicação da revista Fé para Hoje, que volta à circulação com um novo projeto gráfico e visual, que visa dar mais beleza e fluidez ao conteúdo da fé que foi entregue aos santos! A fim de atender à grande demanda de nossos leitores em todos os países de fala portuguesa, nós repensamos sua distribuição para duas edições por ano, que serão oferecidas através de uma assinatura anual ao preço de R$15,00, com frete incluso, já a partir da próxima edição. O leitor continuará a ter acesso gratuito à revista através do site www.editorafiel.com.br/revistafeparahoje. Aos interessados em assinar a revista Fé para Hoje, pedimos que faça o cadastro através do nosso endereço eletrônico www.editorafiel.com.br/revistafeparahoje, ou pelo telefone 12 3919-9999. Soli Deo Gloria,

J. Richard Denham III Presidente Editora Fiel

Faç a a as s inat ura an ual da r e v ista Fé para H o j e p or ap enas R $ 15,00*

Ligue 12 3919.9999 ou acesse www.editorafiel.com.br/feparahoje * Assinatura anual inclui duas revistas por ano. Se você deseja receber a revista fora do Brasil, entre em contato conosco pelo e-mail: feparahoje@editorafiel.com.br

Sumário A necessidade de igrejas saudáveis

Franklin Ferreira.................................... 2

1. P regue para os ignorantes, os duvidosos e os pecadores – Mark Dever . . ..................... 8 2. O que você sabe sobre teologia?

Mauricio Andrade . . ................................ 12

3. “Muito prazer, evangelho”

Heber Carlos de Campos Júnior . . ........... 16

4. Um entendimento bíblico da conversão

J. Ligon Duncan III . . ............................... 22

5. Indo, pregai o evangelho

Tiago J. Santos Filho............................. 28

6. Membros saudáveis, igreja unida

Leonardo Sahium................................... 34

7. Cartilha de disciplina eclesiástica

Jonathan Leeman................................... 38

8. Interesse pelo discipulado e crescimento

Sillas Larghi Campos............................ 46

9. O aper feiçoamento dos santos

Gilson Santos........................................ 52

editor-chefe revisão

Tiago J. Santos Filho tradução Francisco Wellington Ferreira

Marilene Paschoal

presidente emérito

diagramação

Rubner Durais

presidente

James Richard Denham III

James Richard Denham Jr. realização Editora Fiel | Março de 2012 | no 36

a necessIDaDe de Igrejas

sauDáveIs N

o que se refere à história e presença dos evangélicos no Brasil vivemos, de acordo com a frase de abertura de um famoso romance de Charles Dickens, “o melhor dos tempos, ... o pior dos tempos, ... a primavera da esperança, ...o inverno do desespero”. Presencia-se o crescimento espantoso da fé evangélica no país, especialmente nos últimos vinte anos. De um movimento visto com desprezo num país católico, e majoritariamente rural, ainda que presente em alguns centros urbanos estratégicos, atualmente os evangélicos são quase 26 milhões de fiéis encontrados em todos os estratos sociais e em todas as regiões do país. Os evangélicos se fazem presentes nos meios de 2 | Revista f é pa r a h o j e

comunicação, novas editoras têm sido fundadas e centenas de livros são publicados anualmente, surgiram autores nacionais e sites e blogs de conteúdo evangélico propagaram-se na internet, há produção musical, envolvimento na esfera política e, seguindo a tendência do fim da década de 1990 nos Estados Unidos, há o fenômeno tipicamente pós-denominacional das mega-igrejas. O mais espantoso: para uma comunidade de fé que podia vagamente traçar suas origens na reforma protestante europeia do século 16, a mensagem daquele movimento chegou com força. No passado a herança da reforma era celebrada apenas como uma polêmica anticatólica. Há vinte anos, a simples menção de vocábulos bíblicos como

Franklin Ferreira “predestinação” e “eleição” seria acompanhada de debate tenso, recriminações rasas e infantis do tipo “quem crê em predestinação não faz missões ou não precisa orar” e, até mesmo, exclusão da igreja, do ministério ou da denominação. Havia poucos pregadores e escritores identificados com a fé reformada e escassa literatura traduzida sobre os temas centrais da reforma protestante. Menos ainda fontes primárias – como textos de Martinho Lutero e João Calvino, celebrados como pais fundadores de algumas das principais denominações protestantes presentes no Brasil. Mas o cenário mudou. Especialmente nos últimos dez anos – e seguindo uma tendência mundial – a fé reformada foi redescober-

ta, e seus principais temas, “somente a Escritura”, “somente Cristo”, “somente a graça”, “somente a fé” e “somente a Deus a glória”, se tornaram divisas das mais diferentes denominações no Brasil. Não somente as igrejas históricas, logicamente ligadas a tal herança, mas igrejas pentecostais, carismáticas e até mesmo membros e pastores de igrejas neo-pentecostais descobriram a pujança da herança daquele grande movimento de renovação da Europa do século 16. Os principais personagens do movimento receberam traduções nacionais, os puritanos ingleses, escoceses e americanos também ganharam traduções (não raro de edições resumidas), e experimentou-se uma renovação da ênfase confessional, com as principais confissões de fé do período sendo traduzidas e redescobertas por lideranças eclesiásticas diversas. Mas esse cenário não deve nos iludir. Falta-nos ainda o principal: a propagação de igrejas saudáveis. Por incrível que possa parecer, carece ao movimento evangélico brasileiro, e especialmente à tradição reformada brasileira, igrejas que sejam modelos, que sejam de fato faróis em meio às trevas que cercam nossa sociedade, cada vez mais embrutecida: totalitária, violenta e amoral. E num fenômeno peculiar, quando comparado ao que acontece em outros países, grande parte do estímulo ao retorno à fé reformada se deu por conta da atuação de organizações para-eclesiásticas e não a partir da igreja local. Com exceção da Igreja Presbiteriana do Brasil, a maioria dos pastores Revista fé par a h oje | 3

e igrejas que abraçaram a mensagem da reforma no país no começo dos anos 1990 era moldada pelo fundamentalismo evangélico americano dos primórdios do século 20. Isto é, vários dos pastores e igrejas que se identificaram com a mensagem da reforma, na verdade, acrescentaram os “cinco pontos do calvinismo” à sua pregação e ensino, desconectando esses temas soteriológicos de todo o arcabouço da teologia reformada. Então, salvo exceções pontuais, ao mesmo tempo em que se apresentam como reformadas, estas mesmas igrejas reproduzem o molde fundamentalista antigo: legalismo que confunde moralidade com a palavra da salvação, rejeição e não transformação da cultura, ativismo que torna o culto um serviço, promoção de uma pregação piedosa de autoajuda, governo eclesiástico centrado numa suposta autoridade pastoral ou em algum conceito humanístico de democracia, etc. Para tornar a situação um pouco mais

lidade de ‘seita sitiada’, lutando contra inimigos reais e imaginários, muitas das vezes. Portanto, o grande desafio que se impõe aos pastores evangélicos, e especialmente àqueles que se identificam com a fé reformada, é trabalhar com seriedade pelo florescimento de igrejas saudáveis, comunidades da Palavra e do sacramento. Esta é a necessidade vital e urgente para nosso tempo. Um rápido estudo aponta que, no passado, a força da tradição reformada repousava sobre igrejas locais. Já que vivemos numa sociedade fortemente individualista – onde, aparentemente, até mesmo os reformados ignoram ou desconhecem as implicações práticas da teologia da aliança/pactual – a nossa tendência, o que constitui um erro melancólico, é tratar os principais autores e pensadores da tradição reformada como pessoas desconectadas das comunidades de fé. Todos os grandes teólogos que são caros à tradição reformada foram an-

Portanto, o grande desafio que se impõe aos

pastores evangélicos, e especialmente àqueles que

se identificam com a fé reformada, é trabalhar com seriedade pelo florescimento de igrejas saudáveis”

complicada, estas igrejas não raro são pequenas, inexpressivas nos centros urbanos, muitas vezes avessas a qualquer diálogo com o corpo principal evangélico no Brasil, cultivando uma menta4 | Revista f é pa r a h o j e

tes de tudo homens da igreja, ligados à comunidade visível do povo de Deus. Alguns exemplos provam esse ponto: Agostinho se vinculou tão fortemente a uma comunidade que o nome da ci-

dade onde ele serviu foi ligado ao seu nome. O nome de Martinho Lutero foi conectado ao da cidade do leste da Alemanha onde ele exerceu sua carreira. O ministério de João Calvino se confunde com a história de uma importante cidade suíça de fala francesa. É impossível entender o puritano Richard Baxter, desconectando-o de seu serviço catequético numa pequena cidade do interior rural da Inglaterra. E

graça de Deus, termos igrejas saudáveis. Ao mesmo tempo em que a fé evangélica cresceu espantosamente no país, também cresceu – ou se tornou mais evidente – a superficialidade bíblica e confessional. Há muitos jovens sendo ordenados ao ministério sem terem lido a Escritura toda uma única vez na vida, e são muitos que que tem extrema dificuldade para expor o cristianismo básico: Deus, pecado, cruz, salvação, graça

Os principais pensadores cristãos eram

mestres da igreja, isto é, eles eram pastores,

escritores e teólogos para a igreja e pertencentes a uma comunidade local visível.”

a lista poderia continuar. Os principais pensadores cristãos eram mestres da igreja, isto é, eles eram pastores, escritores e teólogos para a igreja e pertencentes a uma comunidade local visível. Então, voltamos ao desafio: precisamos de igrejas saudáveis. Não tenho em mente igrejas grandes ou mega-igrejas – apesar de que, durante a reforma, e mesmo atualmente, havia e há igrejas com milhares de membros, identificadas e patrocinando a fé da reforma em países como França, Holanda, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Escócia, Estados Unidos e Coréia do Sul. O ponto central é: sem levar em conta o tamanho da comunidade, necessitamos trabalhar, com urgência e zelo, para, debaixo da

e fé. Ou, que talvez até consigam articular uma razoável compreensão dos temas centrais da fé, mas incapazes de articular a base bíblica dos mesmos. As heresias neo-pentecostais tem grande visibilidade, ao mesmo tempo em que ainda persiste um resíduo do ultrapassado liberalismo teológico em certos centros. No que se refere à santificação, em oposição ao melancólico e insípido legalismo oriundo do fundamentalismo, parece prevalecer hoje a perniciosa heresia do antinomismo. O serviço político dos crentes não raro é servilismo aos donos do poder mundano. Ainda que escrevendo por amostragem, julgo não ser necessário ilustrar cada ponto, cabendo ao leitor checar se a situação é Revista fé par a h oje | 5

mesmo assim, e suplicando por meio da oração uma reversão dessa situação: “Se eu cerrar os céus de modo que não haja chuva, ou se ordenar aos gafanhotos que consumam a terra, ou se enviar a peste entre o meu povo; se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2Cr 7.13-14). Portanto, necessitamos de igrejas saudáveis. Nesse sentido, o que vem acontecendo na Igreja Batista Capitol Hill, em Washington DC, nos Estados Unidos, desde 1994, pode ser de ajuda para igrejas em busca de modelos bíblicos. Na metade daquele ano Mark Dever se tornou o pastor de uma comunidade que precisava de direção. A partir de sua chegada àquela comunidade, este pastor começou a enfatizar aquelas marcas que ele entendia que, a partir da Escritura, caracterizam uma igreja saudável: ênfase na pregação expositiva e na teologia bíblica, compreensão bíblica da conversão, da evangelização, do ser membro de uma igreja local e da disciplina eclesiástica, interesse por discipulado e crescimento, pluralidade e paridade dos presbíteros no guiar a igreja local. Nesse processo de tratar da saúde da igreja, ele perceptivelmente descobriu que, em fins do século 19, na medida em que a igreja americana se tornou ativista, preocupada com a reforma da sociedade e liderando campanhas contra a abstinência de álcool e fumo, voto feminino, etc., deixou de se reformar 6 | Revista f é pa r a h o j e

teológica e eclesiasticamente. O ativismo social se tornou um pobre substituto para a pregação do evangelho da graça, e a igreja se tornou não um local de celebração e adoração, mas meramente um encontro de pessoas que poderiam servir ao clero para alcançar certos alvos sociais e políticos. Nesse processo, a igreja descaracterizou-se, perdendo seu lugar na sociedade. A ênfase do ministério de Dever – e isso se reflete em vários de seus livros já publicados no Brasil – reside na reforma da igreja, na necessidade de se ter igrejas saudáveis, que glorifiquem a Deus. Pois são essas igrejas, radicalmente bíblicas, que serão, de fato, comunidades da reforma: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.11-15). São igrejas saudáveis, reformadas pela Escritura, que influenciarão a socieda-

de. E esse tem sido o padrão histórico, seja no século 16 ou no século 18 – igrejas reformadas, sociedade transformada – com todas as implicações doutrinais, eclesiais, sociais, econômicas e políticas que se seguem. Muitas vezes, em meio a mudanças conjunturais, experimentamos a necessidade de congregarmos em igrejas saudáveis. Dietrich Bonhoeffer escreveu aos alunos do seminário de pregadores

cristãs saudáveis são fundamentais em tempos de perseguição e provação. E a experiência e a saudade de uma igreja saudável devem fazer parte da peregrinação de todo cristão. Muitos pastores/presbíteros em nosso país têm trabalhado em seus ministérios para ter igrejas saudáveis. Perseveram, com humildade, sabedoria e coragem. Há grande recompensa para vocês! Que muitos outros pastores/

São igrejas saudáveis, reformadas pela Escritura, que influenciarão a sociedade.” da igreja confessante em Finkenwalde, na Pomerânia, em meados de 1937: “É graça de Deus uma comunidade poder reunir-se neste mundo, de maneira visível, em torno da Palavra de Deus e dos sacramentos. Nem todos os cristãos compartilham dessa graça. As pessoas presas, doentes, solitárias na dispersão, que pregam o Evangelho em terras pagãs sozinhas. Elas sabem que a comunhão visível é graça. (...) A presença física de outros cristãos constitui para o cristão uma fonte de alegria e fortalecimento incomparáveis. (...) Através da presença física do irmão, o crente louva o Criador, Reconciliador e Salvador, Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Na proximidade do irmão cristão, o preso, o doente, o cristão na diáspora reconhece um gracioso sinal físico da presença do Deus triúno”. Comunidades

presbíteros cativos à Sagrada Escritura se lancem à tarefa de reformar suas igrejas, trazendo seus membros para debaixo da autoridade da santa Palavra de Deus, para que experimentemos o florescimento de igrejas bíblicas e saudáveis em nosso país. Pois é por meio destas igrejas que o avivamento pode vir, e que por meio desta renovação se possa dizer: “Feliz a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo que ele escolheu para sua herança” (Sl 33.12).

Franklin Ferreira: É mestre em teologia, pastor batista, autor, preletor, diretor do Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, SP.

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M a r c a 1: P r e g a ç ã o E x p o s i t i va

Pregue

Ignorantes, os

O

uço frequentemente esta pergunta: como você aplica o texto em um sermão expositivo? Por trás desta pergunta pode haver diversas suposições questionáveis. O inquiridor pode estar lembrando os sermões “expositivos” que ele ouviu (ou pregou) que não eram diferentes das palestras bíblicas no seminário – bem estruturados e exatos, mas demonstravam pouca urgência piedosa e pouca sabedoria pastoral. Estes sermões expositivos talvez tiveram pouco efeito, se houve alguma aplicação. Por outro lado, o inquiridor pode apenas não saber como reconhecer aplicações quando as ouve. William Perkins, o grande teólogo puritano do século XVI, em Cambrid8 | Revista f é pa r a h o j e

ge, instruiu os pregadores a imaginarem os vários tipos de ouvintes e pensarem nas aplicações para cada tipo de ouvinte – pecadores endurecidos, duvidosos questionadores, santos fatigados, jovens entusiastas e assim por diante. O conselho de Perkins é muito proveitoso, mas felizmente já fazemos isso. Quero abordar o tema da aplicação de maneira diferente: não somente há tipos diferentes de ouvintes, há também tipos diferentes de aplicação. Quando tomamos uma passagem da Palavra de Deus e a explicamos de modo claro e constrangedor, com sentimento de urgência, há pelo menos três diferentes tipos de aplicação que refletem três diferentes tipos de problema que enfrentamos na peregri-

para os Duvidosos e os Pecadores Mark Dever nação cristã. Primeiramente, lutamos com a praga da ignorância. Em segundo, lutamos com a dúvida, mais frequentemente do que a princípio compreendemos. Em terceiro, lutamos também com o pecado – ou em atos de desobediência direta, ou em negligência pecaminosa. Como pregadores, anelamos ver mudanças em todas as três maneiras, tanto em nós mesmos como em nossos ouvintes, toda vez que pregamos a Palavra de Deus. E todos os três problemas fazem surgir um tipo diferente de aplicação legítima.

