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A história da criação de Pedro Leopoldo contada pelo

Arquivo

Geraldo eão L

Bruno Lopes

A história da criação de Pedro Leopoldo contada pelo

Arquivo

Geraldo eão L

© 2010 É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio eletrônico, inclusive por processos xerográficos, sem autorização expressa do Editor.

Projeto gráfico e textos: Bruno Lopes Revisão: Lourdes Nascimento Depoentes: Geraldo Leão dos Santos Elza Alves Costa Elysio Alves Gonçalves Ferreira (in memoriam) Antônio Coutinho Viana Alcindo de Oliveira Angélica Grellmann Breunig Rua Nossa Senhora da Saúde, 76 - Centro CEP: 33600-000 - Pedro Leopoldo/MG bruno.lms@gmail.com

Lopes, Bruno A história da criação de Pedro Leopoldo contada pelo Arquivo Geraldo Leão / Bruno Lopes. Pedro Leopoldo, 2010. 164 p. 1. Memória – Pedro Leopoldo (MG) . I. Lopes, Bruno. II.Título.

Informação bibliográfica deste livro, conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT): LOPES, Bruno. A história da criação de Pedro Leopoldo contada pelo Arquivo Geraldo Leão. Pedro Leopoldo, 2010. 164 p.

Ao Sr. Geraldo Leão, pela dedicação à memória de Pedro Leopoldo, aos moradores da cidade e à minha avó, Dona Rita, por suas memórias que deixaram muita saudade.

AngĂŠlica Grellmann Breunig

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Aos meus pais, que sempre batalharam por mim e me ensinaram a batalhar também. Por tudo o que fizeram e ainda fazem por mim, sempre. À minhas irmãs, aos meus tios e primos que sempre estão dispostos a ajudar. Ainda irei retribui-los. A todos os professores que, durante o curso, me deram conhecimento para que eu pudesse realizar este projeto. Em especial, à minha orientadora, Daniela Luz, que com paciência, sem deixar de lado a exigência, me conduziu com maestria, e é a quem devo o resultado deste projeto. À Lourdes Nascimento, pelo excelente trabalho de revisão e pela companhia diária no trabalho, nos almoços e nas mesas dos bares. À Mannuella Luz e Alexandre Lopes, pela disposição em auxiliar e orientar com seus conhecimentos. A todos os depoentes, Elza Alves Costa, Antônio Coutinho Viana e Alcindo de Oliveira, pela paciência e disponibilidade. Vocês deram vida a este livro. À Zélia Cerqueira Barbosa e Edson Jorge, pela contribuição a este projeto e à cidade. Em especial, à Angélica Grellmann Breunig, que além de ceder o seu depoimento, orientou com todo o seu conhecimento sobre a cidade e forneceu materiais valiosíssimos. Sua dedicação à Pedro Leopoldo é admirável. Ao Matheus e aos meus amigos, pela compreensão de minhas ausências, por toda força e ajuda. E ao sr. Geraldo Leão, não apenas pela colaboração com o meu trabalho, mas também pela dedicação à memória de Pedro Leopoldo.

}{ Breve História de Pedro Leopoldo

Agradecimentos

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AngĂŠlica Grellmann Breunig

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Breve história de Pedro Leopoldo

Angélica Grellmann Breunig .................................................................................................................... 10

O Arquivo por Geraldo Leão

Geraldo Leão dos Santos ............................................................................................................................... 14

Fazenda Cachoeira Grande:

O início de tudo

Elza Alves Costa ................................................................................................................................................. 32

A verdadeira história da origem Fábrica de Tecidos

Elysio Alves Gonçalves Ferreira (in memoriam) .......................................................................... 54

A vida na Estação Ferroviária

Antônio Coutinho Viana ............................................................................................................................... 86

O importante papel da Fazenda Modelo

Alcindo de Oliveira ......................................................................................................................................... 108

A criação de Pedro Leopoldo

Angélica Grellmann Breunig .................................................................................................................. 136

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Sumário

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AngĂŠlica Grellmann Breunig

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Vista de Pedro Leopoldo nos anos 30.

edro P eopoldo L Texto

Angélica Grellmann Breunig

Em 1890, Antônio Alves Ferreira da Silva, ao fazer uma visita a sua irmã, Angélica, na fazenda Quilombo, em Pindaíbas, conheceu a cachoeira Grande, atual Pedro Leopoldo, e viu nela um potencial hidráulico maior do que o da cachoeira dos Macacos, em sua fazenda, onde ele já tinha uma fábrica têxtil instalada. A partir de então Antônio Alves dedicou-se a adquirir a fazenda da Cachoeira Grande ou fazenda das Três Moças, como também era conhecida. Esta fazenda contava com o casarão principal - posteriormente queimado por ter abrigado vítimas de tuberculose -, a casa do engenho - atualmente conhecido como casarão da fábrica e que foi durante muito tempo utilizado pelos diretores da fábrica como moradia, e portanto, a pesar de algumas modificações, ainda existe -, os armazéns, que seriam localizados em frente à casa do engenho, - ao que parece, ainda existem -, uma casa ainda em construção - cuja descrição e localização nos remete á atual casa da administração -, e a casa do caseiro, que imagina-se ser a casa de esquina da rua N. Sra. da Saúde (em pau-a-pique), que ainda existe. Em 1893, após a assembléia com os fazendeiros da região, Antônio Alves, inicia as obras da fábrica e, em 1895, ela é inaugurada com todas as pompas. Pedro Leopoldo fica inserido no contexto mineiro das indústrias de tecido: indústrias que nasceram do capital oriundo da agricultura e da pecuária, como era o caso do sr. Antônio Alves Ferreira da Silva, fazendeiro e proprietário de escravos. A fábrica original, toda em madeira, foi destruída na década de 70 para uma ampliação de suas instalações, apenas sua porta foi reaproveitada na reforma do casarão da fábrica.

