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Um Lugar no Para铆so Cr么nicas de Estradas

Um Lugar no Paraíso Crônicas de Estradas

São Paulo 2011

Copyright © 2011 by Editora Baraúna SE Ltda Capa e Projeto Gráfico Aline Benitez Revisão Henrique de Souza Diagramação Monica Rodrigues

Priscila Loiola CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________

S583L

Silva, Roberto Um lugar no paraíso: crônicas de estradas: livro 1 / Roberto Silva. - São Paulo : Baraúna, 2011. Inclui índice ISBN 978-85-7923-373-9 1. Crônica brasileira. I. Título. 11-7388.

CDD: 869.98 CDU: 821.134.3(81)-8

01.11.11 09.11.11

031122

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Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua Januário Miraglia, 88 CEP 04507-020 Vila Nova Conceição - São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br www.livrariabarauna.com.br

Agradeço a DEUS a inspiração e Ofereço Um lugar no paraíso a: Minha amada esposa Lu Minha filha Vick Meus irmãos Dr. Raimundo, Cesar e Adilson Dona Celina, mãe dedicada E a todos aqueles que me guardam no coração: meu paraíso.

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“A pé e de coração leve eu tomo a estrada aberta Saudável, livre e com o mundo à minha frente Um longo e pardo caminho a levar-me aonde quer Que eu deseje...” Song of the open road Walt Whitman

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1 “...Graças à ação rápida e corajosa da polícia, um empresário, sequestrado há uma semana, foi libertado, e quatro sequestradores foram presos na capital carioca...” A voz grave do apresentador do telejornal alcança o quarto do pequeno apartamento, atraindo a atenção de um homem que, apressado, separa algumas roupas. O noticiário mostra imagens de criminosos sendo levados por policiais, enquanto um repórter tenta conversar com o agente que, segundo informações, fora o responsável pelo sucesso da operação. Ele, porém, preferiu não fazer comentários, fugindo das câmeras e das perguntas impertinentes do repórter. Antônio Xavier, o Tony, como era conhecido na corporação, um oficial competente e polêmico cujas convicções lhe renderam algumas inimizades dentro do próprio grupo, combatia a corrupção que, como uma célula cancerígena, se alastrava por toda a polícia. A corporação estava dividida – uma divisão imperfeita, já que apenas uma minoria não aceitou o convite para formar grupos de milícias que, sob o pretexto de combaterem o tráfico nos morros, praticavam todo tipo de abuso em proveito próprio. Cidadãos e criminosos eram tratados da mesma forma, à bala. O homem vai até a sala e para em frente à televisão.

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Por um segundo, observa sua imagem e sorri, voltando, logo depois, ao vaivém, arrumando algumas roupas e outros itens de uso pessoal em uma mochila colocada sobre a mesa de centro, a qual disputa um lugar com o sofá e a televisão na sala do pequeno apartamento. Num gesto rápido e natural, veste a jaqueta de couro que estava jogada sobre o sofá e, em seguida, se põe em pé em frente a um pôster de Elvis pendurado na parede da sala. Fazendo-lhe um sinal de positivo com o polegar, Elvis parece responder com um sorriso debochado. Estava pronto, mas antes de sair ainda tomaria mais um gole de tequila. Com a mochila nas costas e o capacete na mão, ele desce até a garagem do prédio usando as escadas, esperando, assim, não encontrar um dos vizinhos curiosos no elevador e se atrasar ainda mais. Os demais moradores não conseguiam se acostumar com sua vida corrida, sua ausência mesmo quando estava presente, sempre evitando um contato mais íntimo com eles, mas sempre cordial e educado nos raros momentos em que não conseguia escapar de alguma pergunta. Para ele, qualquer pergunta sobre sua vida seria indiscreta e, de sua parte, não indagava sobre a vida de ninguém. Tony observa sua moto, uma Harley Davidson Fat Boy que seria apenas mais uma Harley se o androide vivido por Arnold Schwarzenegger não a tivesse imortalizado no filme “O exterminador do futuro 2”. Não que uma Harley por si só não tenha lá o seu charme, mas o cinema ajuda, ele pensa. Depois da morte de sua esposa, o veículo passou a ocupar um importante lugar em sua vida, uma companheira inseparável de viagens.