Ignorância Ignorância é o problema fundamental em um mundo caído. Nós nos

afastamos de Deus; nos separamos da comunhão direta com o nosso Criador. Não é surpreendente que informar as pessoas da verdade sobre Deus é, em si mesmo, um poderoso tipo de aplicação – do qual necessitamos desesperadamente. Isto não é uma desculpa para sermões frios e sem paixão. Posso sentir-me tão estimulado (e mais) por afirmações indicativas quanto por mandamentos imperativos. Os mandamentos do evangelho de arrepender-se e crer não significam nada sem as afirmações indicativas a respeito de Deus, de nós mesmos e de Cristo. Informação é vital. Somos chamados a ensinar a verdade e a proclamar uma mensagem importante sobre Deus. Queremos que as pessoas ouçam nossas mensagens para deixarem a ignorância e serem aptas a conhecer a verdade. Esse informar sincero é aplicação.

Dúvida Dúvida é diferente de ignorância. Na questão “dúvida”, pegamos idéias ou verdades que nos são familiares e as questionamos. Esse tipo de questionamento não é raro entre cristãos. De fato, dúvida pode ser um dos problemas mais importantes a serem explorados com prudência e totalmente desafiados em nossa pregação. Abordar dúvidas não é algo que um pregador faz com não crentes tendo em vista um pouco de apologética antes da conversão. Algumas pessoas que ouvem nossos sermões semana após semana podem saRevista fé par a h oje | 9

ber bem todos os fatos que o pregador menciona sobre Cristo, Deus ou Onésimo; mas elas podem muito bem estar lutando com dúvidas e perguntando a si mesmas se creem realmente que tais fatos são verdadeiros. Às vezes, as pessoas podem nem estar cientes de suas dúvidas, quanto menos ser capazes de afirmá-las como dúvidas. No entanto, quando começamos a considerar as Escrituras de modo perscrutador, descobrimos a existência de dúvidas, incertezas e hesitações, todas as quais nos deixam cônscios do poder das dúvidas para nos afastar do caminho fiel dos peregrinos. Para essas pessoas – talvez para essa parte de nosso próprio coração – queremos argumentar em favor da veracidade da Palavra de Deus e insistir na importância de crer nela. Somos chamados a instar os ouvintes a confiar na veracidade da Palavra de Deus. Queremos que as pessoas que ouvem nossas mensagens abandonem a dúvida e creiam de todo o coração na verdade. Essa pregação urgente e perscrutadora da verdade é aplicação.

Pecado O pecado é, também, um problema neste mundo caído. Ignorância e dúvida podem ser, elas mesmas, pecados específicos, o resultado de pecados específicos, ou nenhuma dessas coisas. Entretanto, o pecado é, certamente, mais do que negligência ou dúvida. Assegure-se de que os ouvintes de seus sermões lutaram com a desobedi10 | Revista f é pa r a h o j e

ência a Deus na semana passada e que certamente lutarão com o desobedecer-lhe na semana que estão iniciando. Os pecados podem ser vários. Alguns serão desobediência de ação; outros serão desobediência de omissão. Mas, por comissão ou por omissão, os pecados são desobediência a Deus. Parte da pregação tem o propósito de desafiar o povo de Deus à santidade de vida que refletirá a santidade do próprio Deus. Portanto, parte da aplicação da passagem das Escrituras consiste em apresentar as implicações da passagem bíblica para as nossas ações nesta semana. Como pregadores, somos chamados a exortar o povo de Deus à obediência à sua Palavra. Desejamos que nossos ouvintes mudem da desobediência pecaminosa para a obediência alegre e feliz a Deus, de acordo com sua vontade revelada em sua Palavra. Essa exortação à obediência é aplicação.

O evangelho A principal mensagem que precisamos aplicar sempre que pregamos é o evangelho. Algumas pessoas não conhecem ainda as boas novas de Jesus Cristo. E algumas delas podem estar ouvindo a sua pregação por algum tempo – distraídas, sonolentas, divagando ou não prestando atenção de alguma outra maneira. Elas precisam ser informadas do evangelho. Precisam saber do evangelho. Outras podem ter ouvido, entendido e, talvez, aceitado a verdade, mas

agora estão lutando com dúvidas sobre os assuntos que você está abordando em sua mensagem. Essas pessoas precisam ser exortadas a crer na verdade das boas novas de Cristo. Além disso, pessoas podem ter ouvido e entendido, mas ainda demoram a se arrepender de seus pecados. Podem até aceitar a verdade da mensagem do evangelho, mas não querem abandonar seus pecados e crer em

precisam ser exortados a abandonar o pecado, embora a pessoa para a qual você prega não esteja ciente dessa necessidade. Uma nota final. Provérbios 23.12 diz: “Aplica o coração ao ensino e os ouvidos às palavras do conhecimento”. Em algumas traduções da Bíblia, parece que a palavra “aplicar” quase sempre (talvez sempre?) não tem referência à obra do pregador (como nos ensina a

não somente há tipos diferentes de ouvintes, há também tipos diferentes de aplicação. Cristo. Para esses ouvintes, a aplicação mais poderosa que você pode fazer é exortá-los a odiar seus pecados e a vir a Cristo. Em todos os nossos sermões, devemos procurar aplicar o evangelho por informar, instar e exortar. Um desafio comum que nós, pregadores, enfrentamos em aplicar a Palavra de Deus, em nossos sermões, é que as pessoas que experimentam problemas em uma área proeminente pensam que você não está aplicando as Escrituras em sua pregação porque não está abordando o problema específico delas. Elas estão certas? Não necessariamente. Enquanto a sua pregação pode melhorar se você começar a abordar toda categoria de problemas mais frequente e abrangentemente, não é errado você pregar para aqueles que precisam ser informados ou que

homilética), nem mesmo à obra do Espírito Santo (como nos ensina a teologia sistemática), e sim à obra daquele que ouve a Palavra de Deus. Somos chamados a aplicar a Palavra ao nosso próprio coração e a aplicar-nos, nós mesmos, a essa obra. Essa, talvez, seja a aplicação mais importante que poderemos fazer no próximo domingo para o benefício de todo o povo de Deus.

Mark Dever: É doutor em teologia, pastor da Igreja Batista Capitol Hill em Washington D.C, EUA, fundador do ministério 9 Marcas, autor e preletor.

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M a r c a 2: t e o l o g i a b í b l i c a

O que

vocÊ sobre

sabe

teologIa? V

amos fazer algumas afirmações sobre Teologia! Talvez a primeira delas deva ser a seguinte: todos fazem teologia. É inescapável. Seja profissionalmente, no meio acadêmico, seja no banco da igreja. Pode ser com seriedade ou com um tom de indiferença – tanto faz. Quando alguém diz “Deus não existe!” ou “Deus é amor e não vai punir ninguém, eternamente!” está fazendo teologia. É como política – não dá para não se envolver, pois quando você diz que não se envolve, pronto, acabou de expressar uma posição política... Daí, a questão, então, não é se você vai pensar teologicamente ou não, mas se a qualidade do seu pensar teológico será boa ou ruim. Uma segunda questão pode ser co-

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locada assim: fazer teologia não é dizer o que se quer sobre Deus, sem qualquer parâmetro, expressando apenas o que se deseja ou o que se gostaria que fosse verdade. Não, pelo menos, se houver algum grau de seriedade. Todos fazem teologia porque, diante de uma pergunta mais séria, expressarão uma opinião também minimamente séria. Mas a simples interjeição “Meu Deus!” ou a frase indignada ante o sofrimento humano, por exemplo, não é, necessariamente, pensar teológico: nem todos os que gritam “Deus do Céu!” acreditam na existência dEle. Devo dizer aqui que a tensão entre essas duas coisas, muitas vezes, confere à teologia um caráter irrelevante. Isso porque, de um lado, não se pode evitar

Mauricio anDraDe fazê-la e, de outro, muitos se limitam apenas a expressar o que gostariam que fosse verdade a respeito de Deus. Desse modo, trazido à categoria da irrelevância, o pensar teológico acaba servindo de base para o seguinte modo de pensar: a crença religiosa tem importância apenas individual e, mesmo assim, relativa - afinal, quanto do que você crê a respeito de Deus influencia realmente o seu dia a dia? A solução que alguns cristãos têm encontrado para isso é remodelar o conjunto de crenças cristãs a fim de tornar o cristianismo relevante. Paradoxalmente, essa releitura da fé cristã, assim direcionada àquilo que alguém ou algum grupo julgue relevante (autorrealização, solução para o sofrimento humano, remédio

para problemas emocionais, construção da paz mundial, abraçar o mico-leão dourado, etc) torna-a, inevitavelmente, inócua. Mas, há ainda mais uma coisa a ser dita – e, talvez a mais importante: sua teologia, seja ela boa ou ruim, feita com zelo ou levianamente, definirá sua vida, sua igreja, seus relacionamentos e até mesmo seu destino eterno. A importância disso só pode ser desprezada com enorme prejuízo para os envolvidos. O que você pensa a respeito de Deus vai afetar seu modo de ver o mundo, as pessoas, seus compromissos, suas prioridades, seus métodos, sua fé – enfim, sua cosmovisão. O que nos leva à questão decisiva: qual a fonte primária de nossa teologia? Sobre que base principal se assenta o nosso pensar teológico? Embora a resposta a essas perguntas pudesse ser algo como a intuição, a imaginação, a observação ou outras coisas, a questão mesma nos levará, inevitavelmente, ao conjunto de livros autoritativos da Fé Cristã: a Bíblia! E a Bíblia toda. Através dos séculos, os cristãos têm crido que a Bíblia é a revelação dada por Deus a respeito de si mesmo e de sua criação. Isso não exclui o estudo de outras fontes de conhecimento, mas coloca as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento como autoridade máxima sobre todo o resto. Isso também mostra que cremos que Deus falou, e aponta para a crença de que precisamos de algo que venha de fora de nós mesmos, de fora da Criação. Os que crêem que a Bíblia Revista fé par a h oje | 13

é a Palavra de Deus admitem, então, que o Criador agiu e falou na história. E que fez esses atos e palavras serem registrados e preservados. Posso colocar de outra forma: as Escrituras não são, primariamente, o produto da experiência religiosa ou da interpretação deste ou daquele grupo social – embora possa envolver tais coisas. A Palavra de Deus não é o que sobra depois que decidimos se o ambiente cultural de determinado profeta, apóstolo ou comunidade é ou não relevante para nossa situação. A Palavra de Deus é o resultado da ação intencional de Deus em falar de si mesmo e de sua Criação. Assim, se é verdade que faz toda a diferença o que você pensa sobre Deus, faz toda a diferença, também, o modo como você vê as Escrituras. Se confiarmos no relato que as Escrituras nos dão sobre o Criador, chegaremos a certas conclusões; se a fonte primária de nossa teologia for nossa intuição, nosso desejo ou nossas preferências, chegaremos a conclusões substancialmente diferentes sobre quem Deus é. A Bíblia nos apresenta Deus tanto em proposições diretas como em histórias de seu relacionamento com os seres criados. Não temos diante de nós um livro de enigmas a serem decifrados, mas de instrução vitalizada por ricas imagens históricas, ocorridas na realidade. E isso faz toda a diferença! Indo além: se pinçarmos, à nossa predileção, textos ou porções bíblicas enquanto desprezamos sua totalidade, seremos afetados em nossa imagem final de Deus. Assim, se Deus é o Criador de todas 14 | Revista f é pa r a h o j e

as coisas e as sustenta e governa, como isso nos afeta? Se ele é bom, se é justo, ou se é moralmente neutro, o que isso tem a ver com nossa forma de ver o mundo? Se ele é fiel e mantém seus juramentos e promessas, ou se criou o mundo e foi cuidar de outra coisa deixando o resto a nosso encargo, o que isso faz de nós? Se Deus é soberano e tem controle sobre tudo o que criou ou se ele só intervém em certas coisas, como participamos nós dessa situação? Será Ele o padrão pelo qual tudo e todos serão medidos, ou somos nós esse padrão? Ou, ainda, será que Ele estabeleceu algum padrão? E se estabeleceu, nós o preenchemos? Se não, há alguma solução? Do ponto de vista do Criador, seremos nós seres bons, neutros ou maus? Precisamos de salvação ou só de alguns ajustes? Se precisamos de salvação, em que ela realmente consiste? Faz ou não faz diferença o modo como respondemos a essas perguntas? Quando lemos a Bíblia como revelação do Criador e em sua totalidade, descobrimos um Deus que é soberano e governa tudo o que criou, sendo Ele mesmo o Criador de todas as coisas. Vemos ali um Deus justo e bom e que, por isso mesmo, só pode aprovar aquilo que reflete a si mesmo. Desse modo, num ato de amor, criou todas as coisas para refletirem e usufruírem sua própria glória. Havendo suas criaturas, num ato de rebelião, rejeitado toda essa bondade, Ele não as abandonou, mas providenciou, em si mesmo e amorosamente, um meio de resgatá-las, enquanto preserva sua integridade santa e justa. Isso aconteceu em Jesus Cristo, Deus-Homem, que, es-

tância à expressão, à manifestação dessa opinião. Você já ouviu alguém declarar que o estudo da escola dominical foi muito bom e, quando você perguntou a razão, a resposta foi algo do tipo “porque todos falaram!”? Certamente ouvir o que os outros têm a dizer é muito importante. Certamente faz parte do próprio processo de crescimento a troca de ideias e opiniões. Mas a simples apresentação do que cada um pensa ou deseja sobre alguma questão não implica, necessariamente, em crescimento. E isso é ainda mais importante quando o asDeus não nos chamou sunto é Deus! Um número incripara sermos crédulos, mas velmente grande de cristãos precrentes! Jesus Cristo nos fere absorver sem muita reflexão o que outros dizem sobre Deus, ensina o dever de amar a sem se importar em verificar se as Deus com o entendimento.” coisas são mesmo como apresentadas. Muitos aceitam críticas e análises “científicas” sobre a Bíblia, sem Faz ou não faz diferença se cremos questionar, aceitando a autoridade desnessas coisas ou não? te ou daquele professor numa atitude Deixe-me terminar com uma reflea que chamo de “credulidade acadêmixão: no Brasil, infelizmente, dá-se pouca ca”. Deus não nos chamou para sermos importância à questão das fontes pricrédulos, mas crentes! Jesus Cristo nos márias. Até bem pouco tempo, poucos ensina o dever de amar a Deus com o tinham acesso aos escritos originais de entendimento. muitos autores. Líamos o que outros Assim, permita-me finalizar deiescreviam sobre o que alguém havia esxando-o com essa importante questão: crito antes. Mesmo os crentes sofreram qual o grau de seriedade do seu pensar esse envolvimento cultural de modo teológico? que, para muitos de nós, é mais fácil ler o que dizem sobre a Bíblia do que ler a própria Bíblia. Por outro lado, principalmente nos últimos anos, passou-se a dar Mauricio Andrade: Graduado em teologia, é importância capital à opinião individupastor da Primeira Igreja Batista Bíblica da Tial. Ou, para ser mais preciso, eu deveria juca, RJ, professor, articulista e preletor. dizer que se passou a dar muita imporpontaneamente, toma sobre si natureza humana, morre em lugar dos pecadores, ressuscita para dar-lhes vida e ordena a pregação desses acontecimentos a todo o mundo. Àqueles que crêem nessa mensagem, Deus lhes garante o perdão dos pecados, a justiça de Cristo, a condição de filhos, a habitação de seu santo Espírito, sua amizade e direção a cada dia e a comunhão com Ele na bem-aventurança eterna. A isso a Bíblia chama de evangelho – boas novas.