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Breve história de

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Angélica Grellmann Breunig

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A fábrica acabou por atrair, para Pedro Leopoldo, diversas famílias da região que viriam suprir a necessidade de mão de obra para a produção, a manutenção e a administração da fábrica. Para receber estas famílias foram construídas casa que formaram uma vila operária conhecida como “Quadro”, em função da disposição destas: formavam um quadrado com a fábrica. Posteriormente, no princípio do século XX, a ampliação da fábrica e a instalação de uma unidade de “branqueamento” do tecido, para qual também foi perfurado o primeiro posso artesiano da cidade, fomentou a necessidade de construção de um número maior de moradias que ficaram localizadas nas proximidade: antiga rua do Céu - que atualmente nem existe mais - rua N. Sra. da Saúde, rua São Paulo - cujas casas só se conservam do lado oposto à fábrica, visto que problemas de segurança e de espionagem industrial, segundo nos informaram os antigos gerentes da unidade, levaram à construção de um muro que contornasse toda a unidade fabril. Do antigo “quadro”, restam apenas uma ou duas casas, utilizadas atualmente como suporte à produção. Nesta mesma época, 1895, é também inaugurada a estação ferroviária da Estrada de Ferro Central do Brasil, que aqui foi denominada Dr. Pedro Leopoldo, em homenagem ao engenheiro responsável pela construção deste trecho e que havia falecido no ano anterior à sua inauguração. Na escritura em que a fábrica de tecidos doa o terreno para a construção da estação pode-se ler a sua primeira denominação: “Parada da Cachoeira” mas em virtude da morte precoce do engenheiro, ela passou a se chamar “Dr. Pedro Leopoldo”. Esta atitude acabou também determinando o nome do lugar, até então conhecido como Cachoeira Grande ou Cachoeira das Três Moças, pois a estação tornou-se referência do local em função do embarque e desembarque. A estrada de ferro, construída no outro lado do ribeirão da Mata, em oposição à localização da fazenda, vem contribuir para o desenvolvimento da região, favorecendo a comunicação do arraial com outras localidades, facilitando o transporte de matéria prima, do produto industrializado e da produção agrícola. O que a princípio era apenas uma “Parada”, tornou-se uma estação bastante movimentada, tendo suas instalações ampliadas, moradias construídas, próximas àquelas adquiridas, pela Rede Ferroviária, como é o caso do “chalé” que abrigou a administração, o “palacete” que foi moradia ao engenheiro responsável pela estação Dr. Pedro Leopoldo.

Em 1901, a maior parte da população de Pedro Leopoldo eram trabalhadores da fábrica de tecido e da estrada de ferro. Ainda neste ano, os chefes políticos locais, entre os quais Romero de Carvalho, Ottoni Alves Ferreira, Amando Belisário Filho e José Belisário Viana, conseguiram a elevação de Pedro Leopoldo a distrito de Santa Luzia, pois até então, a região freguesia de Matozinhos, e distrito de Santa Luzia. A partir de então, estes mesmos políticos irão buscar a emancipação definitiva de Pedro Leopoldo, mesmo que às custas do próprio erário. Em 1918 é instalada em Pedro Leopoldo a “Fazenda Modelo”, como parte de uma iniciativa federal de fomento à agro-pecuária e que tornou Pedro Leopoldo referência nacional de gestão e produção agro-pecuária. Construída nos moldes da arquitetura inglesa, grande parte de suas instalações ainda resistem ao tempo e as lendas que foram formando-se em torno delas. Um ilustre cidadão de Pedro Leopoldo foi, durante muito tempo, funcionário desta fazenda : Chico Xavier. A Lei estadual nº 843, de 1923, eleva Pedro Leopoldo a categoria de Município, sendo este instalado em 27 de janeiro de 1924, para no ano seguinte, 1925, ter sua sede elevada a categoria de cidade. Neste período, o agente administrativo, ou prefeito municipal, era o próprio presidente da Câmara Municipal, no caso de Pedro Leopoldo, o primeiro presidente da Câmara Municipal e portanto o primeiro prefeito de Pedro Leopoldo foi, justamente, Romero de Carvalho, um dos principais articuladores da emancipação política do município, e que governou de 1924 até 1927.

Breve História de Pedro Leopoldo

Foram construídos de imediato a casa do agente (única das 4 casas que foi demolida em 2000) e posteriormente outra casa, maior, que serviu também de residência do agente e nos últimos anos serviu de alojamento aos funcionários da Rede Ferroviária no município. Ao longo da ferrovia, muitas foram as casas funcionais construídas, sendo que a grande maioria já foi destruída. As instalações onde funcionavam o apoio e a manutenção persistem - só não sabe-se por quanto tempo. Fazem parte desta estrutura um galpão de almoxarifado, uma carpintaria, uma ferraria e um depósito (mais afastado, seguindo o trilho, não incluída na proposta de tombamento, mas deveria). Atualmente a estação e suas dependências estão desativadas, sendo que em parte das dependências do prédio da estação funciona a biblioteca municipal e seu pátio serve de local de eventos culturais.

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Geraldo Le達o dos Santos

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O Arquivo por

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O Arquivo por Geraldo Le達o

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O Arquivo por

Geraldo eão L Depoimento

Geraldo Leão dos Santos

Nascido em Belo Horizonte no dia 25 de julho de 1936, casado, 5 filhos e 8 netos. Trabalhou na Fábrica de Cimento Cauê durante 35 anos. Autodidata na área memorialista, criou o Arquivo Geraldo Leão há 35 anos, no dia 6 de julho de 1975, e o Arquivo Público Municipal, no dia 27 de janeiro de 2000.

“E temos esse Arquivo aqui, esse Arquivo Público, que é uma parceria com a Prefeitura que funciona aqui desde 2000 e atendemos aqui estudantes, atendemos aqui professores, atendemos aqui curiosos para saber a história da cidade.”

O Arquivo por Geraldo Leão

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Sr. Geraldo Leão dos Santos em uma das salas do Arquivo Público Municipal.

Geraldo Leão dos Santos

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“O

arquivo começou em 1975, precisamente no dia 6 de julho. Começou de uma forma, assim, muito carinhosa com o depoimento importante de uma pessoa daqui de Pedro Leopoldo chamada José Alves, que tinha o apelido de José Godê. Ele era um andarilho que cultivava uma horta na localidade de Barreiro, aqui perto de Pedro Leopoldo e que vinha aqui pra cidade pra negociar, vender seu produto. Em um domingo, ele passando na porta da minha casa, eu estava reunido com uns amigos, e nós chamamos ele lá dentro, demos para ele um refrigerante e começamos a conversar com ele a respeito do que ele achava. Então, ele gravou, ele falou coisas assim, um pouco sem nexo, assim, sem sentido, mas com uma profundidade uma coisa impressionante. Ele falou sobre política, sobre carnaval e outras coisas mais. Sobre o Partido Trabalhista, naquele tempo era PTB, não era PT igual hoje. E eu achei aquilo interessante, esse depoimento dele, inclusive ele está preservado até hoje, está até em CD, remasterizado para CD, porque é precioso demais. Daí começou. Eu tomei gosto pela coisa e começou. E fui começando a fazer depoimentos de fulano, beltrano, de advogados, médicos, funcionários da Fábrica de Tecidos, funcionários da Cauê, gente comum aí na rua. Hoje, por exemplo, a gente está aí com um acervo de aproximadamente umas 800 fitas cassete gravadas. E grava muita festa também, muita solenidade, muita apresentação da banda, por exemplo.

O Arquivo por Geraldo Leão

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Local em que funciona o Arquivo Público Municipal Geraldo Leão, localizado na Rua Nossa Senhora da Saúde, 71. A casa faz parte do que restou do “Quadro”, que era o conjunto das casas dos funcionários da Fábrica de Tecidos. Atualmente, todas essas casas estão em processo de tombamento.

Geraldo Le達o dos Santos

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Parte interna do Arquivo Público Municipal Geraldo Leão.