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Ele liga o motor da moto, e o barulho ecoa pela garagem, com a força de um trovão. Prevendo muitas emoções para os próximos dias, o motociclista grita, eufórico, e sai do prédio. A noite está quente, o clima agradável, porém a avenida ainda está congestionada. A moto percorre o corredor que se forma entre os carros, enquanto Tony nota os olhares invejosos dos motoristas presos no congestionamento. Está ansioso para alcançar a rodovia e deixar para trás esse trânsito caótico e, se tudo correr como planejou, estará em seu destino logo ao amanhecer. Tony precisa sentir o vento no rosto, sentir o prazer que esse momento na estrada oferece; o prazer da liberdade, uma liberdade fictícia, pois onde quer que vá estará preso a fantasmas do passado. Ele acelera sentindo a adrenalina percorrer cada centímetro do seu corpo ao mesmo tempo em que ouve, nos fones de ouvido ligados ao MP3, suas músicas preferidas de Elvis. Programou suas férias para esta época do ano, pois nesta data acontece um dos maiores encontros de motociclistas do Brasil na pequena cidade de Serra Negra, interior de São Paulo. Cada curva, cada quilômetro percorrido com sua moto faz que se sinta mais próximo do paraíso, mesmo que, para ele, “paraíso” seja uma utopia que, em contradição consigo mesmo, em seu íntimo, ele espera encontrar. Em meio à escuridão, ouve-se apenas o “pipocar” do motor da Harley se perder na noite, deixando para trás uma sensação de solidão e angústia. Tony é solitário, fez-se solitário, uma atitude extrema contra o mundo ao seu redor, como um lobo que escolhe viver desgarrado por

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não compactuar com as atitudes da matilha, um lobo solitário, como disse um colega da corporação, em tom de zombaria. Além dos poucos colegas de profissão, aqueles que ainda resistiam à corrupção, só alguns parentes mais próximos compunham seu reduzido circulo de amizades. A estrada é sua melhor companhia, o melhor amigo ou amiga, a amante compartilhada com outros, a mãe que recebe em seu seio o filho pródigo que retorna cansado das decepções da vida, acabrunhado por ter seus sonhos destruídos pelo mundo real. Até mesmo o amor lhe foi negado, quando sua esposa foi assassinada de forma cruel. Sua amada Ana foi morta por traficantes, em represália à sua ação a serviço da lei. Injetaram a morte em sua veia, em seu coração sonhador, vítima involuntária de uma overdose de cocaína e, se não bastasse isso, num ato de extrema crueldade, estupraram-na covardemente. Tinham apenas dois anos de casados, e sua morte trágica e prematura o deixou revoltado, calado e rebelde. O caso foi arquivado, a Justiça alegou falta de provas e, pior, macularam a memória de sua amada acusando-a de usuária de drogas, uma promíscua. Achou que estava louco ao desconfiar da própria polícia. Perdeu a esperança no ser humano, para ele os visionários e poetas estavam errados ao acreditar que um dia existiriam paz e amor ao próximo sobre a Terra. Então sobraram apenas as lembranças de um grande amor e a dedicação a seu trabalho como meios de continuar vivendo. Poucas coisas ainda lhe dão prazer, entre elas viagens de moto e uma boa música, acompanhada de uma boa tequila. Ele se aproxima de seu destino, quando surgem os

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primeiros raios de sol no horizonte. Essa luz forte e brilhante, prelúdio de um novo dia, aquece sua alma, levando-o, por alguns segundos, a sentir um pouco de paz, e esquecer as perdas e os danos em sua vida. Mas esse sentimento dura pouco, pois, vindo do nada, um vulto surge em sua frente, trazendo-o de volta à realidade: — Merda! — grita, enquanto perde o controle da moto e sente o Impacto doloroso do asfalto contra seu corpo. Moto e piloto se arrastam lado a lado por alguns metros de estrada. O atrito entre as partes metálicas da moto contra o asfalto gera faíscas que iluminam a manhã ainda escura, enquanto a roupa de couro e o capacete o protegem das garras afiadas do asfalto. Tudo acontece em segundos. Tony tenta se por em pé, mas não consegue, apenas ergue a cabeça, pois o resto do corpo não obedece à sua vontade. A visão, ainda embaçada, mostra apenas a silhueta do homem que cruzou seu caminho, causando o acidente, e ele se aproxima, curioso, como que verificando se está machucado gravemente; foi tudo muito rápido, não houve tempo para Tony se recuperar e, ainda grogue, identificar o rosto do estranho personagem. Como pode ainda estar de pé? “Aquele homem foi atingido em cheio pela moto, ninguém escaparia ileso de um acidente como aquele”, Tony questiona, ainda confuso. Tão rápido quanto surgiu, o vulto desaparece, deixando o motociclista ainda tonto, caído ao lado da moto. — Porra, que tombo! Tudo culpa desse bêbado filho da puta — pensa, enquanto se levanta com dificuldade. — Acho que quebrei o braço — conclui, com