Revista fé par a h oje | 15

M a r c a 3: O E va n g e l h o

Muito Prazer, Evangelho É

comum não darmos crédito a pessoas que dizem torcer para um determinado time de futebol mas que não sabem quando ele vai jogar, quais os principais jogadores ou em que posição está no campeonato. Gente assim parece assumir um time apenas para não ficar de fora da cultura futebolística de nosso país. Semelhantemente, há muitos que se dizem evangélicos, mas que não conhecem a essência da boa nova, nem sabem distinguir falsos evangelhos presentes no âmbito eclesiástico. Gente assim parece desejar fazer parte da cultura evan16 | Revista f é pa r a h o j e

gélica (as razões são diversas) sem, contudo, conhecer o evangelho. Essa é uma triste constatação. Porém, de forma geral ela não nos afeta porque já estamos anestesiados pela multiplicidade de pseudo igrejas cristãs em nosso país. Julgo eu que essa tristeza só é internalizada quando percebemos que há considerável desentendimento do que seja evangelho até entre membros de igrejas supostamente bíblicas, que zelam por pregação e ensino, que visam a glória de Deus.1 Por que isso acontece? Em parte, porque o evangelho é contraintuitivo.

Heber Carlos d e C a mp o s J r

Ele não brota naturalmente em nosso modo de pensar. Por isso, o evangelho não pode ser uma mensagem para se ouvir apenas uma vez, apenas para se converter a Cristo. Transmitimos essa noção ao falarmos de uma pregação como sendo “evangelística”, isto é, voltada para aquele que desconhece a salvação em Cristo. Em outras palavras, a mensagem do evangelho parece ser aquela voltada para o descrente. Porém, se o evangelho é para o descrente, o que pastores pregam todo domingo aos membros da igreja? Deveria ser o evangelho, mas nem sempre o é.

Por isso, acredito que cada geração, inúmeras vezes, precisa redescobrir o evangelho, resgatar o cerne das boas novas de Cristo Jesus. “O evangelho é para os cristãos também”, afirma Michael Horton. “Necessitamos ser evangelizados todas as semanas.”2 O desentendimento em relação ao evangelho é tão grande que Mark Dever, em seu livro Nove Marcas de uma Igreja Saudável (Editora Fiel, 2007), gasta boa parte do capítulo sobre evangelho explicando o que ele não é. Primeiramente, ele afirma que as boas novas não são apenas que tudo está bem conosco. Num tempo em que pessoas são encorajadas a se aceitarem como elas são, a Bíblia afirma que elas não podem gostar de quem elas são enquanto pecadoras. “Não somente nos sentimos culpados, somos realmente culpados diante dele. Não temos apenas conflito em nosso íntimo, estamos em conflito com Deus.”3 As boas novas de Jesus devem despertar o nosso interesse por perdão e transformação constantes, além de esperança de um porvir sem pecado. Em segundo lugar, as boas novas não são apenas que Deus é amor e que Jesus quer ser nosso amigo. A falta de equilíbrio está em transmitir a ideia de que Deus espera que nós iniciemos um relacionamento com ele. Deus Revista fé par a h oje | 17

não espera por nossa iniciativa, ele já iniciou a busca de nos aproximar dele. Para isso, ele precisa superar as barreiras do pecado por causa de sua própria santidade. Deus quer-nos perto dele, mas o custo é altíssimo, pois envolve a humilhação de seu Filho. Em terceiro lugar, as boas novas não são apenas que nós devemos viver corretamente. Se dissermos que o evangelho ajuda-nos a ser pessoas melhores, vamos comunicar erroneamente que se trata de um aditivo à minha presente busca por algo melhor. O evangelho não é algo a ser acrescido à sua vida. O evangelho requer renúncia – arrependimento e fé – a disposição de nascer de novo,

plos que vão do erudito ao popular. O jornalista britânico Henry Fairlie escreve de forma muito perspicaz sobre os pecados da sociedade atual (The Seven Deadly Sins Today, 1978), sem possuir um referencial cristão para resolver esse problema. O educador baiano Antônio Barreto escreveu literatura de cordel criticando severamente a banalidade do programa Big Brother Brasil, mas propondo mais educação para solucionar os problemas sociais de nosso país. Ambos fazem boa análise dos efeitos da Queda na sociedade, mas não conseguem enxergar a redenção em Cristo Jesus. Eles até possuem modelos de redenção, as-

As boas novas de Jesus devem despertar o nosso interesse por perdão e transformação constantes, além de esperança de um porvir sem pecado” começar do zero, abandonar toda tentativa prévia de uma vida honrosa, honesta e feliz ( João 3.1-21).4 O evangelho realmente é contraintuitivo. Os ímpios até enxergam a Queda, mas não a Redenção. Isso pode ser confirmado por exem18 | Revista f é pa r a h o j e

pirações de solucionar os problemas do mundo, mas que não incluem Jesus. Iluminação moral e espiritual é aceita sem dificuldades, mas redenção por uma operação somente divina é uma proposta escandalosa. Por isso, o evangelho é notícia,

novidade totalmente desconhecida entre os homens. O evangelho é desconhecido até de muitos crentes, como mostra Michael Horton em seu livro Cristianismo sem Cristo. Focamos mais em “o que faria Jesus?” ao invés de “o que fez Jesus?” Cristo é visto mais como exemplo do que como Salvador. Gostamos de mensagens

amente como tornar a igreja relevante para o mundo real. Queremos participar da Missio Dei remindo a cultura, transformando o mundo. Mensagens para jovens falam mais do nosso compromisso com Deus do que do compromisso dele conosco. Cantamos mais músicas que falam de nossa entrega a Deus do que do sacrifício de Cristo. Quantas vezes

Iluminação moral e espiritual é aceita sem dificuldades, mas redenção por uma operação somente divina é uma proposta escandalosa. Por isso, o evangelho é notícia, novidade totalmente desconhecida entre os homens” práticas (vem de ‘práxis’, apontando para o que devemos fazer) onde o sofrimento de Jesus no Getsêmani é relacionado às nossas lutas diárias, como se o sofrimento vicário de Cristo fosse experimentado por nós só que em grau menor. Nós nos acostumamos com pregações moralistas. Crentes esperam o momento da mensagem em que nós lhes diremos o que fazer para melhorar a vida espiritual, a vida familiar, ou como causar impacto na sociedade. Pastores e teólogos estudam ardu-

no departamento infantil da Escola Bíblia Dominical, somos treinados a terminar a aula ensinando os alunos a fazer algo (obras), antes do que crer em algo (fé). Na educação de filhos, também somos prontos em dar ordens (obedecer os pais, respeitar os mais velhos, ser educado na casa dos outros), mas nem sempre ensinamos nossos filhos a responder bem quando erram. Nossos pequeninos precisam aprender o evangelho. Precisamos aprender com o nosso Pai celestial que filhos são encorajaRevista fé par a h oje | 19

dos com promessas, com perdão, não com ‘linha dura’. Horton resume toda essa tendência moderna assim: “Grande parte de nosso ministério, hoje, é lei

toa que devemos celebrar a Ceia do Senhor regularmente. A Ceia traz o evangelho aos nossos sentidos, ela nos permite provar e ver que o Senhor é bom.

A Ceia traz o evangelho aos nossos sentidos, ela nos permite provar e ver que o Senhor é bom” sem evangelho, exortação sem notícias, instruções sem anúncio, obras sem credos, com a ênfase em ‘o que teria feito Jesus?’ em lugar de ‘o que fez Jesus?’.”5 Horton não está dizen-

do que não podemos ensinar a lei, os mandamentos de Deus. A lei faz parte da revelação divina. Porém, ele está destacando a necessidade desesperadora de ouvirmos o evangelho para cumprirmos a lei.6 Ele diz que precisamos “de um evangelho que seja suficiente para salvar até mesmo os cristãos infiéis. Não podemos deixar de valorizar o evangelho. Ele é sempre um anúncio surpreendente que infla nossas velas com fé para uma vida ativa de boas obras.”7 O evangelho é essencialmente uma notícia, uma história que precisamos ouvir de novo, e de novo. Não é à 20 | Revista f é pa r a h o j e

O evangelho é a preciosa joia (Ef 3.8) com múltiplas facetas, mas com um único esplendor. Suas várias facetas podem ser vistas na diversidade de analogias para descrever as dádivas divinas. O apóstolo Paulo usa linguagem jurídica (justificação), comercial (redenção), religiosa (propiciação), relacional (reconciliação) e militar (triunfo) para tentar explicar a paz (Ef 6.15), a vida (2 Tm 1.10), a esperança (Cl 1.23) o poder (Rm 1.16; 1 Ts 1.5) e a glória (2 Ts 2.14; 1 Tm 1.11) que obtivemos no evangelho de Jesus Cristo, morto e ressurreto. Todavia, todas essas dádivas visam um único fim. John Piper destaca bem a principal dádiva do evangelho: “Propiciação, redenção, perdão, imputação, santificação, libertação, cura, céu – nenhuma des-

tas coisas é boa-nova exceto por uma única razão: elas nos trazem a Deus, para nosso eterno desfrute dele.”8 Deus é o grande presente. O prazer maior dos fiéis sempre foi o de contemplar a Deus. Moisés (Ex 33.18), Davi (Sl 27.4, 8; Sl 63.1-2), Jeremias (Lm 3.24), Paulo (Fp 3.8) almejaram isso mais do que tudo. Esse é o alvo final de todo remido (Ap 21.3, 22-23; 22.3-5). Ouvir o evangelho é ter júbilo constante por enxergar “a glória de Deus na face de Cristo” (2 Co 4.6). Portanto, comecemos do zero. Volte-se às Escrituras e ouça a redescoberta: “Muito prazer, Evangelho”.

o evangelho é contraintuitivo”

(1) a afirmação de que Jesus é Senhor, pois ao assumir o posto de Senhor que há de nos julgar a notícia não é boa se ele também não for Salvador; (2) os quatro pilares da história da redenção (criação-queda-redenção-consumação), pois o esboço amplo que não especifica o ‘como’ da redenção deixa pecadores ainda perdidos; (3) a transformação cultural como grande missão da igreja, pois a expectativa de mudança do mundo é moralista e se assemelha à esperança de ímpios. O ponto de Gilbert é que esses três conceitos são verdadeiros, mas não são a essência do evangelho, que é a cruz. Sem a cruz não há boa-nova. GILBERT, O que é o Evangelho?, p. 137-150. 5. HORTON, Cristianismo sem Cristo, p. 89. 6. “Não somos chamados para viver o evangelho, mas para crer no evangelho e para seguir a lei mediante a misericórdia de Deus.” HORTON, Cristianismo sem Cristo, p. 103. Entretanto, entender o lugar da lei e do evangelho em nossa pregação é sempre um desafio, um equilíbrio que requer atenção redobrada. Ernest Kevan verbaliza esse problema assim: “Há uma perfeita harmonia entre a graça salvadora de Deus e as boas obras do crente, mas a exposição desta harmonia constitui um dos problemas da teologia cristã. Não é fácil insistir na graça de Deus sem dar algum tipo de fundamento à acusação de que a doutrina é licenciosa ou antinomiana; também não é fácil afirmar a necessidade das boas obras sem provocar o clamor de que a graça de Deus está sendo destruída.” KEVAN, Ernest. A Lei Moral (São Paulo: Os Puritanos, 2000), p. 28. 7. HORTON, Cristianismo sem Cristo, p. 100.

1. Greg Gilbert cita algumas definições de “evangelho” que divergem muito entre si, de autores que vão desde o mais evangelical, passando pela preocupação com revolução social, até uma mensagem moralista típica de liberais. GILBERT, Greg. O que é o Evangelho? (São José dos Campos: Fiel, 2010), p. 25-28.

8. PIPER, John. Deus é o Evangelho (São José dos Campos: Fiel, 2006), p. 50.

2. HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo: O evangelho alternativo da igreja atual (São Paulo: Cultura Cristã, 2010), p. 103. 3. DEVER, Mark. Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos: Fiel, 2007), p. 87. 4. Greg Gilbert sugere outros três conceitos bíblicos que não podem ser confundidos com o evangelho:

Heber Carlos de Campos Jr.: Doutor em Teologia Histórica, Capelão da Universidade Presbiteriana Mackenzie, autor e preletor.

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M a r c a 4: c o n v e r s ã o

Um entenDIMento

bíblIco da conversão

U

ma coisa que toda igreja cristã precisa ter é um entendimento, uma experiência, do próprio evangelho. É importante ressaltar que antes e acima de tudo o evangelho é sobre Deus. É sobre Cristo. É sobre o que Deus fez, o que Cristo fez por nós. Mas o evangelho exige uma resposta, e a resposta é uma resposta de fé e arrependimento. E conversão é outra maneira de definir esta resposta de fé à mensagem da chamada de Deus no evangelho e à sua obra de regeneração. Uma igreja local saudável, uma comunidade de cristãos saudável, é caracterizada por um entendimento e uma experiência da poderosa obra de conversão realizada pelo Espírito Santo. Uma igreja local saudável entende que

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somente Deus pode mudar o coração humano; que somente Deus pode criar mudança profunda em lugares profundos onde nenhum ser humano pode penetrar; e que, quando Deus muda o coração humano, o coração humano responde com confiança em Deus, com arrependimento do pecado. E há, juntamente com o arrependimento, uma transformação de vida, de modo que aqueles que estão ao redor podem ver a nova obra que Deus está operando no coração daquele – homem, mulher, rapaz e moça – que foi convertido. E isso torna a igreja diferente do mundo, separada do mundo. O que torna a igreja diferente do mundo? Há muitas respostas corretas para essa pergunta, mas uma das coisas

J. L i g o n D u n c a n III que torna a igreja diferente do mundo é que na igreja Deus realiza a obra do novo nascimento no coração de todos os que são verdadeiros crentes, para que eles tenham uma nova confiança e um novo desejo. Quero mostrar três coisas: o novo coração, a nova confiança e o novo desejo. As passagens que examinaremos são Salmos 51 e João 3.