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E depois, passei a colecionar também fotografias, comecei com fotografias. Inclusive, umas das fotografias mais preciosas que a gente tem é da inauguração da Fábrica de Tecidos, em 1896. Essa fotografia me foi presenteada, para eu fazer uma cópia, pelo Dr. Elysio Alves e ele descreveu todas as pessoas que estão na foto. Todas as pessoas foram reconhecidas pelo Dr. Elysio e falando lá sobre o evento, porque ele era neto do fundador, falando sobre o evento, como que foi, sobre as pessoas que vieram, os fazendeiros etc. e tal, pra dar apoio para o Antônio Alves Ferreira da Silva e conta uma historinha com o conteúdo bem profundo da inauguração da Fábrica. Então, é uma fotografia que a gente preserva com muito carinho, porque ela é muito histórica, essa foto. E fomos colecionando mais fotos. Mais fotos de quê? De tudo, afinal. Futebol, Carnaval, boi da manta, jockey club, tudo que ia aparecendo que teve na cidade que a gente conseguia pegar, pra gente ter na coleção, a gente ia pegando e fazendo cópia. Algumas são doadas, diretamente os próprios originais, outros são emprestados pra cópia. E com essa brincadeira, nesses 35 anos, a gente já conseguiu a marca de 11 mil fotos, aproximadamente. 11 mil fotos que a gente já tem de todo segmento da cidade e que, porventura, tenha acontecido na cidade.

Enchente do Ribeirão da Mata, em 1947.

O Arquivo por Geraldo Le達o

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Vista parcial de Pedro Leopoldo, em 1947.

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“E com essa brincadeira, nesses 35 anos, a gente já conseguiu a marca de 11 mil fotos, aproximadamente. 11 mil fotos que a gente já tem de todo segmento da cidade e que, porventura, tenha acontecido na cidade.”

O Arquivo por Geraldo Leão

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À esquerda, antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em 1927. Ao centro, a contrução da nova Igreja Matriz na década de 40. À direita, a atual Igreja Matriz, que foi ampliada a partir da antiga, em 1952. À frente da foto, a frota da Empresa de Transportes Dodô, que foi uma das primeiras empresas do segmento na cidade.

Geraldo Leão dos Santos

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Política, futebol, teatro, cinema, exposições agropecuárias, eventos, desfile de 7 de Setembro, edifícios públicos, edifícios privados, comércio, religião, educação, tudo separado para facilitar a busca. Depois a gente passou também, depois do áudio, da fita cassete, a gente passou para o VHS, passou a filmar também alguns eventos. Nós temos muito eventos filmados importantíssimos que remontam à história da cidade. Eram filmados em VHS e já estão sendo transferidos pra nova tecnologia, que é o DVD, para não perder a história. E os objetos que a gente tem conseguido são muita coisa. É muita coisa que a gente tem conseguido. Por exemplo, a gente tem uma coleção de máquinas fotográficas que algumas são testemunhas dos registros que tem aqui da cidade, das fotografias que tem aqui da cidade, foram doadas para o Arquivo. Com essas máquinas, tiraram fotos de Pedro Leopoldo nos anos 30, nos anos 40, imagina que preciosidade.

Aniversário do time do Industrial nos anos 60.

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Desfile de 7 de setembro na rua Comendador Ant么nio Alves, em 1954.

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Aquela lente que está ali naquela máquina viu a cidade daquele jeito. Bom, e também temos coleções de máquinas de escrever, hoje já é uma peça de museu mesmo, alguns objetos assim, peças de projeto de correios, carimbos, aqueles lacradores de mala postal, peças sacras também a gente conseguiu com o próprio padre da igreja, que já estavam descartadas da igreja, doou para o arquivo. Por exemplo, algumas campainhas, temos sacras que eram usadas nas missas em latim ainda, tudo em latim. Isso tudo está guardado em um depósito, porque nós não temos condições de expor isso, não temos espaço físico para expor, porque, a princípio, a gente tinha a ideia de fazer um museu, construir um museu histórico de Pedro Leopoldo. Infelizmente, por questões financeiras, eu não tenho condição de fazer isso. Não tive e nem tenho até hoje condições de fazer isso. O poder público também não dá a mínima importância para isso, porque, infelizmente... não estou falando do atual prefeito, falando de vários prefeitos, porque, infelizmente, não dá voto. Investir em cultura não dá voto. Então eles não investem em cultura, porque o objetivo deles é o voto pra poder conquistar o poder, não é isso? E por aí, a gente vai levando. Sobre o Chico Xavier, por exemplo, eu tenho uma coleção assim, uma seção praticamente especial sobre o Chico. Esse aí, nós temos um apoio muito importante aqui da cidade que se chama Unimed, uma empresa de saúde conhecida, que dá esse apoio e lá nós temos montado um memorial do Chico Xavier lá na sede da Unimed. Tenho peças únicas no mundo expostas lá. Não tem outra no mundo, a não ser as que estão expostas lá na Unimed. Trabalhos manuais do próprio Chico Xavier, óculos usados por ele, canetas usadas por ele, máquina de escrever que ele trabalhou na Fazenda Modelo... Na página ao lado, o Memorial de Chico Xavier, que fica na sede da Unimed em Pedro Leopoldo. Acima, Chico Xavier, em 1956.

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O que mais que nós temos lá? Discos que eram da discoteca dele que foram doados para o arquivo, tem um livro também de colagens, vamos dizer assim, que ele ia recortando de revistas e colando no livro, poesias, gravuras. Isso nos anos 30. Isso está exposto lá também. Tudo feito pelo próprio Chico, além de jornais, revistas, muita fotografia, muita fita cassete, muito vídeo, e agora, muito DVD. A gente tem muita coisa do Chico, muita coisa. Pode-se dizer que é um arquivo à parte. O arquivo do Chico Xavier é um arquivo à parte. Pela importância do Chico na cidade de Pedro Leopoldo, por ter nascido aqui, pela importância dele no mundo, vamos dizer assim, pois é conhecido no mundo inteiro. No memorial, nós temos lá livros editados em inglês, em japonês, em esperanto. Tá tudo lá exposto na Unimed, quem quiser ver, está lá. E temos esse Arquivo aqui, esse Arquivo Público, que é uma parceria com a Prefeitura que funciona aqui desde 2000 e atendemos aqui estudantes, atendemos aqui professores, atendemos aqui curiosos para saber a história da cidade. Já recebemos aqui visitas ilustríssimas, aqui neste pedacinho de espaço. Já recebemos aqui gente famosa do mundo espírita no Brasil, como, por exemplo, a Dra. Marlene Nobre, como o Leopoldo Zanardi, Oceano Vieira De Melo, Marival, Arnaldo Rocha. E tivemos a felicidade de receber aqui, a bisneta do O engenheiro Dr. Pedro Leopoldo da Silveira, que morreu em Sabará/MG em 9 de agosto de 1894.