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uma careta de dor. — Não dá pra pilotar, deixo a moto aqui e vou procurar ajuda. Tony caminha pelo asfalto sentindo fortes dores por todo o corpo, contudo, a julgar pelos arranhões na jaqueta e no capacete, na ausência desses equipamentos poderia estar muito pior. Não conhece a região, está passando ali pela primeira vez, e teme que a cidade ainda esteja distante, sem contar o silêncio na estrada, indicando que será difícil arrumar uma carona. Um galo canta distante e um cão late como resposta, pedindo silêncio para continuar seu merecido descanso, sinais de uma residência logo à frente. Pouco depois, não muito longe, após uma curva, Tony avista uma pequena casa. — Olá, tem alguém em casa? — grita em frente à porteira, mantendo-se afastado. Como resposta, só o silêncio, entrecortado pelos latidos de um cão amarrado a uma árvore no quintal. Com o barulho do cachorro e de forma quase automática, num movimento involuntário, ele recua um passo, lembrando Rio Negro, o cão de seu amigo Willie que sempre o recebe no sítio em Peruíbe, pulando sobre ele, tentando lamber-lhe o rosto. Alguns minutos depois, a porta da pequena casa se abre timidamente, revelando a figura frágil de um velho negro com cabelos brancos, magro e um pouco curvado, demonstrando o peso da idade e as dificuldades que enfrenta com resignação. Após alguns segundos de hesitação, franzindo o cenho como quem tenta reconhecer a visita, o velho vem recebê-lo atravessando, a passos lentos, o “terreiro” que separa a casa da porteira, trazendo em uma das mãos um cachimbo, companheiro inseparável.

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— Bom dia, sêo moço. Vamo entrano — convida, falando um português errado, espontâneo, já abrindo a porteira. — Obrigado! — responde Tony enquanto segue o velho em direção à casa, ainda preocupado com os latidos do cão que agora parecia mais irritado. O velho entra e faz um sinal com a mão para que Tony o siga pela pequena casa simples; as paredes feitas de barro, com uma estrutura de galhos e troncos de árvores amarrados com cipó, de pau-a-pique. Na sala, apenas uma mesa com quatro cadeiras, tudo feito com madeira tosca e sem acabamento. Nenhum quadro enfeita as paredes. O velho leva Tony direto para uma cozinha de paredes sem pintura, chamuscada nos pontos próximos a um fogão à lenha, onde há algumas panelas nas quais fervem ervas em fogo brando. — Sofri um acidente na estrada. — Tony diz, tentando manter-se afastado da fumaça que se nega a subir pela rústica chaminé, irritando seus olhos, com o que o velho parece já estar acostumado. — Alguém atravessou em minha frente, deve ter sido um desses bêbados que andam por aí sem destino. — As palavras “sem destino” param em sua mente por alguns instantes; conhece muito bem o problema; andar sem rumo, fugindo de lembranças dolorosas e arriscando a própria vida em missões perigosas, aguardando inconsciente pelo tiro de misericórdia. Entregando-se à embriaguez em constantes momentos de bebedeiras, numa vã tentativa de escapar da realidade. Sua realidade. — He, he, he! — o velho sorri tranquilo, enquanto prepara uma mistura de ervas em uma cumbuca, tirando Tony das lembranças dolorosas. — Eu sei, moço, vi tudin lá da roça. Já truxe inté as erva pra tratá do machucado.

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Um Lugar no Paraíso Crônicas de Estradas