1. O Espírito Santo operar

primeiro

em

tem de nosso

coração

Primeiramente, observe em Salmos 51: Davi ressaltou que desejava que Deus operasse nas partes mais íntimas de seu ser. No versículo 10, ele disse: “Cria em mim, ó Deus, um

coração puro”. Ele não disse: “Senhor, ajuda-me a criar, em mim mesmo, um coração puro”. Davi não disse: “Senhor, dê-me os cinco passos que preciso tomar para criar um coração puro”. Ele não disse: “Diga-me as duas coisas que eu preciso fazer antes de poder mudar o meu próprio coração”. Ele disse: “Senhor, crie em mim, você mesmo, um coração puro”. E observe que Jesus disse a mesma coisa a Nicodemos: “Nicodemos, deixe-me, amigo, explicar algo! Você não pode nem mesmo ver o reino de Deus, quanto menos entendê-lo, responder a ele corretamente, fazer parte dele e ensiná-lo. Você não pode nem mesmo ver o reino de Deus se não nascer de novo”. Em outras palavras, tanto Davi quanto Jesus estavam enfatizando que a mudança profunda tem de acontecer no coração de toda pessoa – homem, mulher, rapaz e moça – neste mundo, porque estamos presos nos laços do pecado, nas trevas de iniquidade; essa mudança que tem de acontecer em nosso coração não é algo que o ser humano tem o poder de realizar. Eu não tenho o poder de realizá-la em você; você não tem o poder de realizá-la em mim. Aliás, isso não é muito diferente do tipo de coisa mascateada tanto na espiritualidade secular como na espiritualidade religiosa de nossos dias, que lhe dão os passos que você precisa tomar para fazer aquela dramática mudança interior? Não, somente Deus pode fazer isso. Foi exatamente isso que Davi disse: “Senhor, tu tens de criar em mim Revista fé par a h oje | 23

um coração puro”. Jesus disse a Nicodemos: “A menos que o Espírito faça você nascer de Deus, do alto, nascer de novo... a menos que o Espírito lhe dê o novo nascimento, você não pode ver o reino de Deus”. É tão importante que entendamos isso, porque a mudança à qual chamamos as pessoas, a chamada do evangelho que estamos transmitindo a todas as pessoas, não é uma chamada que podemos realizar por meio de qualquer coisa que fazemos. Temos de ser fiéis em falar a verdade para os nossos amigos; temos de ser fiéis em proclamar o evangelho e chamar homens, mulheres, moças e rapazes à fé e ao arrependimento em Jesus Cristo. Todavia, não podemos criar no coração deles as condições para que respondam à chamada do evangelho. Isso é obra do Espírito Santo. E é tão importante que

A obra de regeneração, que inicia todos os elementos da conversão, é obra de Deus. Não podemos fazê-la. Essa é a razão por que é tão importante deixar claro que, não importando quão fiéis sejamos em compartilhar o evangelho, esse compartilhar o evangelho não pode produzir os frutos que desejamos que ele produza. Somente Deus, o Espírito, pode fazer isso. Esse fato nos mantém humildes e dependentes de Deus, porque somente Ele pode mudar o coração humano. Sim, temos de ser fiéis. Isto não anula, de modo algum, nossa responsabilidade de compartilhar o evangelho, porque Deus nos diz, em sua Palavra, que “a fé vem pelo ouvir”. Portanto, temos o dever de compartilhar a palavra da verdade com os outros. E quão frequentemente Deus tem usado a pa-

A obra de regeneração, que inicia todos os elementos da conversão, é obra de Deus. Não podemos fazê-la.”

entendamos esta verdade, porque, em entendê-la, ela nos recordará a grandeza da graça de Deus para conosco... a diferença entre nós e o mundo não está no fato de que somos mais espertos do que eles: “Nós entendemos, eles não”... e sim no fato de que Deus fez uma obra em nosso coração para nos mostrar nosso pecado, para nos mostrar nossa necessidade. Ele abriu nossos olhos e nos atraiu a Si mesmo. 24 | Revista f é pa r a h o j e

lavra da verdade como o instrumento que o Espírito Santo usa para despertar alguém da morte? Ás vezes, não é uma palavra muito agradável que Ele usa para nos despertar da morte. William Perkins, que depois se tornou um dos principais pregadores e teólogos de toda a Inglaterra, era um beberrão. Um dia, ele caminhava por uma rua em Cambridge e ouviu uma mãe dizer para seu filho, através

da janela de uma casa: “Ora, não continue agindo dessa maneira, meu filho, pois você acabará como o bêbado Perkins!” E o Senhor fez uma obra no coração daquele homem! Ele foi convencido de sua perdição, e foi convertido, e se tornou um dos maiores cristãos de seu tempo. Suas obras abençoam até hoje. E o Senhor usou aquela palavra, mas foi o Espírito Santo que mudou o coração de William Perkins. Pergunto-me quantas vezes alguém o confrontou antes, quanto à sua bebedeira. Mas foi naquele momento que ele foi impactado, foi naquele momento que ele foi convencido de sua condenação. A regeneração não acontece da mesma maneira para todos. A experiência de conversão não é a mesma para todos. Para o apóstolo Paulo, ela foi algo instantâneo, não foi? Ele estava na estrada para Damasco, a fim de matar cristãos, e Jesus o encontrou. E, de repente, Paulo foi instantânea e dramaticamente convertido e transformado em um seguidor do Senhor Jesus Cristo. No entanto, por outro lado, em Atos 10, o capítulo seguinte, lemos a história daquele gentio piedoso que, evidentemente, estava sob a influência do Espírito Santo de Deus. Ele foi convencido de seus pecados; clamou a Deus por salvação e disse: “Senhor, salve-me!” E o Senhor disse: “Bem, isto é realmente o que eu quero fazer, Cornélio. Mande alguém à cidade vizinha procurar por um homem chamado Pedro”. Deus não foi até Cornélio e o converteu instantaneamente. Nesse ínterim, Deus falou a Pedro (em uma

visão): “Pedro, vá e fale de Jesus para aquele gentio”. “Tem certeza, Senhor?” “Sim. Vá e fale de Jesus para aquele gentio”. E Deus levou Pedro até à casa de Cornélio. Ali Pedro compartilhou a palavra do evangelho, e depois, somente depois, Cornélio foi convertido. Por que Deus o fez dessa maneira? Não sei! Mas Ele o fez. Cornélio foi convertido, mas de maneira totalmente diferente da maneira como Paulo foi convertido. Deus nos muda e nos transforma de maneiras dramaticamente diferentes, mas a conversão sempre começa com a obra de regeneração realizada pelo Espírito Santo.

2. Temos de responder do Espírito Santo

à obra

Depois, respondemos com fé e arrependimento. Você percebe como Davi fez isso bem no começo do salmo: “Compadece-te de mim, ó Deus...”? De acordo com o quê? Com a atitude de Davi em ser um bom moço? Ele havia assassinado um homem e cometido adultério; havia tomado a mulher de um homem, depois de ter um relacionamento de imoralidade sexual com ela; e havia mentido. De fato, um comentador da Bíblia pode repassar essa história com você e mostrar-lhe como Davi quebrou cada um dos Dez Mandamentos no curso deste incidente. Por isso, Davi não estava dizendo: “Senhor, compadece-te de mim porque sou uma Revista fé par a h oje | 25

boa pessoa. Senhor, compadece-te de mim porque tenho cometido erros de vez em quando”. Observe que Davi disse: “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade... segundo a multidão das tuas misericórdias”. Onde estava a confiança de Davi? A sua confiança estava em Deus, em que Ele é e no que somente Ele podia fazer por Davi. Isso, meus amigos, é fé. E sempre faz parte da gloriosa conversão que Deus realiza naqueles que ele atrai para Si mesmo. Essa fé, você entende, não é simplesmente uma decisão. Não é assentimento mental de três minutos de informação que foi compartilhada com você. É uma dramática mudança de confiança que transforma a vida; deixamos de confiar no que estávamos confiando – se esperávamos achar satisfação e deleite em nossa vida por confiar em nossas próprias realizações, na riqueza, em amizades, no casamento... o que quer que fosse ou onde quer que estivesse a nossa confiança, a nossa esperança... mudou dessas coisas para Deus, para Deus somente: para sua Palavra, para sua promessa, para sua graça. E confiar somente nisso é diferente de uma decisão. Uma decisão é algo que você pode fazer. Mas, como você sabe, decisões por si mesmas – meras decisões – não transformam um coração. Você pode fazer uma decisão, e ela pode não ser uma decisão que transforma a vida. Você pode fazer uma decisão, e ela pode não significar nada. É importante lembrarmos que você pode até respon26 | Revista f é pa r a h o j e

der as perguntas da ficha de membresia de uma igreja local e ainda ser uma pessoa perdida. Não, na conversão Deus opera uma mudança em nosso coração, por isso não apenas proferimos palavras com os lábios, ou fazemos uma oração que alguém nos ensinou, ou preenchemos um cartão. Não, nós mudamos toda a confiança de nossa vida para Deus e para suas promessas contidas no evangelho. Isso é o que acontece na conversão.

3. Temos de nos arrepender e nos converter de nossos pecados

Então, há o arrependimento. Observe que o Salmo 51 é sobre arrependimento. E, de maneira que nos embaraça, ele nos diz que as coisas mais ímpias que Davi já fizera, Deus chamou Davi e todo o povo de Israel a cantá-las em adoração, cada semana, para sempre. Você pode imaginar os seus momentos mais ímpios sendo imortalizados em um hino? E cantados na igreja em todos os lugares no mundo, várias vezes por ano, durante o resto de sua vida? Essa foi a orientação de Deus quanto a este grande salmo de confissão de Davi. O diretor do coro colocou o salmo em música, e toda a congregação cantava esta confissão. Isso mostra quão importante é o arrependimento. A razão é que, na conversão, há o desejo por mudança, de modo que nosso desejo pessoal não é mais o satisfazer-nos no pecado, e sim o satisfazer-nos em Deus. No arrepen-

dimento, nos convertemos do pecado e nos voltamos para Deus. Assim, na conversão há um novo coração, há uma nova confiança, há um novo desejo. E isso se expressa em uma nova vida, uma vida mudada. Davi disse no Salmo 51: “Pecadores se converterão a ti”. Senhor, quando meu coração for purificado, por meio de minha vida transformada, eu testemunharei aos pecadores com lábios de alegria.

fé em Cristo, mas também foram convertidos pelo Espírito Santo e confiam verdadeiramente em Cristo para a salvação, como ele é oferecido no evangelho, e se converteram do pecado para Deus, e possuem as marcas desta nova vida. Isso significa que não há mais pecado em nossa vida, que não há mais luta com o pecado, luta profunda com o pecado? Não. Mas reconhecemos o que John Newton disse:

A conversão vem de maneiras diferentes para todos, mas para todo cristão, para todo cristão verdadeiro, há conversão. Essa é a razão por que a conversão é tão importante para uma igreja local saudável, porque sem conversão não somos diferentes do mundo. Não há o novo coração; não há a nova confiança; não há o novo desejo; não há a nova vida. Sem a conversão, somos iguais ao mundo. Mas, com ela, as palavras que falamos para o mundo incrédulo ao nosso redor vêm com poder, porque não há argumento contra a vida transformada. Não há argumento contra um coração transformado. A conversão vem de maneiras diferentes para todos, mas para todo cristão, para todo cristão verdadeiro, há conversão. E há conversão para toda igreja local saudável, bíblica e caracterizada por uma congregação cheia de crentes que não somente professam a

“Não sou o homem que deveria ser, não sou o homem que eu desejo ser e não sou o homem que um dia eu serei, mas, pela graça de Deus, não sou mais o que eu costumava ser”. Todo cristão... todo crente professo que conhece a Deus, que confia em Cristo é um crente convertido. E isso faz toda a diferença.

Lingon Duncan III: É Doutor em Teologia, pastor da Primeira Igreja Presbiteriana em Jackson, MS, EUA, co-fundador do ministério Together for the Gospel, autor e preletor.

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M a r c a 5: E va n g e l i z a ç ã o

Indo,

Pregai o

Evangelho

E

m 1995, um grupo de músicos chilenos visitou minha cidade e passou por nossa igreja, numa viagem missionária. Tive a oportunidade de hospedar um desses músicos em minha casa. Era um grupo cristão que cantava músicas andinas, com instrumentos típicos daquela região do mundo. Eles usavam, principalmente, instrumentos de sopro, como zampoña, antara, rondador, siku, entre outras flautas de aparência curiosa e de som agradável. A música que produziam era muito interessante e incomum em nossas bandas. Chamava a atenção facilmente. Lembro-me que fiquei empolgado com a vinda desses irmãos e os acompanhei em alguns lugares – a maioria, praças públicas – onde se apresentaram. Eles tocavam, as pessoas 28 | Revista f é pa r a h o j e

se reuniam ao redor e os jovens distribuíam folhetos, convidando essas pessoas para participar do culto da igreja. Achei aquilo tudo muito interessante. Foi uma importante experiência de evangelização da qual pude fazer parte. Por algum tempo, fiquei convencido que eventos como esse ou a distribuição esporádica de folhetos na vizinhança do templo, ou em praças e metrôs podiam resumir a atividade da evangelização. Todavia, na medida em que compreendi melhor a mensagem do evangelho e a conversão – resultado da regeneração operada pelo Espírito de Deus na vida da pessoa – passei a reestruturar minhas noções sobre a evangelização. Não quero ser mal entendido aqui. Penso que o trabalho que aqueles irmãos chilenos fi-

T i a g o J. Santos Filho zeram é de imenso valor; e creio que distribuir convites para o culto e folhetos evangelísticos a estranhos pode ser algo usado por Deus para iniciar um processo de conversão na vida de alguém. O ponto é que essas atividades, em si, não encerram a grande comissão do Senhor Jesus Cristo à sua igreja, de “fazer discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Cheguei então a compreender que o entendimento bíblico do evangelho e da conversão é vital à evangelização. O motivo é simples: nossa evangelização será afetada, necessariamente, por aquilo que entendemos acerca do evangelho e da conversão. Por exemplo, se nós entendemos a conversão como um mero assentimento a um conjunto de proposições e decla-

rações motivacionais e, muitas vezes, meramente emocionais, ou como um conjunto de gestos exteriores, como o levantar a mão em um culto público, durante o apelo, ou o assinar um caderno, ou o ir à frente, ao púlpito, para que o pastor faça a oração da salvação, enfim. E, se temos por evangelho uma proposta de mudança de estilo de vida, ou como uma mensagem que, se a aceitarmos e seguirmos sua cartilha, seremos, como disse em certa oportunidade o Pr. Mark Dever, “amigos de Jesus”, caso “o aceitemos”, porque “Deus é amor e pede-nos para o aceitarmos”. Se nossa compreensão do evangelho for assim, então, isso haverá de afetar a forma como o anunciamos. Afinal, nesse caso, se as técnicas corretas forem empregadas e bons argumentos apresentados, quem sabe com a avaliação de especialistas sociais, estatísticas demográficas e culturais e o uso de métodos eficientes de apresentar a mensagem e conquistar o interesse das pessoas, criando um ambiente favorável a decisões, então a mensagem poderá ser bem recebida e aceita. No entanto, o apóstolo Paulo chama o evangelho de “poder de Deus para a salvação” (Rm 1.16). Esta expressão, “poder de Deus”, transmite a ideia de um poder tal, como aquele que Deus usou para criar do nada os céus e a terra. O evangelho é a mensagem mais poderosa e importante da história. É a boa notícia de salvação e perdão. É a mensagem que conta como Deus resolveu, por um amor que excede nosso entendimento (Ef 3.18), salvar pecadores, formar para si um povo, reconciliar consigo mesmo o homem que fez guerra contra Revista fé par a h oje | 29

ele na queda (Ef 2.11-22; 2 Co 5.18-6.3). E fazê-lo de modo a satisfazer sua justiça e ira divinas, castigando seu próprio filho na Cruz, Jesus, que veio anunciar esta mensagem – como profeta – fazer a purificação dos pecados e ser ele mesmo o sacrifício – como sacerdote – e reivindicar seu lugar de governo no universo e em nossas vidas – como rei. (Hb 1.1-4)  O cristão tem em mãos, portanto, a mensagem mais importante e poderosa da história da humanidade. E esta é a mensagem que deve ser usada para levar pessoas a Cristo – a mensagem que ele mesmo trouxe ao mundo e legou aos seus discípulos. Neste artigo, farei uma breve apresentação da obra da evangelização, seu sujeito ativo e como deve ser a apresentação do evangelho.

todos os habitantes do país. Hoje, as coisas já não são mais assim. Mas, parece que ainda temos algumas noções equivocadas do que seja a evangelização. Qual é, então, a obra da evangelização?  Uma tautologia pode ser útil para responder a esta pergunta: “A evangelização é anunciar o evangelho”. Parece tolo fazer esta afirmação, mas é impressionante como a igreja tem derrapado nesta prática. Todavia, era precisamente isso que o Senhor Jesus Cristo fazia. Ele anunciava o evangelho do jeito que o evangelho é. Sem concessões. Sem medo de ofender. Sem pirotecnias e métodos desvairados. Ele ministrava a palavra às pessoas, individualmente, como vemos nos exemplos clássicos de João 3 e 4. Em ambas as situações, embora o Senhor Jesus tenha