Dr. Pedro Leopoldo da Silveira. Ela ficou sabendo que tinha esse arquivo aqui na cidade de Pedro Leopoldo, nome do bisavô dela, e fez questão de vir conhecer. Ela veio de Natal, ela é professora lá na Universidade de Natal. Não veio exclusivamente pra isso, veio a Belo Horizonte, mas fez questão de vir aqui em Pedro Leopoldo para conhecer esse acervo da cidade onde tem o nome do bisavô dela. E a mais importante, que a gente ficou do tamanho de um grãozinho de areia, foi quando eu recebi aqui uma diretora do Museu de Artes e Ofícios de Paris, veio ela e o marido dela. Estava fazendo um trabalho em Belo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais, e alguém contou pra ela que em Pedro Leopoldo, a terra de Chico Xavier, tinha um Arquivo Público, e ela veio aqui pra conhecer o Arquivo Público. Quer dizer, ela ficou admirada de ver, claro, mas ela de Paris, diretora de um Museu de Artes e Ofícios, pra isso aqui, a gente ficou muito pequenininho. Mas recebi a visita, foi registrado e tudo, fotograficamente. E a história é essa aí. Nós estamos aí com um pequeno apoio da Prefeitura, e eu diria pequeno, porque poderia ser mais. Temos funcionários aí da Prefeitura que auxiliam a gente aí. E a história é essa. E vamos levando até quando Deus quiser. É mais ou menos isso aí a minha história. Não sei se eu esqueci alguma coisa, mas é por aí.”

“E tivemos a felicidade de receber aqui, a bisneta do Dr. Pedro Leopoldo da Silveira. Ela ficou sabendo que tinha esse arquivo aqui na cidade de Pedro Leopoldo, nome do bisavô dela, e fez questão de vir conhecer.”

O Arquivo por Geraldo Leão

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Fazenda

Cachoeira Grande

O inĂ­cio de tudo

Elza Alves Costa

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Fazenda

Cachoeira Grande

O início de tudo Depoimento

Elza Alves Costa

A Sra. Elza Alves Costa tem 90 anos e reside na Fazenda Cachoeirinha, no distrito de Inácia de Carvalho. É filha do Sr. Otone Alves Ferreira da Silva, uma grande personalidade de Pedro Leopoldo que fez muitas benfeitorias à cidade e um dos ativistas para que o lugarejo se tornasse distrito e, posteriormente, município.

“Algumas coisas eu posso não saber, porque eu nem era nascida, mas quando eu cresci e prestei atenção nas conversas dos mais velhos, eu peguei um pouquinho de coisa mais antiga também.”

Fazenda Cachoeira Grande -

O inĂ­cio de tudo

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A Sra. Elza Alves Costa em uma das salas de sua casa. Ao fundo, uma pintura feita por ela mesma da casa de seus pais, que fica na Praça Dr. Senra, hoje com uma nova fachada.

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lgumas coisas eu posso não saber, porque eu nem era nascida, mas quando eu cresci e prestei atenção nas conversas dos mais velhos, eu peguei um pouquinho de coisa mais antiga também. Eu sei que meu avô (Antônio Alves Ferreira da Silva) era de Pará de Minas, da Fazenda de Pau Grande. Dr. Fernando de Mello Viana, você já ouviu falar dele? Foi Presidente do Estado. Ele foi guia de boi da fazenda do meu avô. Mas ele era muito inteligente, e quando passou um português lá a cavalo, e falou assim: ‘Mas esse negrinho aí não é de se jogar fora não. Pelo que o senhor conta, ele é muito inteligente.’ E pôs ele para estudar advocacia. E depois, um dia, ele foi a Presidência do Estado (que hoje seria equivalente a governador). Foi igual ao Lula. A mulher do meu avô era da família dos Moreira lá de Pará de Minas. Deve ser gente das fazendas dele. Porque o Chico Moreira, por exemplo, primo de papai, era um fazendeiro muito rico, mas era solteirão. Padrinho do meu irmão mais velho. E meu avô casou com ela, chamava-se Francisca (de Paula Moreira da Silva) e tinha o apelido de Dona Chiquinha Gorda, porque ela era tão gorda que não podia andar no trem, não, porque não cabia na porta do trem. Naquele tempo, o trem era estreitinho.

Sr. Antônio Alves Ferreira da Silva, criador da Fábrica de Tecidos Cachoeira Grande.

Fazenda Cachoeira Grande -

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A sede da Fazenda Cachoeira Grande, também conhecida como Fazenda das 3 Moças.

Elza Alves Costa

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Há muitos anos, tinha 3 fazendeiras, não sei se eram viúvas ou solteironas, mas eles as chamavam de ‘As Moças’, ‘As Moças da Cachoeira’ e, então, chamavam a cachoeira de ‘das Moças’. Meu avô tinha muitas fazendas espalhadas por Pará de Minas, Sete Lagoas, Inhaúma, que deixou pros filhos dele e hoje estão nas mãos dos netos, bisnetos. Então, meu avô passando lá na Fazenda Cachoeira Grande a cavalo, falou: ‘Ô, gente! Uma cachoeira tão boa, tão grande...’. Naquele tempo, a aguada era muita, com uma água limpa, boa, sem poluição. E falou: ‘Olha, boa de montar uma fábrica de tecido aqui.

Vista de Pedro Leopoldo nos anos 20, mostrando a trilha do trem praticamente nos quintais das casas e, ao fundo, a mata que rodeava a cidade.

Fazenda Cachoeira Grande -

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Inauguração da Fábrica de Tecidos Cachoeira Grande, em 13 de março de 1896.

Elza Alves Costa

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Sr. Otone e sua esposa, Sra. Elisa.

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O início de tudo

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Eu ando com essa ideia...’. Aí, ele arranjou um amigo dele lá de Sabará, que tinha prática pra montagem de indústrias de cozer, eu não sei o nome dele, mas eles montaram, fizeram e construíram o prédio da fábrica pra começar a funcionar. Lá não tinha nada! Era uma mata... minha irmã mais velha falou comigo que quando ela era mocinha, que tinha uma mata ao redor da cidade fechada e com esse negócio de botar fogo na caldeira lá da fábrica gastava muita lenha e o fogo também. Até que ao redor da cidade não tem mais mata nenhuma. Então, com isso, meu pai mesmo (Otone Alves Ferreira da Silva), ele trouxe da fazenda, que morava lá com a sogra dele, e trouxe ele sem ter serviço nenhum cá pra ele, mas trouxe. Trouxe e construiu um armazém cá para o meu pai ter um modo de ganhar dinheiro. Foi quando papai começou o negócio. E os terrenos que papai ocupou lá também foi meu avô que deu. Comprou uma casa que já tinha lá e reformou, e ele morreu lá, eu nasci lá. Ele montou o armazém, naquele tempo não usava falar mercearia, pra fornecer para o povo que viesse trabalhar na fábrica e construiu muitas casas também lá do lado onde era a fábrica, pertinho lá de onde eu morava. É só atravessar a ponte e chegar, porque a cachoeira era no quintal lá de casa. Já era terra que meu avô comprou, com a cachoeira. Meu pai comprou também o terreno do outro lado da Sr. Otone Alves Ferreira da Silva.