O evangelho é a mensagem mais poderosa e importante da história” a obra Da evangelIzação: A história relata que a evangelização sempre ocupou um lugar de importância na historia da Igreja. No entanto, em algum momento, a evangelização se tornou sinônimo de expansão territorial e cultural. Carlos Magno, rei da França no século VIII, impunha a fé cristã aos povos que conquistava. Em 784 d.C, quando ele invadiu a Saxônia, um batismo coletivo “cristianizou” praticamente 30 | Revista f é pa r a h o j e

usado uma abordagem diferente e as circunstâncias também tenham sido diferentes, ele primeiro desmontou qualquer noção de autoconfiança ou confiança religiosa que eles pudessem ter, revelou sua condição de pecadores perdidos, apresentou-lhes a necessidade de crerem na mensagem do evangelho para que fossem salvos e anunciou claramente qual era essa mensagem. Em nenhum momento Jesus perdeu o foco do que dizia ou “amenizou” a mensagem com o propósito de

que primeiro a aceitassem e, depois, com um “cursinho” na classe de catecúmenos viessem a entender aquilo que aceitaram lá atrás. Não falou-lhes de comportamento ou mudança de comportamento. Falou-lhes sobre nascer de novo! Reconhecer pecados! Arrependimento! Fé! A evangelização é a anunciação da verdade do evangelho. Com clareza e fidelidade. A evangelização, portanto, conforme ilustra Mark Dever1, não é uma imposição de nossas crenças religiosas; tampouco o mero testemunho pessoal; não se trata de ação social ou mesmo da “defesa da fé”, por meio de argumentos ontológicos. Emprestando uma definição, Dever cita em seu livro, encontramos uma palavra muito apropriada sobre a obra da evangelização: A evangelização não é fazer prosélitos. Não é persuadir as pessoas a tomarem uma decisão. Não é provar que Deus existe nem fazer uma boa argumentação em favor da verdade do cristianismo. Não é convidar alguém para vir a uma reunião. Não é expor o dilema contemporâneo ou despertar interesse pelo cristianismo. Não é vestir uma camiseta com a frase “Jesus Salva”. Algumas dessas coisas são corretas e boas em seu devido lugar, mas nenhuma delas deve ser confundida com a evangelização. Evangelizar é declarar, com autoridade de Deus, o que Ele fez para salvar pecadores; é advertir os homens quanto a sua condição de perdidos e direcioná-los a arrependerem-se e a crerem no Senhor Jesus2.

A evangelização glorifica a Deus. O pregador John Piper, em seu livro Deus é o Evangelho, procura mostrar que um dos fundamentos da anunciação do evangelho a todos os homens é a glória de Deus. O maior bem do evangelho é o fato de que, por meio dele, temos acesso a Deus – poderemos ter comunhão com ele e glorificá-lo para sempre. A evangelização é, assim, um ato de amor a Deus. Desejamos que todos os homens tenham esse conhecimento a fim de que o glorifiquem. A evangelização é um ato de amor ao próximo. É oferecer para o próximo a mensagem que pode mudar sua vida e determinar sua eternidade. É um alerta solene quanto aos perigos de passar por essa vida sem colocar-se debaixo do jugo de Cristo. É o desejo de ver as pessoas reconciliadas com Deus e aumentar as fileiras de adoradores – que gozarão da felicidade eterna junto do povo de Deus e do próprio Deus trino. Paulo faz alusão ao sentinela tanto em Atos 18.5-6 como também em Atos 20.25, situações em que ele protesta estar “limpo do sangue de todos”. Ele está falando do Atalaia, que vemos em Ezequiel 3.16-27, 33.79. O Atalaia (sentinela, vigia) tem uma visão privilegiada, do alto do muro da cidade, e tem o dever de alertar o povo da cidade quando os inimigos estiverem se aproximando, a fim de se precaveram e se prepararem. Se não o fizesse, seria responsável pelo sangue que fosse derramado. Isto é muito sério. A evangelização é um ato de obediência amorosa. Jesus instruiu seus apóstolos, como vemos em Mt. 10.5-15, a que “pregassem que está próximo o reino dos Revista fé par a h oje | 31

céus”. Ele mesmo, em seu ministério de pregação, percorria as cidades e, nas sinagogas e mesmo em campo aberto, à beira do mar, e onde houvesse um ajuntamento de pessoas, “pregava o evangelho do reino” (Mt 9.35).

O Sujeito da Evangelização: Entender a obra da evangelização nos ajudará a entender quem deve protagonizá-la. Quem deve evangelizar é o cristão. Todos os que foram alcançados pelo evangelho devem também anunciá-lo. O cristão deve evangelizar porque foi comissionado para isso pelo próprio Senhor Jesus Cristo (Mt 28.16). Deus quis que a salvação fosse oferecida aos homens por outros homens. A evangelização é um ato de obediência. Vemos que todos quantos são recebidos na família de Cristo são feitos embaixadores do reino de Deus. O Apóstolo Paulo, dirigindo-se à igreja de Corinto, em 2Co 5.20, chama-os de embaixadores em nome de Cristo, para anunciarem a reconciliação que Deus providenciou em Cristo. Um dos significados do termo “embaixador” é: “portador de uma mensagem”, é também  sinônimo de  “arauto”, ou portador de notícias. Na grande comissão, todos os seguidores de Jesus são encarregados de fazer discípulos. Ele não excluiu ninguém da ordem de anunciar o evangelho. A igreja primitiva atuou ativamente na proclamação do evangelho a todas as nações. Em Atos 8, logo após a morte de Estevão, a dispersão dos cristãos deu 32 | Revista f é pa r a h o j e

ocasião a que pregassem o evangelho na medida em que iam fugindo para outras cidades e se estabelecendo nelas. Em Atos 11.20, vemos que era o povo quem pregava “o evangelho do Senhor Jesus” e como sua vida refletia a mensagem que anunciavam (v.26). É preciso ficar claro para o cristão que a uma vida exemplar e conduta irrepreensível, embora honre a Cristo, não são suficientes para que as pessoas conheçam o evangelho, pois assim como a criação dá testemunho do Criador, de sua grandeza, poder, beleza e sabedoria, mas não é suficiente para levar alguém a conhecer e ter comunhão com esse criador, assim também a vida piedosa não substitui a proclamação clara do evangelho, pois a fé vem pelo ouvir e pelo ouvir da Palavra de Cristo (Rm. 10.13-17).  

O Ato da Evangelização:

A igreja pode valer-se de meios como a distribuição de folhetos, ou mesmo através de um grupo de músicos missionários chilenos com sua música agradável. Mas o meio não deve ser um fim em si mesmo. Ele deve oferecer oportunidades para que uma apresentação clara e verdadeira do evangelho seja feita. E, é importante que o método não comprometa a mensagem. Tem sido cada vez mais comum o uso de meios que desqualificam ou depreciam a mensagem, diminuindo seu valor. Deus não precisa tanto de nossa criatividade quanto ele requer nossa fidelidade. É preciso lembrar que a mensagem do evangelho é escandalosa (1 Co 1.23; Jo 6.60-66) e

a reação mais comum é a rejeição – até que o Espírito regenere aquele coração, abra os ouvidos e olhos, para que veja a graça do Senhor e abundante felicidade que o evangelho produz. É interessante observar a instrução de Jesus quanto a apresentação do evangelho. Quando ele pronunciou sua “comissão”, é notável que o verbo “ir”, embora esteja na forma imperativa em nossa versão de língua portuguesa, está

vizinhança, enfim, em o círculo comum de convivência. Na apresentação do evangelho, é fundamental que estejam presentes alguns elementos como a titularidade da mensagem – ela não é nossa. Somos porta-vozes. Neste caso, o uso da Bíblia é essencial; a clareza da mensagem – que seja compreensível a todos quantos a ouvem. As implicações da mensagem: o preço da fé em Cristo (Mt 16.24); as promes-

O maior bem do evangelho é o fato de que, por meio dele, temos acesso a Deus” na forma de gerúndio no original grego, dando a noção de movimento constante. “Indo”, ou, “enquanto vai”. Assim, a ordem é a de pregar enquanto vamos. Isso nos lembra do exemplo da igreja primitiva que, enquanto se estabelecia, enquanto ia, anunciava o evangelho às pessoas nos lugares por onde passava. A comissão fala em fazer discípulos. Fazer discípulos é ensinar. É expor com clareza todas as implicações do que significa seguir a Jesus. É apresentar o evangelho em sua inteireza, ainda que de forma simples. Felipe foi arrebatado por Deus para explicar o evangelho ao eunuco. Houve um processo de aprendizado ali. Houve compreensão. Houve fé. Houve arrependimento. Houve o batismo. Assim, a melhor e mais efetiva maneira da igreja evangelizar é lançando mão das diversas oportunidades que Deus concede ao povo, nas relações familiares, relações sociais, na escola, na

sas e bênçãos do evangelho – libertação, sentido, propósito, plenitude, livramento, comunhão, santidade, presença de Deus na vida e na eternidade. Tudo isso deve ser feito num espírito de oração e dependência de Deus (1 Co 3.6-8). Que Deus nos abençoe e nos dê fidelidade ao apresentar a mensagem mais poderosa do mundo, o evangelho de Jesus Cristo. 1. Mark Dever. Nove Marcas de Uma Igreja

Saudável (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2007) p.142-143

2. John Cheesman et al. The Grace of God in the Gospel (Edinburgh, Banner of Truth, 1972) apud et Mark Dever. Nove Marcas de Uma Igreja Saudável. p.149

Tiago José dos Santos Filho: Bacharel em Direito, é o Editor-Chefe da Editora Fiel, autor, professor e Deão do Seminário Martin Bucer em São José dos Campos, SP.

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M a r c a 6: M e m b r e s i a

MEMBROS SAUDÁVEIS,

IGREJA

N

UNIDA

a vida pastoral temos a responsabilidade de instruir o povo de Deus para que eles vivam para a glória de Deus. O desejo dos pastores é fazer a vontade de Deus e sabendo que ele é quem efetua tanto o querer quanto o realizar (Fp 2.13). Nesta total dependência da graça de Deus o pastor reconhece suas limitações diante do poder ilimitado de Deus. Em Oséias aprendemos que o povo labora em erro quando não recebe a instrução que vem de Deus. Diz Oséias: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esque-

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ceste da lei do teu Deus, também me esquecerei de ti” (Os 4.6). Uma igreja com membros saudáveis é uma igreja unida, ativa, feliz, realizadora e, acima de tudo, uma igreja que glorifica ao Senhor Jesus Cristo. Pastoralmente temos um desafio: Como podemos identificar um membro saudável em nossas igrejas?

1. Um membro saudável conhece o evangelho todo e não apenas parte dele .

O apostolo Paulo escreveu aos Gálatas com muita tristeza em seu coração, pois, eles estavam ouvindo um outro evangelho. Paulo afirma: “Admira-me que estejais passando

Deus. Um membro saudável também olha para sua vida futura, para seu encontro com Deus, sua ressurreição e vida eterna ao lado do Pai. Ele entende e busca viver amando a Deus de todo coração, alma e entendimento e amando ao próximo como a si mesmo ( Mt 22. 37-39).

2. Um membro saudável se reconhece no evangelho .

Leonardo Sahium tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6,7). Em 1 Coríntios, o mesmo Paulo discute o fato de alguns duvidarem da ressurreição de Cristo (1 Co 15.12). Diferente de alguns membros das igrejas da Galácia e de Corinto, um membro saudável é aquele que conhece o evangelho todo e não apenas parte dele. Ele experimentou uma conversão com arrependimento e fé. Entende a obra vicária de Cristo por ele. Ele sabe dos benefícios da vida em Cristo, de seus deveres como cristão e da alegria de ser abençoado por

Uma pessoa saudável tem uma visão correta, equilibrada, sóbria, verdadeira e sensata sobre si mesmo. Na carta que escreveu aos irmãos da igreja em Roma, podemos perceber o coração do apóstolo Paulo visto por ele mesmo. Existe aqui, como em outros textos dele em que abre seu coração, uma opinião realista e bíblica sobre suas lutas interiores. Ele diz: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.18,19). Mas como um homem de Deus que entendia o evangelho por completo, e não apenas parte dele, Paulo afirma um pouco mais adiante, sua total dependência e alegria de pertencer a Jesus Cristo que o livrou de tão grande condenação. Um membro saudável sabe de sua inclinação para o pecado, crê e professa que a morte de Jesus Cristo na cruz do Calvário, remiu sua vida. Crê na ressurreição de Cristo e em sua volta. Revista fé par a h oje | 35

Este membro é equilibrado e não se ufana nem se ensoberbece no caminho da vida cristã. Não vive como um derrotado nem se orgulha de suas vitórias, pois sabe que toda boa dádiva procede de Deus (Tg 1.17).

3. uM MeMbro sauDável se sente aMaDo Por D eus e Pela Igreja . Davi no Salmo 16.3 fala de sua alegria em andar com o povo de Deus, que ele chama de “notáveis”. Um membro saudável vive a alegria de pertencer à família da fé. Reconhece este privilégio pela graça de Deus e por isso pode dizer: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do SENHOR” (Sl 122.1). Este membro sabe que neste lugar de comunhão, partir do pão e orações, seus te-

A igreja é o local em que o amor é demonstrado de maneira mais visível e convincente entre o povo de Deus.”1

4. uM MeMbro sauDável é ovelha verDaDeIra . Atualmente muito tem se falado sobre liderança, pastorado e ministério. São assuntos muito importantes, mas devemos entender que, por outro lado, também estamos carentes de membros que entendem sua posição. Alguns querem se tornar líderes, mas não têm maturidade espiritual. Outros querem frequentar uma igreja como um consumidor frequenta um ambiente comercial. Um membro saudável sabe que precisa ser orientado e conduzido. Ao falar sobre a disciplina em uma igreja saudável, Mark Dever coloca líderes e membros no

Responsabilidade, compromisso e obediência são palavras que não soam ofensivas aos membros saudáveis de uma igreja local” mores são ouvidos e entendidos. Sua caminhada de fé é compartilhada. Na igreja, o membro aprende e ensina, com seus testemunhos ajuda a fortalecer outros irmãos na caminhada da vida cristã. “A frequência fiel à igreja está associada com o estimular uns aos outros ao amor e às boas obras. 36 | Revista f é pa r a h o j e

mesmo patamar de responsabilidade, este conceito é perfeitamente fundamentado na teologia reformada, ele diz: “Cada igreja local tem responsabilidade de julgar a vida e o ensino de líderes e membros, especialmente quando ambas as coisas comprometem o testemunho do evangelho (ver

At 17; 1 Co 5; 1 Tm 3; Tg 3.1; 2 Pe 3; 2 Jo)”.2 Responsabilidade, compromisso e obediência são palavras que não soam ofensivas aos membros saudáveis de uma igreja local. Eles sabem que tem uma responsabilidade de manter a sua fé testemunhal. Eles sabem que tem um compromisso com a sua igreja local, em vários sentidos, inclusive no sustento material da obra. Eles sabem que devem obediência aos

sua vida. Deseja ardentemente andar segundo os preceitos do Senhor e faz isso com alegria, afinal este é o resultado natural de um coração grato a Deus. A gratidão conduz a missão! Pregação, testemunho, compromisso de sustentar financeiramente a obra de Deus, tudo isso é feito com muito amor ao Senhor Jesus Cristo. Que Deus nos dê a alegria de vivermos assim, para sua glória!

Iluminação moral e espiritual é aceita sem dificuldades, mas redenção por uma operação somente divina é uma proposta escandalosa. Por isso, o evangelho é notícia, novidade totalmente desconhecida entre os homens” seus líderes espirituais como ensina a Escritura Sagrada: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros”(Hb 13.17).