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cachoeira, eu sei que ele fez uma troca com a Companhia da Fábrica, que por chamar Companhia Industrial, ele fez uma troca de um terreno que ele tinha para o lado que ia pra Matozinhos, que era o terreno que tinha essa cachoeira, e trocou por um terreno sem água, mas com uma quantidade maior de tamanho. Mas nós utilizávamos tanto daquela água, que meu pai tirou um córrego dele para poder tocar turbina e montou uma fábrica de várias coisas lá no quintal. Essa água que ele puxou está lá caindo até hoje. Ela passa no quintal da casa do meu filho. O armazém agora é um prédio de 3 andares, porque alguém comprou e aumentou em cima. E quando o meu avô fez, ele com as paredes prontas, ele falava: isso é pra aumentar ainda em cima com o tempo. Mas meu avô morreu, depois meu pai também morreu e aquilo foi passando... ficou como armazém deles, papai com o sócio, que era meu tio. Mas foi pra ganhar a vida que ele arrumou esse armazém. Tem lá nos bancos, eles põem fotos antigas, tinha uma do armazém com letras grandes assim escrito: Alves-Bahia & Cia., que era papai, Alves; Bahia, do meu tio.

“O armazém agora é um prédio de 3 andares, porque alguém comprou e aumentou em cima. E quando o meu avô fez, ele com as paredes prontas, ele falava: isso é pra aumentar ainda em cima com o tempo.”

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Foto de 1923, mostrando o armazém Alves Carvalho & Cia., o espaço onde foi contruída a Praça Dr. Senra à esquerda e a Rua Ferreira Mello, onde hoje é a Rua Comendador Antônio Alves.

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O prédio do Cine Teatro Otone à esquerda. Em frente, pessoas trabalhando para tapar os buracos alagados na rua principal (rua Comendador Antônio Alves). Na foto seguinte, a troupe de teatro Fon Fon em frente ao Cine Teatro Otone.

O início de tudo

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Mas aí a cidade era muito monótona, papai já estava com os filhos crescidos, não tinha onde distrair, inventou e construiu um cinema. Fez um prédio muito bonito de 2 andares. E um cinema como esse num arraial à toa, tinha só umas 3 ruas na época. E as ruas eram um brejo só. Por toda a cidade, havia muitos brejos e aterrá-los foi umas das coisas que papai fez. E para chegar no Cine Otone mesmo, papai e mamãe aproveitavam as trilhas do bonde e as pedras para não atolar os pés. Depois construiu um ringue de patinação em frente lá de casa, onde é a Caixa Econômica, e o terreno era todo de papai. Acho que até na igreja. Ele era pegando da Rua Principal, no quarteirão, indo até a Igreja. Então, a Caixa Econômica foi depois construída nesse lugar do ringue de patinação. Aí papai não ficou satisfeito: instalou uma fábrica de laticínios pra pasteurizar o leite daqueles fazendeiros todos da região inteira. E Belo Horizonte achou que a região era boa de colher o leite pra lá. Então, papai manufaturava esse leite. Fazia manteiga, congelava tudo em uma espécie de picolé desse tamanho e ia aquela barrona de gelo, várias, de caminhonete todo dia, entregar lá na CCPL, que era a cooperativa. E dentre esse desenvolvimento comercial na cidade, ele começou a produzir fubá mimoso, era manteiga, vendia muito leite também, tinha fábrica de farinha de mandioca, tinha muita coisa.

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Dr. Cristiano Otone Gonçalves Ferreira, nos anos 20. Na foto ao lado, vista de Pedro Leopoldo nos anos 40. À frente da foto, os fundos do Hospital São João Batista.

O início de tudo

Porque o hospital, meu pai que deu o terreno pra construir, porque meu irmão mais velho (Dr. Cristiano Otone Gonçalves Ferreira) e meu cunhado (Dr. José de Azevedo Carvalho) foram os primeiros médicos da cidade. Então, eles tiveram que estudar no Rio de Janeiro, porque não tinha ainda colégio de medicina em Belo Horizonte. Então, meu pai ajudou dando o terreno pra construir o hospital, como construiu. Agora eles reformaram e aumentaram com o pedaço que papai deixou. Porque papai vendeu esse terreno muitos anos depois, mas largou um pedaço grande pra aumentar o hospital, como eles aumentaram agora. Papai deu um pedaço pra fazer o cemitério, também deixou um pedaço grande pra aumentar, como eles já aumentaram.

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Porque tinha o terreno onde plantava mandioca, que meu avô deu pra ele. É um terreno que tem ali do hospital até lá no início.

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Mas papai tinha uma coisa: como ele estudou para padre, ele dava aula de latim para o juiz municipal e outras pessoas mais que queriam. Então, ele advogava lá sem ser advogado, porque ele conhecia as leis todas, tinha um livrão assim, que quando a pessoa não acreditava que ele estava dizendo a razão daquela pessoa, falava: ‘Olha, eu não estou mentindo para vocês, lê aqui pra você ver’ e assim dizer que ele estava mesmo certo. Ele foi o primeiro advogado do lugar, mas era rabo, porque ele não fez o curso. Mas todo mundo considerava ele o mais sábio da cidade na época, porque aquela maioria dos que compraram os terrenos dele eram fazendeiros que, naquele tempo, ninguém estudava. E ele tinha estudado no Caraça. Ele quase que chegou a ser padre, mas ele era assim meio estourado e meu avô achou melhor ele não terminar para padre, não. Que era melhor ele casar. Nisso que tinha uma moça muito firme na Fazenda da Cachoeira, mas outra cachoeira. Lá de Pitangui, perto de Papagaio, Maravilhas. Tinha a moça que dirigia a fazenda para o pai, que morreu. Então, ela que dirigia a fazenda com os escravos. Então, meu avô levou papai, tirou do Caraça, e levou ele lá. Naquele tempo não usava namorar, chegava e combinava. Aí, casou com mamãe (Elisa Gonçalves Bahia da Silva), que soube que ela era muito decidida e meu avô falou: ‘E ele também é muito estourado e eu quero que a senhora eduque ele...’.

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A Sra. Elisa Gonçalves Bahia da Silva, à esquerda, ainda solteira, com seus pais e irmãos. Na foto ao lado, a construção da Praça Dr. Senra, em 1937. Ao lado direito da foto, a casa do Sr. Otone Alves, ainda com a fachada antiga.

Elza Alves Costa

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Na primeira fila, da esquerda para a direita: Antônio (Tonico), Otone Filho (Nini), Francisca (Chiquita), Otone, Elza, Elisa, Luci, Cristiano, Juvenal. Na segunda fila, da esquerda para a direita: Geraldo, Elysio, Romero, Elisa (Zazá), João.

Elza Alves Costa

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Aí foi e deu certo! E papai foi sempre um grande homem em Pedro Leopoldo, modéstia à parte! Eu sei, porque toda figura de política, tudo, até de padre, como Padre Eustáquio, quando fazia milagres aqui, ficava hospedado com papai. O Bispo, quando ia dar aquelas bênçãos todo ano, hospedava na casa de mamãe. Naquela casa velha. Papai, muitos anos depois, transformou ela numa casa nova, igualzinha, mas moderna na frente. Mas naquela casa tem 19 cômodos e, emendada lá, ainda tinha uma portinha e tinha um espaço maior, que era um armazém mais vagabundozinho que papai tinha, aí que meu avô fez esse melhor, das paredes grossas. Mamãe teve 12 filhos, mas criou 13, porque papai pegou um filho natural dele, um menino. As mulheres daquela época eram muito boas. Pegou, criou e falou que era o melhor filho que ela tinha, que era o mais obediente, o que era amigo dela, educado. Ele era mulato, porque a mãe dele era uma escrava. Então, deu um homão forte, gordo. Depois de grande, ele foi convidado pra ser guarda da penitenciária. Mas nesse meio tempo, ele foi, só que deu diabetes e ele morreu com 29 anos de idade. Era o filho que ela criou, que era de papai de quando ele ainda era solteiro. A família nossa é imensa. Papai tinha mais de 200 sobrinhos lá em Sete lagoas. Isso há muito tempo. Agora tem neto, bisneto, tataraneto, tudo desses sobrinhos. Papai tem muito parente em Sete Lagoas, porque os irmãos dele eram donos das fazendas ao redor. Fazenda do Pacu, hoje é hotel-fazenda e hoje está com os netos, bisnetos tomando conta. Tinha a Fazenda de Macacos, que é lá em Cachoeira da Prata. Uma fazenda de 3 andares. Também foi do meu avô. E outras fazendas lá, Rio Vermelho, Fazenda da Cachoeira, tudo era dos parentes de papai. Fazenda da Central, Fazenda do Pernambuco. Uma família gigantesca. Lá no fundo do quintal, eu te falei que ele trouxe um rego d’água enorme pra encher uma caixa, um pouco menor que essa sala, pra aquela água dessa caixa sair em tubulações

Lá na Fábrica, era interessante que eles fizeram, com muito bom gosto, as casinhas todas assim, ó, e fez uma praça grande quadrada toda gramada. Então, a diversão era de tarde, o pessoal saía em bando pra ir lá deitar na grama. Outras ficavam fazendo tricô sentadas no bonde, porque o bonde não funcionava de noite, de tardinha não funcionava mais. Só quando era hora do trem de ferro vir que o bonde funcionava, que tinha trem na estação. Então a distração era ir pra lá. As moças iam pra jogar peteca lá na grama. Era tão bom! Aí venderam a fábrica pra essa outra Companhia, que inventaram de aumentar a Fábrica pra frente. Por que não começaram pra trás? E acabaram com a praça. A praça, uma gracinha que tinha lá! Quase todo mundo que morava ali, eu sei o nome. De vez em quando, eu esqueço um nome, mas depois eu lembro. E eu falo que todas as pessoas que já morreram no tempo que eu vivo, pra mim elas não morreram. Eu lembro delas com a mesma cara que elas tinham, só não sei a cor do vestido. Todas que já morreram, eu lembro delas perfeitamente. Na Fábrica, eu conhecia muita gente, eu tinha muito parente lá. Papai trouxe um povaréu de Pará de Minas e lá das fazendas, que tudo chegou aqui em Pedro Leopoldo e todos ficaram firmes e fortes. Ô, terra boa! Pedro Leopoldo é uma cidade que me deixou saudade e eu não mudei pra lá ainda, só porque eu não quero deixar o meu gato. Gato não sabe mudar de lugar.”

Na foto ao lado, vista parcial do “Quadro” da Fábrica de Tecidos, com algumas casas em construção. Ao fundo, à direita, o antigo Clube Industrial.

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dessa grossura pra tocar uma turbina lá embaixo, porque ali é morrado atrás da casa. O trem de ferro passava lá em cima do quintal. Então, essa caixa d’água fornecia água para minhas irmãs todas nas casas que elas moravam, que era de graça, porque da Prefeitura tinha que pagar. Então, distribuía para todos os parentes ali de perto. Meus irmãos eram muito mecânicos, gostavam de inventar coisas. Lá fornecia também lenha picada, desse tamanhozinho, que eles vendiam por metro cúbico. Aí meus irmãos arranjaram uns trilhos da estrada de ferro, amolaram eles pra virar machado na ponta e organizaram num quartinho que tinha lá, ligando os machados na turbina, e quando a ligavam, as toras eram rachadas em cruz e jogadas pra lá. Depois pegavam e iam empilhando. E quando eu era menina, ia lá e ligava tudo. Papai vinha e quase que batia na gente: ‘Vocês morrem aí, Cristo!’. Papai perdeu 2 dedos lá, porque o machado pegou a mão dele. Tinha também um gradeado enorme todo com peneirinhas pra fazer fubá mimoso, que não existia naquele tempo. Mas eles eram dinâmicos pra fazer tudo. Pra ajudar e acho que eles também trabalhavam de mecânicos. Com o tempo, a leiteria passou pro meu cunhado. Papai ficou velho, não mexeu mais.

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Depoimento

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O Sr. Elysio Alves Gonçalves Ferreira foi um grande médico clínico-geral da cidade e também foi escritor de artigos do antigo jornal, o Oficina Humana, onde relatava fatos da origem da cidade, conseguidos através de pesquisas em cartórios de Pedro Leopoldo e das cidades vizinhas e consultas de diversas fontes. Esses artigos foram reunidos em um livro, A verdadeira história da origem de Pedro Leopoldo. Este depoimento faz parte do acervo do Arquivo Geraldo Leão e foi gravado em 17 de março de 1998.

“O princípio deste nada que era a Fazenda da Cachoeira e desse lugar que era um arraial, e que é hoje a cidade e que cresce relativamente em prorrogação às outras, num avanço rapidíssimo, vem de eras remotas.”

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Sr. Elysio Alves Gonรงalves Ferreira, nos anos 40.