1. Thabiti Anyabwile. O que é um membro de Igreja saudável (São José dos Campos - SP, Editora FIEL, 2010) p. 69. 2. Mark Dever. O que é uma Igreja saudável? (S. José dos Campos - SP, Editora FIEL, 2009) p. 95.

5. uM MeMbro sauDável sabe sua MIssão . Finalmente, um membro saudável, sabe que sua grande missão é glorificar a Deus (1 Co 10.31). Por isso, vive buscando a vontade de Deus para

Leonardo Sahium: Doutor em Ministério, pastor da Igreja Presbiteriana da Gávea, RJ, professor do Centro de Pós Graduação Andrew Jumper, autor e preletor.

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M a r c a 7: D i s c i p l i n a B í b l i c a

Cartilha de

Disciplina E clesiástica

O

que você pensa de um treinador que instrui seus jogadores, mas nunca os treina? Ou de um professor de matemática que explica a lição, mas nunca corrige os erros dos alunos? Ou de um médico que fala sobre saúde, mas ignora o câncer? Talvez você dirá que todos eles estão fazendo metade de seu trabalho. O treinamento de atletas requer instruir/ treinar. Ensinar exige explicar/ corrigir. Medicar requer fortalecer a saúde/ combater a doença. Certo? Então, o que você pensa de uma igreja que ensina e faz discípulos, mas não pratica a disciplina eclesiástica? Isto faz sentido para você? Admito que isto faz sentido para muitas igrejas,

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porque toda igreja ensina e faz discípulos, mas poucas igrejas praticam a disciplina eclesiástica. O problema é que fazer discípulos sem disciplinar é tão incoerente como um médico que ignora tumores. Em última análise, a disciplina eclesiástica leva ao crescimento da igreja, assim como podar uma roseira leva a produção de mais rosas. Em outras palavras, a disciplina eclesiástica é um aspecto do discipulado cristão. Observe que as palavras “discípulo” e “disciplina” são primos etimológicos. Ambas as palavras são tomadas da esfera da educação, que envolve ensino e correção. Não é surpreendente que haja o costume secular de referir-nos a “disciplina formativa” e “disciplina corretiva”.

J o n at h a n L e e m a n Meu propósito nesta cartilha é apresentar ao leitor os elementos básicos da disciplina eclesiástica corretiva – “o que”, “quando”, “como” – e algumas poucas palavras sobre “por quê”.

O que é disciplina eclesiástica? O que é disciplina eclesiástica corretiva? A disciplina eclesiástica é o processo de corrigir o pecado na vida da igreja e de seus membros. Isso pode significar corrigir o pecado por meio de uma admoestação particular. E pode significar corrigir o pecado formalmente, excluindo um membro da igreja. A disciplina eclesiástica pode ser realizada de várias maneiras, mas o

alvo é sempre corrigir transgressões da lei de Deus entre o povo de Deus. Esta correção do pecado não é uma ação retributiva; não é a justiça de Deus por si mesma. Antes, é reparadora, profética e proléptica. Quando dizemos o que a disciplina eclesiástica é , queremos dizer que ela tem o propósito de ajudar o crente individual e a congregação a crescerem em piedade – em semelhança a Deus. Se um membro da igreja é dado a fofocas ou calúnias, outro membro deve corrigir o pecado, para que o fofoqueiro pare de fofocar e, em vez disso, fale palavras de amor. Deus não usa sua Palavra para ferir erroneamente; nem o seu povo deve fazer isso. Quando dizemos o que a disciplina eclesiástica é , queremos dizer que ela resplandece a luz da verdade de Deus sobre o erro e o pecado. Ela expõe o câncer em uma pessoa ou na vida do corpo, para que o câncer seja erradicado. O pecado é um mestre de disfarces. Fofocas, por exemplo, gostam de vestir a máscara de “interesse santo”. O fofoqueiro pode pensar que suas palavras são corretas, até amorosas. Mas a disciplina eclesiástica expõe o pecado como ele é. Expõe o pecado tanto para o pecador como para todos os envolvidos, para que todos aprendam e sejam beneficiados. Quando dizemos o que a disciplina eclesiástica é , queremos dizer que ela é, no presente, uma pequena figura que adverte sobre um julgamento maior que está por vir (cf. 1 Co 5.5). A advertência não tem valor, se não é ministrada com graça. Suponha que um Revista fé par a h oje | 39

professor dá boas notas a um aluno que fracassou nas provas em todo o primeiro semestre, por temer desanimar o aluno, mas depois o reprova no final do ano. Isso não seria gracioso! De modo semelhante, a disciplina eclesiástica é um meio amoroso de dizer a uma pessoa apanhada em pecado: “Cuidado, uma penalidade ainda maior virá, se você continuar neste caminho. Por favor, deixe-o agora”. Não é surpreendente que as pessoas não gostem de disciplina. Ela é árdua. Mas quão misericordioso é Deus em advertir agora o seu povo, de maneiras comparativamente pequenas, sobre o grande julgamento por vir! Por trás da disciplina eclesiástica, está um dos grandes projetos da história de redenção – o projeto de restaurar o povo de Deus caído ao lugar em que eles refletirão, novamente, a imagem de Deus, enquanto estendem, em toda a criação, o governo de Deus benevolente e produtor de vida (Gn 1.26-28; 3.1-6).

O fracasso de Israel em guardar a lei de Deus e refletir seu caráter para as nações também resultou em um exílio. Como criaturas feitas à imagem de Deus, nossas ações falam intrinsecamente sobre ele, como espelhos que refletem os objetos que estão diante deles. O problema é que a humanidade caída distorce a imagem de Deus, como espelhos deformadores de imagens. Desde a Queda, a humanidade fala mentiras; por exemplo, o mundo tem concluído que não se pode confiar nas palavras do próprio Deus. Ele, também, deve ser um mentiroso. Como é a criatura, assim deve ser o seu criador. Felizmente, um filho de Adão, um filho de Israel cumpriu com perfeição a lei de Deus, aquele que Paulo descreveu como “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). Agora, aqueles que estão unidos a este Filho são chamados a portar esta mesma “imagem”, o que aprendemos a fazer por meio da vida da igreja, “de glória em glória” (ver 2 Co 3.18; Rm 8.29; 1 Co 15.49; Cl 3.9-10).

A disciplina eclesiástica é o processo de corrigir o pecado na vida da igreja e de seus membros”

Adão e Eva deviam refletir a Deus. O reino de Israel tinha esse mesmo propósito. Mas o fracasso de Adão e Eva em representar o governo de Deus, impulsionado pelo desejo de governar em seus próprios termos, resultou em seu exílio do lugar de Deus, o jardim. 40 | Revista f é pa r a h o j e

Igrejas locais devem ser, na terra, os lugares em que as nações podem ir e achar seres humanos que refletem crescentemente a imagem de Deus, com verdade e honestidade. À medida que o mundo contempla a santidade, o amor e a unidade de igrejas locais, as pessoas

saberão melhor como é Deus e lhe darão louvor (cf. Mt 5.14-16; Jo 13;3435; 1 Pe 2.12). A disciplina eclesiástica é a resposta da igreja quando um de seus membros falha em refletir a santidade, o amor e a unidade de Deus, por ser desobediente a ele. É uma tentativa de corrigir as falsas imagens, quando elas surgem na vida do corpo de Cristo, quase como uma limpeza das manchas de sujeira de um espelho.

das coisas que dois cristãos trataram amavelmente um com o outro em um contexto particular, com prudência.

eXterno, sérIo e IMPenItente Uma maneira de resumir as informações bíblicas é dizer que a disciplina eclesiástica formal é exigida em casos de pecado exterior, sério e impenitente. Um pecado tem de ter uma mani-

Igrejas locais devem ser, na terra, os lugares em

que as nações podem ir e achar seres humanos que refletem crescentemente a imagem de Deus

quanDo uMa Igreja Deve PratIcar a DIscIPlIna? Quando uma igreja deve praticar a disciplina? A resposta curta é: quando alguém peca. Mas a resposta pode ser diferente se estamos falando de disciplina eclesiástica formal ou de disciplina eclesiástica informal, usando a distinção de Jay Adams entre confrontações particulares e confrontações no âmbito público da igreja. Qualquer pecado, de natureza séria ou não, pode suscitar uma repreensão particular entre dois irmãos e irmãs na fé. Isso não significa que devemos repreender cada pecado que um membro de igreja comete. Quer dizer apenas que todo pecado, não importando quão pequeno ele seja, se enquadra na esfera

festação exterior. Tem de ser algo que pode ser visto com os olhos ou ouvido com os ouvidos. As igrejas não devem ser prontas a iniciar processo de exclusão cada vez que os membros suspeitam de cobiça ou de orgulho no coração de alguém. Isso não significa que os pecados do coração não são sérios. O Senhor sabe que não podemos ver o coração dos outros e que os verdadeiros problemas do coração virão à tona (1 Sm 16.7; Mt 7.17; Mc 7.21). Em segundo, um pecado tem de ser sério. Por exemplo, eu posso observar um irmão sendo exagerado em narrar os detalhes de uma história e, em particular, confrontá-lo sobre o assunto. Mas, se ele o negar, eu talvez não o exporia à igreja. Por que não? Primeiramente, Revista fé par a h oje | 41

algo como o pecado de exagerar histórias está arraigado em pecados mais graves e não visíveis, como a idolatria e a autojustificação. Estes são os pecados a respeito dos quais eu gostaria de gastar tempo conversando com aquele irmão. Em segundo, perseguir todo pecado menor na vida da igreja talvez produzirá muita desconfiança e impelirá a congregação ao legalismo. Em terceiro, na vida de uma congregação, precisa haver claramente um lugar para o amor que “cobre multidão de pecados” (1 Pe 4.8). Nem todo pecado deve ser perseguido até ao fim. Felizmente, Deus não tem feito isso conosco.

em Mateus 18.15-17. Ele diz a seus discípulos: Se teu irmão pecar [contra ti], vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. Observe, nesse texto, que a ofensa começa entre dois irmãos, e a resposta não deve ir além do necessário para

na vida de uma congregação, precisa haver claramente um lugar para o amor que ‘cobre multidão de pecados’” Por último, a disciplina eclesiástica formal é o procedimento apropriado . A pessoa envolvida em pecado sério foi confrontada em particular com os mandamentos de Deus, apresentados na Escritura, mas ela se recusa a abandonar o pecado. Com base em todas as aparências, a pessoa valoriza o pecado mais do que a Jesus. Pode haver uma exceção para isso, que consideraremos depois.

coMo uMa Igreja Deve PratIcar DIscIPlIna? Como uma igreja deve praticar disciplina? Jesus nos dá o esboço básico 42 | Revista f é pa r a h o j e

produzir a reconciliação. Jesus descreve o processo em quatro passos. 1. Se um problema de pecado pode ser resolvido entre as duas pessoas, o caso está encerrado. 2. Se não pode ser resolvido, o irmão ofendido deve levar dois ou três outros irmãos, “para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça” (Mt 18.16). Jesus tomou essa frase de Deuteronômio 19, que, no contexto, tinha o propósito de proteger as

pessoas de falsas acusações. De fato, o texto de Deuteronômio exigia uma investigação plena, sempre que houvesse dúvida a respeito do erro (Dt 19.18). Entendo que Jesus, de modo semelhante, tenciona que os cristãos se preocupem com a verdade e a justiça, e isso pode exigir diligência apropriada. As duas ou três testemunhas precisam ser capazes de confirmar o fato. Na

todas as coisas da igreja (1 Tm 5.17; Hb 13.17; 1 Pe 5.2). Os presbíteros anunciarão o nome da parte acusada de pecado exterior, sério e impenitente. Eles farão uma descrição breve do pecado, uma descrição anunciada não para levar os outros a tropeçarem ou para causar embaraço indevido aos membros de qualquer família. E, tipicamente, os presbíteros darão à congregação dois

Entendo que Jesus tenciona que os cristãos se preocupem com a verdade e a justiça, e isso pode exigir diligência apropriada realidade, há uma ofensa séria e visível, e o ofensor não se arrepende. Envolver outras pessoas pode trazer o ofensor ao reconhecimento e pode ajudar o ofendido a perceber que não deve sentir-se tão ofendido. Este passo e o anterior podem ocorrer durante vários encontros, que serão tantos quantos as partes acharem ser prudente. 3. Se a intervenção de duas ou três pessoas não resulta em uma solução, a parte ofendida é instruída a contar o fato à igreja (Mt 18.17a). Em minha própria igreja, isto é feito pelos presbíteros, visto que o Senhor os deu à igreja para oferecer supervisão em

meses para contatar o pecador e chamá-lo ao arrependimento. 4. O passo final de disciplina eclesiástica é a exclusão da comunhão ou da membresia da igreja. Isso significa essencialmente exclusão da Ceia do Senhor – “E, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mt 18.17). Ele deve ser tratado como alguém que está fora do povo da aliança de Deus, que alguém não deve participar da refeição da aliança de Cristo. Os membros de igreja perguntam constantemente se uma pessoa que foi excluída da membresia e da Ceia do Senhor pode continuar frequentando Revista fé par a h oje | 43

as reuniões da igreja toda as semanas. Também perguntam se podem interagir com tal pessoa durante a semana. O Novo Testamento aborda esta questão em várias passagens (1 Co 5.9, 11; 2 Ts 3.6, 14-15; 2 Tm 3.5; Tt 3.10; 2 Jo 10). E diferentes circunstâncias podem exigir respostas diferentes. Mas a instrução dada pelos presbíteros em minha igreja se encaixa geralmente em dois pontos: Exceto em situações em que a presença da parte impenitente é uma ameaça física à congregação, uma igreja deve receber a pessoa em suas reuniões semanais. Não há melhor lugar para ela estar do que onde a Palavra de Deus é pregada. Embora os membros da família de uma pessoa disciplinada devam, certamente, continuar a cumprir as obrigações bíblicas da vida familiar (cf. Ef 6.1-3; 1 Tm 5.8; 1 Pe 3.1-2), o teor dos relacionamentos dos membros da igreja com a pessoa disciplinada deve mudar. As interações não devem ser caracterizadas por casualidade ou amizade, e sim por conversas deliberadas sobre arrependimento. A restauração à comunhão da igreja ocorre quando há sinais de verdadeiro arrependimento. As manifestações do verdadeiro arrependimento dependem da natureza do pecado. Às vezes, o arrependimento é bem evidente, como no caso de um homem que abandonou a

esposa. Para ele, o arrependimento significa voltar para a esposa. Entretanto, às vezes o arrependimento não significa vencer completamente um pecado, e sim mostrar nova diligência em travar guerra contra o pecado, como no caso de uma pessoa em um ciclo de vício. Evidentemente, a questão do verdadeiro arrependimento é difícil e exige muita sabedoria. Cautela tem de ser equilibrada com compaixão. Algum tempo precisa se passar para que o arrependimento seja demonstrado por seus frutos, mas não muito tempo (ver 2 Co 2.5-8). Quando a igreja decide restaurar um membro que se arrependeu à sua comunhão e à Ceia do Senhor, não se deve falar mais em período de provação ou membresia de segunda classe. Antes, a igreja deve anunciar publicamente seu perdão (Jo 20.23), afirmar seu amor pela pessoa arrependida (2 Co 2.8) e regozijar-se (Lc 15.24).