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ntônio Alves Ferreira da Silva fez várias viagens ao Rio de Janeiro. Numa delas, em que ele voltava, a estrada de ferro já estava em Sabará, e de Sabará, então, ele pegava animais que seu arrieiro Joaquim Tomé, um velho escravo da fazenda que o aguardava, ele partia então para a Cachoeira de Macacos. E seu itinerário era Sabará e passava pela localidade de Neves, Ribeirão das Neves. Mas, perto de Neves, havia a Fazenda do Quilombo, pertencente a Teodoro Barbosa da Silva, um homem português que veio morar aqui no Brasil e casou-se com Dona Maria Diniz de Santa Quitéria. E no primeiro casamento teve 3 filhos. Vários deles foram para São Paulo e lá formaram uma grande família, que até hoje são industriais e políticos em São Paulo. Morrendo a primeira mulher de Teodoro Barbosa, ele casou-se, naquela época, com a irmã de Antônio Alves Ferreira da Silva, Angélica que ela se chamava. E foi numa dessas voltas do Rio de Janeiro que ele veio fazer uma visita à Fazenda do Quilombo à irmã, que era casada com o dono da Fazenda. E lá ele permaneceu 3 dias, em descanso. Após 3 dias, ele encaminhou-se, então, para Cachoeira de Macacos. E o caminho que ele seguia era exatamente da Fazenda do Quilombo, Fazenda do Bananal, Fazenda do Casado, Vera Cruz (a antiga Pindaíba), passava aqui na Fazenda do Peão, na região do Peão, perto de Pimentel e seguia para Palmital e Buritis, Fortuna, até alcançar Inhaúma O casarão da Fábrica de Tecidos, que era a antiga sede da Fazenda Cachoeira Grande, que passou por algumas modificações, mas permanece até hoje com boa parte da estrutura original conservada.

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e Cachoeira de Macacos. Mas, nessa passagem que ele fez aqui nas alturas do Peão, aqui perto de Pedro Leopoldo, atrás da Vila Magalhães, uma chuva fina o alcançou na viagem e ele ficou molhado, resfriado. Então mandou que seu ajudante, o seu arrieiro, procurasse uma fazenda perto onde ele pudesse se hospedar e depois seguir viagem. Encontraram um pretinho, mais ou menos de 9 a 12 anos, e perguntaram a ele onde poderia encontrar essa fazenda onde pudesse pernoitar. Então, o pretinho, muito conhecedor da região, disse que se ele seguisse o espigão e seguisse o Pimentel, deixando de lado uma várzea muito grande e do outro lado, uma várzea formada de verdadeiro mangal, um verdadeiro brejo, ele encontraria um barulho de uma cachoeira. E seguindo o espigão e orientado pelo barulho da cachoeira, do outro lado da cachoeira ele iria encontrar um velho sobrado, a Fazenda da Cachoeira Grande. E ali eles podiam então se hospedar, pernoitar e secar as suas vestes. E foi assim que Antônio Alves Ferreira da Silva encontrou a Fazenda da Cachoeira Grande. Lá nessa época, moravam as 3 moças, cujos nomes vou acabar de citar: É a fazenda da Cachoeira Grande, onde moravam, naquela época em que meu avô ali se hospedou, as 3 moças e tenho aqui um pouco da história dessa fazenda. O princípio deste nada que era a Fazenda da Cachoeira e desse lugar que era um arraial, e que é hoje a cidade e que cresce relativamente em prorrogação às outras, num avanço rapidíssimo, vem de eras remotas. Os documentos encontrados são do ano de 1873. Procurando em arquivos e cartórios, encontramos os seus primitivos donos que residiam em Lagoa Santa, cujos nomes são os seguintes: Francisco Fidélis da Silva e sua esposa Justina Moreira da Silva. Deste casal nasceram Ana Moreira da Silva, Justina Moreira da Silva e Venância Moreira da Silva e um irmão, que era padre, com o nome de Gonçalo Moreira da Silva. No sobrado, só moravam as 3 moças, de favor, porque a

Outro ângulo do casarão da Fábrica de Tecidos.

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fazenda que se chamava Cachoeira Grande vem de longe. Logo que se acabou o ciclo do ouro, os donos de garimpo começaram a se agrupar em fazendas, e um deles que aqui se estabeleceu, tendo edificado este grande sobrado num lugar alto dessa localidade. O sobrado era tão grande que, em certo tempo, moravam nele quase todos os empregados da futura Fábrica de Tecidos. Perguntam os leitores em que se basearam os historiadores para se escrever. É que foi encontrado em um dos esteios da varada, onde hoje mora o Sr. Antônio Urbano Machado, uma data. Essa data é de 1735, a construção do sobrado, o começo da construção. Data esta que coincide exatamente com o término do ciclo do ouro. Esta fazenda é parte da herança hipotecada por Francisco de Paula Moreira a terceiros, cujos nomes são (esses homens ganharam a fazenda num jogo de pôquer): Antônio Pinto Mascarenhas, Júlio César Teixeira Guimarães, João Martins Maia, Capitão Antônio Diniz Mascarenhas e Manoel Martins Porto. De maneira que, quando o meu avô pernoitou, se descansou nessa fazenda, quando ele teve que partir, ele perguntou àquelas moças se a fazenda estava à venda e as moças disseram que possivelmente estava à venda, porque ela estava hipotecada a esses senhores cujos nomes acabei de relatar. Então, o meu avô voltou à Fazenda do Macaco. Não demorou muito tempo, poucos dias, voltou até Lagoa Santa e encontrou com um dos ganhadores da fazenda de nome Manoel Martins Porto e perguntou a ele se queria vender a fazenda. ‘Perfeitamente. Ganhamos a fazenda num jogo, ela está hipotecada e nós queremos vender a fazenda’. Ele perguntou quanto era o preço da fazenda, então, Manoel Martins Porto disse ‘o preço é 50 contos de réis’. O meu avô então fechou o negócio com Manoel Martins Porto, mas ele incumbido de pagar a hipoteca aos outros companheiros que tinham ganho a fazenda no jogo.

O açude que foi construído pela Fábrica de Tecidos, acima da Cachoeira Grande (Cachoeira das 3 Moças).

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A Fábrica de Tecidos da Cachoeira Grande, mostrando o prédio principal da fábrica com as casas dos funcionários ao redor, formando o que chamavam de “Quadro”. Ao fundo, o casarão que era a sede da Fazenda Cachoeira Grande.

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E, assim, é que ele adquiriu a fazenda dos ganhadores dela. Ganha a fazenda, ele procurou, então, os acionistas e gerentes da Fábrica de Tecido de Cachoeira de Macacos, se não queriam participar da construção de uma nova fábrica numa cachoeira em que calculava que a força era de 150 cavalos naquele tempo, pois o Ribeirão da Mata tinha muita água. Mas, de Cachoeira, apenas disseram que podiam comprar ações, mas não queriam participar da construção da Fábrica, que estavam satisfeitos com a Fábrica de Cachoeira de Macacos. E assim, então, meu avô se deslocou de lá com auxiliares para localizar o lugar onde ele queria construir a fábrica, logo a leste da cachoeira e para aqui, ele chamou vários trabalhadores, e inclusive, um técnico em construção para o prédio da Fábrica, cuja descendência existe até hoje em Pedro Leopoldo, chamava-se Salvino Lopes Siqueira. Tem aqui um bisneto dele com o mesmo nome, que mora aqui na rua São Paulo e era avô do João Siqueira, João de Bebela, que nós chamávamos.