Por que uMa Igreja Deve PratIcar DIscIPlIna? À medida que uma igreja se volta à prática da disciplina eclesiástica, ela se vê enfrentando situações complexas da vida real e não tem um “caso idêntico” nas Escrituras para ajudá-la a distinguir os vários níveis de circuns-

A restauração à comunhão da igreja ocorre

quando há sinais de verdadeiro arrependimento” 44 | Revista f é pa r a h o j e

tâncias. Nem sempre fica claro se o problema exige disciplina eclesiástica formal, ou quão longo deve ser o processo de disciplina, ou se a parte culpada se arrependeu verdadeiramente, e assim por diante. À medida que uma igreja e seus líderes lidam com essas questões complexas, têm de lembrar que a igreja é chamada, acima de tudo, a guardar o nome e a glória de Cristo. Fundamentalmente, a disciplina eclesiástica diz respeito à reputação de Cristo e à posição da igreja de continuar ou não afirmando a profissão verbal de alguém cuja vida descaracteriza flagrantemente a Cristo. O pecado e as circunstâncias do pecado variam grandemente, mas esta pergunta precisa sempre es-

Além disso, preocupar-nos com a reputação de Cristo é preocupar-nos com a pessoa apanhada em pecado. Conforme 1 Coríntios 5, Paulo sabia que o procedimento mais amoroso era excluir um homem da congregação, “a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor” (1 Co 5.5). Por que uma igreja deve praticar disciplina? Para o bem da pessoa, para o bem dos nãos cristãos, para o bem da igreja e para a glória de Cristo.1 Ter em mente esses objetivos básicos ajudará as igrejas e os presbíteros a se moverem de um caso difícil para outro, reconhecendo que a sabedoria e o amor de Deus prevalecerão, mesmo quando o nosso amor e a nossa sabedoria falharem.

a igreja é chamada, acima de tudo, a guardar o nome e a glória de Cristo” tar entre os principais pensamento da igreja: “Como o pecado desta pessoa e a nossa resposta a ele refletirá o amor santo de Cristo?” Afinal de contas, preocupar-nos com a reputação de Cristo é preocupar-nos com o bem dos não cristãos. Quando as igrejas deixam de praticar a disciplina eclesiástica, elas começam a parecer-se com o mundo. São como o sal que perdeu a sua salinidade, que presta apenas para ser pisado (Mt 5.13). Não são mais testemunhas para um mundo perdido nas trevas.

1. Ver Mark Dever, Nove Marcas de Uma Igreja Saudável (São José dos Campos, SP: Fiel, 2007), 191-195.

Jonathan Leeman: É mestre em teologia, diretor de comunicações do Ministério 9 Marcas, presbítero na Igreja Batista de Capitol Hill, em Washington D.C, EUA, autor e preletor.

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M a r c a 8: D i s c i P u l a D o

Interesse pelo

DIscIPulaDo

e crescIMento

N

as ultimas décadas, pastores têm sido desafiados a levar suas igrejas a crescer, crescer e crescer. Motivados por vários livros, conferências, testemunhos e lançamento de novos métodos e visões, pastores começaram a ver suas igrejas crescendo, crescendo e crescendo! Infelizmente a maior parte deste crescimento tem sido meramente quantitativo. Uma evidência disto é o fato de ser comum vermos igrejas com um rol de membros impressionante em que apenas metade destes participam dos cultos. Ao contrário do ocorrido nos dias de João Calvino, Lutero, Knox e, mais adiante, John Wesley e Jonathan Edwards, períodos em que o crescimento da igreja era caracterizado pelo ensino zeloso das Escrituras e por

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uma forte ênfase catequética, o crescimento da igreja evangélica brasileira pouco tem transformado o quadro de imoralidade, corrupção e miséria social do país. Por isso, graças a Deus pelo projeto 9 Marcas que destaca a importância e essencialidade de crescimento saudável! Queremos crescer sim! Mas crescer equilibradamente, crescer em número e em espiritualidade, crescer em piedade, santidade, novidade de vida, lançando luz em uma sociedade que jaz em trevas. Crescer de forma saudável.

qual é a base bíblIca Para esta

IDéIa De crescIMento sauDável?

O projeto 9 Marcas entende que há grande base teológica para esta ambi-

crescimento saudável à Abraão (Gn 12:1-3), Davi (Sl 67), Isaías (Is 2:2-4) e outros profetas.

Mas isto foi no Velho Testamento!

Larghi

Sillas C a mp o s

ção espiritual. Através das Escrituras Deus manifesta seu prazer pelo crescimento saudável. Tendo criado nossos pais, Adão e Eva, à sua imagem e semelhança, Deus ordenou-lhes: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn 1:28). Em outras palavras, o Senhor estava dizendo: “Adão e Eva: Vocês foram criados à minha imagem e semelhança, por isso vocês refletem a minha glória. Através de vocês eu quero permear toda a terra com minha gloria, por isso sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra!”. Interessante que, mesmo depois da queda, após ter purificado o mundo com o julgamento do dilúvio, Deus repetiu a mesma ordem a Noé e seus filhos (Gn 9:1). Deus também revelou seu prazer pelo

Sim, mas a ideia continua através do Novo Testamento também! Foi Jesus quem comparou o reino dos céus a uma pequena semente de mostarda, que “embora seja a menor dentre todas as sementes, quando cresce torna-se a maior das hortaliças e se transforma numa árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer os seus ninhos em seus ramos” (Mt 13:32). Por isso no livro de Atos, várias vezes lemos acerca da multiplicação do número dos discípulos, do crescimento numérico da igreja (At 2:41, 47; 6:1, 7; 12:24; 13:49; 16:5; 17:12; 19:20). Mas é obvio que este crescimento não era apenas numérico, tanto é que nas cartas apostólicas a ênfase é sempre no crescimento espiritual. Por exemplo, aos Tessalonicenses Paulo escreveu: “Irmãos, devemos sempre dar graças a Deus por vocês; e isso é apropriado, porque a fé que vocês têm cresce cada vez mais, e muito aumenta o amor que todos vocês têm uns pelos outros” (2 Ts 1:3).

Qual é a causa primária deste crescimento saudável? A Bíblia deixa claro que este crescimento é causado por Deus e não por sabedoria ou estratégias humanos. O livro de Atos faz questão de enfatizar Revista fé par a h oje | 47

esta verdade com afirmativas do tipo: “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (2:47). Porém, a Bíblia também esclarece que Deus opera este crescimento por meio de nossa obediência e devoção. Por exemplo, no texto citado, quando é que Deus acrescentava à igreja aqueles que se haviam de salvar? A resposta encontra-se nos versos anteriores. Verso 42, enquanto ela perseverava na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão, e nas orações. Versos 43-45, enquanto ela temia o Senhor e praticava a generosidade cristã. Verso 47, enquanto ela unanimemente adorava a Deus com alegria no templo, assim como nos encontros informais nos lares. Por isso

depende de Deus, mas envolve a igreja também. Como alguém disse: “Sem Deus, nada podemos; sem nossa obediencia, Deus não quer”.

o que PoDeMos e DeveMos fazer Por esse crescIMento sauDável? Uma das coisas essenciais que podemos e devemos fazer é praticar o discipulado. Em Mateus 28:19-20 Jesus nos deixou a seguinte tarefa tríplice: Fazer discípulos - levar pecadores a um relacionamento correto com Deus. Batizar estes discípulos – levá-los a um relacionamento correto com a igreja de Deus. Ensinar estes discípulos a obedecer todas as coisas que ele nos ensinou – levá-

Queremos crescer sim! Mas crescer

equilibradamente, crescer em número e em

espiritualidade, crescer em piedade, santidade,

novidade de vida, lançando luz em uma sociedade que jaz em trevas. Crescer de forma saudável”

também, Pedro não termina sua carta dizendo: “Igreja, não faça nada, apenas aguarde pelo crescimento que Deus lhes dará”. Pelo contrário, ele a encerra com um imperativo: “Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pd 3:18). Em resumo, a ideia do crescimento numérico e qualitativo da igreja não é um modismo antropocêntrico mas uma ideia bíblica. E, de acordo com a Palavra, esta bênção 48 | Revista f é pa r a h o j e

-los a um relacionamento correto com a Palavra de Deus através do discipulado! Por isso, o Pastor Mark Dever escreveu: “A evangelização que não resulta em discipulado é não somente evangelização incompleta, mas também é completamente inconcebível” (Nove Marcas de Uma Igreja Saudavel, p.32). A pratica do discipulado, de certa forma, está entrelaçada com outras marcas de uma igreja saudável. Por

exemplo, a igreja que possui um entendimento bíblico da evangelização não haverá de iludir as pessoas com uma falsa experiência de conversão, pois ela desafia os pecadores a renunciarem sua rebeldia, deixarem o chiqueiro do pecado e abrirem mão dos prazeres do mundo. Ela os convoca ao arrependimento, confissão dos pecados e abraço do Pai! Isto facilita muito a prática do discipulado. Pois, discipular um pródigo arrependido é trabalho árduo,

cristã. Um livro que impactou minha vida, foi escrito por LeRoy Eims, The Lost Art of Disciple Making (Zondervan). Permita-me compartilhar nossa luta e experiência na igreja que pastoreio, em Tupã, no estado de São Paulo. Apesar de termos uma grande afluência de visitantes nos domingos à noite, a maioria dos sermões visam a edificação dos salvos. Contudo, o convite do evangelho ao pecador quase sempre é apresentado, e uma pequena equipe

A Bíblia deixa claro que este crescimento é causado por Deus e não por sabedoria ou estratégias humanos” porém gratificante, mas tentar discipular um “irmão mais velho” cheio da sua própria autojustiça é desanimador!

Mas coMo é Isto na PrátIca? Obviamente, pensando nas 9 marcas propostas pelo Pr. Mark Dever em seu livro “Nove Marcas de Uma Igreja Saudável”, e, particularmente nesta que envolve o discipulado, a liderança de cada igreja poderá procurar métodos e materiais para discipular seus novos convertidos. Dever não propõe em seu livro um manual prático sobre discipulado, mas defende e promove o valor desta prática. Mas há bons livros, modelos e propostas sobre discipulado na literatura evangélica que podem ser de boa utilidade para a comunidade

oferece as primeiras instruções aos interessados. Os mais interessados são incentivados a se inscrever na classe de discipulado. Como pastor, faço questão de lecionar a classe preparatória para batismos. Eu mesmo preparei uma apostila com 10 lições que inclui tarefas de casa. Este curso dura 5 meses, o que serve para avaliar o interesse e perseverança do candidato ao batismo, assim como para estreitar o seu relacionamento com Deus, sua palavra, igreja e o líder espiritual da igreja. No decorrer deste discipulado, alguns desistem e no final do mesmo muitos pedem o batismo, enquanto outros pedem para fazer o curso novamente. Os candidatos a batismo são entrevistados por líderes da igreja. Os aprovados são ensinados a escrever Revista fé par a h oje | 49

um breve testemunho de conversão, destacando o nome das pessoas que Deus usou para levá-los a Cristo. No dia do batismo, antes desta leitura, esses “Barnabés” são convidados para estar ao lado do novo convertido e são encorajados a continuar acompanhando e investindo na vida de seus “Timóteos”. Também ensinamos o novo convertido acerca do valor da Escola Bíblica Dominical e do ministério de pequenos grupos. Desta forma os professores de EBD e líderes dos pequenos grupos passam a pastoreá-lo mais de perto. Esses dois ministérios têm se mostrado de muito valor, em nos-

silenciosa preparado pelo ministério Palavra da Vida. Este material nos ajudou a resgatar a prática da memorização de versículos entre nossas crianças. Motivado por seus filhos, muitos pais passaram a fazer a leitura bíblica diária. Em meio a tudo isto, temos enfatizado aquilo que chamo de teologia da mutualidade, destacando os inúmeros versículos que contém a expressão “uns aos outros”. Através desses versos, tenho ensinado meu rebanho que, sozinho, sou incapaz de pastoreá-los! Insisto que aquele velho conceito do súperpastor, que resolve tudo sozinho,

a despeito de Deus ser a causa primária deste crescimento, ele o realiza através da nossa obediência e devoção” sa experiência, para o envolvimento e crescimento saudável da igreja. Bem, uma vez que tanta responsabilidade é confiada nas mãos destes professores e líderes de pequenos o grupos, se faz necessário treiná-los. Temos uma equipe dedicada de pastores em nossa igreja que tem cumprido muito bem este papel. Outra frente de evangelização e discipulado tem sido as famílias – a frente mais importante, eu diria. Frequentemente incentivamos os pais a realizarem o culto doméstico. Nos últimos dois anos, nossos juniores e adolescentes receberam um livro de hora 50 | Revista f é pa r a h o j e

não é bíblico, afinal o pastoreamento de todo o rebanho só é possível através do envolvimento de todo rebanho – “uns aos outros”. Obviamente, sei que nunca vou conseguir o envolvimento de todas as minhas ovelhas, mas cada “uma” que entende este conceito já faz grande diferença! Alguns consideram este nosso modelo exigente demais. Minha resposta a esta critica é: “se fazendo assim ainda temos tido o desprazer de ver alguns se desviando após um tempo, imagina o que aconteceria se apressássemos as pessoas ao batismo”. Entendo que não existe um processo

quando os membros de uma igreja crescem à semelhança de Cristo, é Deus quem recebe a glória!” de discipulado que garanta um resultado perfeito. O próprio Cristo falou acerca do joio no meio do trigo. Porém, não podemos usar isto como desculpa para inchar nossas igrejas através de uma evangelização rápida, emotiva e até ingênua. Paul Washer, falando sobre a fraqueza da igreja evangélica americana, desabafou estar cansado de ver “membros de igreja” descompromissados, sem nenhum fruto na vida espiritual, que se consideram salvos apenas porque fizeram uma oração de entrega de vida a Deus quando tinham 4 anos de idade.

quatro coIsas IMPortantes. Primeira, o crescimento numérico e espiritual da igreja de Cristo vem de Deus! Isto é algo legitimo, bíblico e desejável! Segunda, a despeito de Deus ser a causa primária deste crescimento, ele o realiza através da nossa obediência e devoção. Como Paulo disse “é Deus quem deu o crescimento”, mas Deus só operou tal crescimento após Paulo ter “plantado” e Apolo “regado” (I Co 3:6). Terceira, o caminho do discipulado é longo e trabalhoso, mas é uma importante marrca para o crescimento

saudável da sua igreja! Crescimento numérico sem discipulado não é um atalho, é um beco sem saída! Quarta, quando os membros de uma igreja crescem à semelhança de Cristo, é Deus quem recebe a glória! Por isso Jesus disse: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:16). Que Deus nos abençoe ricamente conforme buscamos o crescimento saudável de nossas igrejas! E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fieis e também idôneos para instruir a outros. (2 Tm 2:20)

Sillas Larghi Campos: Mestre em Teologia, pastor da Primeira Igreja Batista de Tupã, SP, preletor.

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O a

M a r c a 9: l i D e r a n ç a b í b l i c a

PerfeIçoaMento dos

santos

E

ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edif icação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio 52 | Revista f é pa r a h o j e

de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edif icação de si mesmo em amor. (Efésios 4.11-16) Em sua carta aos Efésios, o Apóstolo Paulo procura inicialmente estabelecer e explicar as doutrinas da graça de Deus (capítulos de 1 a 3) e depois descreve aspectos fundamentais da vida cristã (capítulos 4 a 6). Diríamos que a primeira parte é mais “doutrinal” e a segunda mais “prática”. É na segunda parte que Paulo insere a questão da liderança da Igreja. Vejamos os princípios de liderança para a Igreja em Efésios 4.11-16 nas suas três afirmações básicas, na seguinte progressão:

Gilson Santos 1. O Ministério dos Santos 2. O Aperfeiçoamento dos Santos 3. O Ministério do Aperfeiçoamento

1. O ministério dos santos A Igreja do senhor Jesus Cristo cresce e se solidifica quando todas as suas partes (santos) estão ligadas entre si e trabalhando bem. Preste bastante atenção ao verso 16: “...todo o corpo bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento...” Colocando em outras palavras, o que Deus está dizendo é o seguinte: Quando a Igreja está unida debaixo do poder de Cristo e direção do Espírito Santo, com todos os seus

membros ligados entre si através da comunhão, e cada um fazendo a sua parte e trabalhando bem, a Igreja cresce e se desenvolve. Obviamente, aqui a ideia de crescimento não se restringe a referenciais quantitativos ou numéricos. E nem se deve confundir o aumento numérico com o crescimento, embora este também seja por natureza aumentativo. Há alguns anos atrás um ex-treinador de futebol, muito experiente, estava dando uma série de palestras sobre condicionamento físico. Alguém perguntou-lhe acerca da contribuição do futebol profissional moderno para a forma física. Todos aguardavam como resposta um longo discurso. Mas ele, objetivamente, respondeu da seguinte maneira: “Defino o futebol como 22 homens no gramado que precisam desesperadamente de descanso e 50.000 pessoas no estádio que precisam desesperadamente de exercício”. Essa resposta toca no âmago um problema que igrejas estão enfrentando ao fazer o trabalho de Deus. É um dilema duplo: a igreja sofre devido às grandes expectativas de uns poucos e pela pouca participação de muitos. Bruce L. Shelley – de quem li a ilustração acima – ainda que de forma bem incisiva, diz em seu livro: “Transformamos o trabalho cristão num esporte de espectadores. O limite do envolvimento do membro comum é quase o mesmo do fã de futebol. Grita muito, querendo ensinar como o jogo deveria ser jogado, mas não contribui com nada além de suas críticas”.1 No munRevista fé par a h oje | 53

do estamos na era dos especialistas, porém, Deus jamais planejou que o serviço cristão fosse executado apenas por peritos, pois o ministério pertence à igreja inteira. A Igreja é chamada do mundo que corre sem propósito (Mt 9.36), para cumprir um propósito sublime. Ela tem um ministério a realizar. Sua carreira tem começo, meio e fim. O crente é repetidamente qualificado na Bíblia como “chamado” (gr kletos), alguém que foi convidado, chamado, um santo. A igreja é chamada por Jesus (Mt 11.28-30). Nosso chamado não é feito por seres humanos. Não somos cristãos porque nossos pais são cristãos, porque temos carteirinha de sócios da

do pecado, concedendo-lhe salvação, e preparando-o para o serviço. Não pode haver vocação (ou chamada) sem ministério. Ninguém é chamado para ficar parado. A ideia cristã sobre o ministério surgiu de uma fonte primária, a saber, a própria vida e missão de Jesus Cristo. Nosso Senhor viu seu propósito no mundo em termos de serviço. “Pois o próprio Filho do Homem”, disse ele, “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). Jesus tornou claro que seus seguidores deveriam ser ministros ou servos. Ele contrastou os discípulos com os governantes do mundo que exerciam

A Igreja do senhor Jesus Cristo cresce e se

solidifica quando todas as suas partes (santos) estão ligadas entre si e trabalhando bem”

igreja ou porque o pastor nos chamou para irmos participar da igreja que ele lidera. Cristão é alguém que recebeu o chamado de Jesus e tem um relacionamento pessoal com ele ( Jo 10.27-28). A Igreja é, portanto, mais do que uma agregação de pessoas, que por conta própria decidem reunir-se. Ela é uma congregação de pessoas chamadas pelo próprio Deus. Neste sentido, Deus vem primeiro. O seu chamado precede à congregação. Deus tem manifestado o seu propósito em chamar do mundo um povo para si, remi-lo 54 | Revista f é pa r a h o j e

autoridade sobre os seus súditos. “Mas entre vós não é assim”, afirmou, “pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos” (Mc 10. 43-45).

2. o aPerfeIçoaMento Dos santos

As partes (santos) somente estarão harmonizadas e desempenhando cada qual o seu papel se forem capacitadas para tanto. Ninguém dá o que não tem.

É por esta razão que o nosso texto básico diz que Deus quer “o aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para edificação do corpo de Cristo” (v. 12). A palavra aperfeiçoamento (katartismos) integra um conjunto de palavras muito significativas e de grande importância na língua em que o Novo Testamento foi escrito (grego). O verbo que integra este conjunto de palavras foi usado em Lc 4.21 onde se diz

breus: “Ora, o Deus da paz... vos aperfeiçoe em todo bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável...” (13.20, 21). Assim como na Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) Deus é o sujeito. E as frases expressam o seu poder para fortalecer e estabelecer. “Aperfeiçoamento” aqui em Efésios 4.12 significa dizer que, através de um ato dinâmico, os crentes precisam ser condicionados adequadamente a reali-

As partes (santos) somente estarão harmonizadas e desempenhando cada qual o seu papel se forem

capacitadas para tanto. Ninguém dá o que não tem” que os discípulos estavam “consertando” as redes. De fato, o verbo é traduzido como “consertar”, “corrigir” (Gl 6.1), “reparar”(1 Ts 3.10), “preparar”, “formar”, “treinar”, “equipar”, “aperfeiçoar” (2 Co 13.11), “por em ordem”. Podia ser usado como um termo técnico para consertar um osso quebrado. Podemos ver este mesmo verbo nas palavras de Jesus: “O discípulo não está acima do seu mestre; todo aquele, porém, que for bem instruído será como seu mestre (Lc 6.40); e Paulo escrevendo aos coríntios, roga-lhes que sejam “inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer” (1 Co 1.10). “Que for bem instruído” e “inteiramente unidos” é o mesmo verbo no original. Este também é o verbo usado na oração do escritor aos He-

zarem o seu serviço. Precisam ser preparados para serem, de fato, membros do Corpo de Cristo, e genuinamente partes responsáveis da família de Deus. O verso 13 diz que a igreja precisa ser dirigida para um alvo, um objetivo. E neste propósito, precisa ter unidade na fé. Os membros precisam crer e saber em que estão crendo e sua fé precisa ter um conteúdo doutrinário, o conhecimento do Filho de Deus, para que possam refleti-lo em suas vidas. Precisam crescer, e ser pessoas maduras, até alcançar a altura espiritual de Cristo. E os versos 13 e 14 dizem que os membros devem estar bem alicerçados e firmes para resistirem às heresias e desvios da verdade. Devem estar alertados contra o caminho do erro. Devem seguir a verdade. E devem fazer tudo isto em amor. Revista fé par a h oje | 55

Os membros da igreja se edificam mutuamente por meio do amor, que é o que o identifica como sendo de Cristo. Você concorda que estes são desafios bastante elevados para a Igreja? Você pode ver isto em toda a sua igreja? O “aperfeiçoamento dos santos” pressupõe a regeneração, daí a pungente necessidade de se pregar sobre ela. Nunca acredite, nem por um momento sequer, que haverá qualquer verdadeira conversão que não seja acompanhada por santidade pessoal. Um sinal evidente de uma pessoa nascida de novo é que terá fome. É extremamente significativo que o adjetivo grego artios, radical da palavra “aperfeiçoamento”, ocorre uma única vez no Novo Testamento, e seguido de um

verdade. Chega a ser interessante notar em correlação que também em Hebreus 11.3 se diz que “o universo foi formado pela palavra de Deus”, que é exatamente o verbo grego em questão. Os santos são aperfeiçoados em e através da Palavra de Deus, chamada na carta aos efésios de a “palavra da verdade”. Este é o alimento das ovelhas. Nela temos o “genuíno leite espiritual” das crianças recém-nascidas, através do qual vem o “crescimento para a salvação” (1Pe 2.2). Nela temos o “alimento sólido” para os adultos, “aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5.11-14; 1 Co 3.2). Conforme o nosso texto, é através dela

Os membros precisam crer e saber em que

estão crendo e sua fé precisa ter um conteúdo

doutrinário, o conhecimento do Filho de Deus, para que possam refleti-lo em suas vidas

derivado enfático, a saber, em 2 Timóteo 3.17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. Na verdade, a Palavra de Deus é o principal meio que Deus usa para levar o “homem de Deus” ao aperfeiçoamento. Em correlação com este texto, leia-se também 2 Co 13.7-9 onde o apóstolo relaciona o aperfeiçoamento à 56 | Revista f é pa r a h o j e

que vem a “unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus... para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que conduzem ao erro” (Ef 4.1315). A Palavra de Deus é a verdade, a qual devemos “seguir em amor”. Diz o apóstolo: “... com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação

do corpo de Cristo...” (Ef 4.12). Para que a igreja possa ser forte ela deve não só ter bons líderes (v. 11), mas também bons e ativos membros (v. 12). Algumas versões traduzem “para a obra do ministério”. A idéia radical de ministério é serviço. Deve-se frisar que o original não fala

A igreja é edificada e fortalecida, à medida que cada membro usa seus dons individuais segundo o que o Senhor ordena, e, desta forma, cada crente desempenha um serviço espiritual para com seus companheiros no corpo de Cristo e para com a cabeça.

Nunca acredite, nem por um momento sequer,

que haverá qualquer verdadeira conversão que não seja acompanhada por santidade pessoal”

de “a obra do ministério”, porém “a obra de ministério”, ou seja, a prestação de serviços específicos de várias espécies. “Aperfeiçoar” seria prover o equipamento necessário para todos os santos com vistas à obra de ministrar uns aos outros bem como edificar o corpo de Cristo. O propósito imediato dos dons de Cristo é o ministério realizado por todo o rebanho; seu propósito último é a edificação do corpo de Cristo, ou seja, a igreja. Não apenas os líderes, mas a igreja inteira deve estar engajada no labor espiritual. Os crentes devem se tornar aptos para o desempenho de suas funções no Corpo. A palavra empregada aqui (diakonia; ou verbo correspondente) diz respeito ao serviço feito pelos servos da casa (Lc 10.40; 17.8; 22.25s; At 6.2). Refere-se, portanto, não só ao trabalho específico daqueles que vieram a ser conhecidos como “diáconos», mas é usada também num sentido mais geral da palavra que se refere a todo “serviço” da igreja (Ef 3.7).

3. o MInIstérIo Do aPerfeIçoaMento

A responsabilidade por capacitar as partes (santos) para atuar repousa sobre os apóstolos, evangelistas, profetas e pastores-mestres. Já temos visto sobejamente que o sujeito do aperfeiçoamento é o próprio Deus. Isto é obra da graça de Deus em Cristo. “Ele mesmo concedeu... com vistas ao aperfeiçoamento”. Ele concedeu “apóstolos”, “profetas”, “evangelistas” e “pastores e mestres”, sob o ministério dos quais tenciona que os santos sejam aperfeiçoados. Paulo faz referência aqui ao que se tem chamado de ministérios ordinários (regulares) e extraordinários. Ministérios extraordinários são aqueles que tiveram o seu tempo, seu lugar e seu propósito específico. Entre estes últimos verificamos os apóstolos, que tiveram a missão de lançar os fundamentos da Igreja. Porém, Paulo faz referência também àqueles Revista fé par a h oje | 57

ministérios regulares na liderança da igreja... Ele assevera com clareza que foi pensando em equipar os crentes para realizarem o trabalho, que Deus escolheu e deu pastores à igreja (v. 11 e 12). A expressão “pastores e mestres” pode ser traduzida como pastores-mes-

homem, portanto, deveria colocar-se nesta missão, a menos que esteja certo desta graça de Deus em sua vida. O Novo Testamento nunca contempla a situação em que a igreja comissiona e autoriza pessoas a exercer um ministério para o qual lhes falta tanto a chama-

Os santos são aperfeiçoados em e através da Palavra de Deus” tres, ou “pastores ensinadores”. Cabe ao pastor a sublime e difícil tarefa de aperfeiçoar os santos e guiá-los à maturidade espiritual. Porém, lamentavelmente, muitas das atividades em determinadas igrejas talvez tenham como propósito entreter as pessoas e mantê-las interessadas, e quem sabe, ocupadas. Precisamos de líderes que saibam traçar as plantas dadas por Deus, sendo também aptos para equipar os crentes para o trabalho de construção do edifício. As ovelhas geram outras ovelhas; e por que não poderiam elas mesmas ministrar cuidados básicos aos seus cordeirinhos? Esse é o processo natural, e também o princípio da multiplicação. Na Igreja Primitiva, o pastor deveria ter por alvo que seus discípulos se desenvolvessem e realizassem seu ministério. Os santos serão aperfeiçoados por aqueles que foram chamados, constituídos, habilitados e dados por Cristo à sua igreja. Foi o próprio Cristo quem chamou a Pedro, e deu-lhe a missão: “apascenta as minhas ovelhas”. Nenhum 58 | Revista f é pa r a h o j e

da divina quanto o equipamento divino. Comentando a expressão “pastores e doutores”, assim escreve W. Hendriksen: Pastores e mestres são melhor considerados como um grupo. Hodge observa: “Não há nenhuma evidência na Escritura de haver classe de homens autorizados a ensinar, porém não autorizados a exortar. É uma coisa quase impossível”. Concordo plenamente. O que temos aqui, portanto, é uma designação de ministros de congregações locais, “presbíteros docentes (ou supervisores).” Por meio da exposição da Palavra estes homens pastoreiam os seus rebanhos. Cf. At 20.17, 28; Jo 21.15-17.2

Os deveres do pastor são: prover o rebanho de alimento espiritual e procurar protegê-los de perigos espirituais. Nosso Senhor utilizou esta palavra em João 10.11, 14 para descrever sua própria obra, sendo sempre ele mesmo, o sumo Pastor (Hb 13.20; 1 Pe 2.25; 5.4), sob quem os homens são chama-

dos a pastorear “o rebanho de Deus” (1 Pe 5.2; Jo 21.15; At 20.28). Portanto, o propósito imediato de Cristo em dar pastores à sua igreja é, através do ministério da palavra exercido por eles, equipar todo o seu povo para os ministérios variados. Isto será de grande benefício para aqueles que exercem o seu ministério com fidelidade quanto para aqueles que o recebem, pois a igreja torna-se cada vez mais saudável e madura. Enfim, o tamanho do ministério do pastor não é medido pelo número de pessoas a quem ele

quem sabe, até melhor. Os apóstolos nos ensinaram isto quando elegeram “os sete”. E nós também deveremos chegar à mesma conclusão que eles: “Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus” para servir em outras mesas. Este ministério não deverá cessar, e nem chegará ao fim, antes que Cristo volte e haja a consumação de todas as coisas. Será, então, que nós pastores “devolveremos” as ovelhas ao seu legítimo pastor. E será somente então que o imperfeito terá sido revestido da completa e total perfeição!

Se como pastores desejamos o aperfeiçoamento dos santos, devemos pacientemente, e com

fidelidade, pregar todo o conselho de Deus” serve diretamente, mas pelo número de pessoas servidas pelos santos a quem ele serve, e equipa para o seu ministério. Se como pastores desejamos o aperfeiçoamento dos santos, devemos pacientemente, e com fidelidade, pregar todo o conselho de Deus, conduzindo e supervisionando o ensino de sua santa Palavra em nossa igreja. A carne, o mundo e o diabo, com todas as suas pressões, tudo farão para demover-nos deste propósito, negligenciando a primazia e seriedade do mesmo, embaraçando-nos com as coisas deste mundo, ou fazendo-nos enveredar por envolvimentos em múltiplas atividades menos importantes, ou que talvez outros na igreja poderiam realizar bem, e

1. Bruce L. Shelley A Igreja: o povo de Deus. São Paulo (SP): Edições Vida Nova, 1984. pp. 104ss. 2. William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: Efésios. São Paulo (SP): Casa Editora Presbiterina, 1992. p. 245. Adiciona o autor:

As palavras tous não se repetem antes de didaskalous. Esta falta de repetição não é suficiente por si mesma para provar que se refere a um só grupo. Contudo, no presente caso temos um paralelo em I Tm 5.17b, onde se mencionam homens que, além de exercer a supervisão sobre o rebanho, juntamente com os demais anciãos, também laboram na palavra e no ensino. Estes pastores e mestres são um grupo.

A obra de C. A . Hodge aqui citada trata-se de Commentary on the Epistle to the Ephesians, Grand Rapids, 1954, p.226.

Gilson Carlos de Souza Santos: Bacharel em Teologia e História, pastor da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, SP, autor e preletor.

Revista fé par a h oje | 59

saúde invista

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Revista Fé para Hoje Número 36, Ano 2012