Olaria de João Pinto de Matos, onde hoje fica o Parque de Exposições, em 1925.

A Companhia Fabril de Cachoeira Grande, a Fรกbrica de Tecidos, nos anos 20.

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Ação da Companhia Fabril da Cachoeira Grande

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Enchente do Ribeirão da Mata, em 1949. À frente, a Casa de Máquinas da Fábrica de Tecidos.

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Vista da Fábrica de Tecidos, mostrando as casas dos funcionários em volta da Fábrica e extendendo-se à rua São Paulo e à rua do Pasto, hoje, rua Nossa Senhora da Saúde.

“Assim, é que eu posso citar que trabalharam aqui nessa Fábrica, no início dela, os operários que se tornaram amigos da Fábrica e grandes membros também da sociedade pedroleopoldense.”

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E esse, então, administrou a construção do prédio da Fábrica, junto, naturalmente, com muitos auxiliares vindos de Santa Quitéria, mesmo lá de Cachoeira do Prata (Cachoeira de Macacos), vindo da Pindaíba, lá perto do caminho de São Vicente, vindos também da Fazenda Velha, aqui no Urubu, e, ainda, dos arredores da Fazenda do Quilombo e da Fazenda do Casado. Ele trouxe carpinteiros, pedreiros, carreiros, para carretar a madeira e o material da Fábrica. E até oleiros para fazer as telhas e para fazer os tijolos da nova Fábrica. Assim, é que eu posso citar que trabalharam aqui nessa Fábrica, no início dela, os operários que se tornaram amigos da Fábrica e grandes membros também da sociedade pedroleopoldense. Como, por exemplo, o José Hilário da Silva, grande carpinteiro, com o seu irmão Pedro, que perdeu uma mão numa máquina. Que tinha o filho Pedro também e que já era auxiliar também de máquinas na Fábrica. O José Horta, o Juca Horta e o Léo Horta, irmão dele, naquela época eram maquinistas da Fábrica. Veio para aqui, o João Leroy e sua família, e o irmão dele, o Chico Leroy. Todos moravam no Quadro, porque as casas dos operários formavam um quadro, em frente e ao lado da Fábrica. Além deles, tivemos também auxiliares menores como Libério Costa, que morou aqui na rua São Sebastião, e era casado com Benvinda. Ele era ex-escravo da Fazenda do Quilombo. Além do Libério, veio para aqui como carreiro, o Hilário Costa, que era o tal menino que deu a direção da fazenda velha da Cachoeira Grande ao meu avô, e carreou muitos anos, até enquanto eu tinha 12 anos, ele ainda carreava lenha para a caldeira da Fábrica. E era de Santa Quitéria, Nicolau Lopes com a sua mulher e a sua família. Veio também de Santa Quitéria, o Cândido Moreira, Seu Candú, que formou a banda de música.

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Sr. Joรฃo Leroy e sua esposa, Sra. Emereciana.

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A Banda da Fábrica, o Industrial Jaz, nos anos 50. Da esquerda para a direita: João Corujão, Eurico, José Vicente, Expedito Pires, José Xavier de Deus, Antônio Hilário Rodrigues, Geraldo Gordinho, Pedro Lima, Dico Chá Doce, José Barnabé, Tolim e Gabriel.

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Agora, com relação ao desenvolvimento de Pedro Leopoldo, era a localidade de Cachoeira Grande, naquele tempo, pertencente ao distrito de Matozinhos. E aqueles que geriam a Fábrica e a política de Pedro Leopoldo, não estavam achando bom estar pertencendo a Matozinhos e procuraram criar aqui também o distrito de Pedro Leopoldo, um distrito de Santa Luzia. Para isso então, Otone Alves Ferreira da Silva, já com Romero Carvalho, que tinha vindo aqui para ser o guarda-livros da Fábrica, porque tinha uma escrita muito boa e sabia muito bom português, tornaram-se políticos daqui e juntaram. Foram a Santa Luzia ao Modestino Gonçalves, que era o chefe do executivo, e perguntaram a ele como é que podiam fazer para elevar isso aqui a distrito. Então, Modestino Gonçalves disse que, para elevar isso aqui a distrito, precisava que aqui tivesse uma escola, uma igreja e um cemitério, pelo menos, e ruas delimitadas. Meu pai voltou com Romero Carvalho aqui a localidade e pôs mãos-aobra. E, imediatamente, começou a construir aqui a escola, naquela esquina, que tomou o nome de Escola São José. E, além da escola, construiu, ainda, a primeira igrejinha de Pedro Leopoldo. Veja que não tem casa nenhuma, só a igreja sozinha e no adro da igreja, como nós chamávamos, uma cruz na frente. A primeira igreja daqui. Depois de construir a escola e da igreja, ele doou o terreno para fazer o cemitério novo aqui, que antes era o cemitério dos Bexiguentos, lá no Campinho. Então, o cemitério tinha que ser Municipal para poder se tornar aqui um distrito. Sr. Romero Carvalho, o 1º Agente Executivo Municipal e 1º Presidente da Câmara.

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Então, o cemitério passou a pertencer ao Município de Santa Luzia, era municipal. Assim como a escola também era municipal. Bem mais tarde, depois de ter feito isso tudo, ele tinha os terrenos aqui do lado do morro que fica para o lado da Ciminas. Ele doou aí para fazer a primeira favela de Pedro Leopoldo, à pobreza para construir as casas aí. Aquela rua ali que sobe o viaduto que vai para São Geraldo. E doou nesse terreno, o terreno para construir o hospital São João Batista. E como não houvesse quem construísse o hospital, ele mesmo com o filho que era médico, Dr. Cristiano Otone e a tia de minha mãe, Genoveva Bahia de Alvarenga, financiaram a construção do hospital, que depois, mais tarde, funcionando, passou a ter como diretor, José de Azevedo Carvalho.

Dr. José de Azevedo Carvalho, que foi diretor do Hospital São João Batista, e o padre José Augusto Ribeiro Bastos, primeiro vigário de Pedro Leopoldo, nos anos 30.

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Bem, ele instalou em Pedro Leopoldo a primeira luz elétrica, a primeira usina de luz elétrica, onde é hoje a minha casa. Era ali. Instalou o primeiro cinema em Pedro Leopoldo e ajudou a canalizar e a drenar toda essa região baixa de Pedro Leopoldo. E depois dele, quando o filho Cristiano passou aqui a Chefe do Executivo, esse lugar no final da rua São Sebastião e toda essa região aqui, não tinha mais casa, era uma várzea onde tinha uma lagoa e um campo de futebol antigo quando a lagoa secava, onde jogava o time de futebol nosso, de meninos. Tonico, meu irmão e o Álvaro Lopes eram padrinhos dos 2 times, do juvenil e do infantil daquele tempo, 1923, 1924. Isso tudo foi feito em ruas, como a Otone Alves hoje, essa Benedito Valadares, a rua Cândido Viana, a praça Getúlio Vargas, tudo isso foi feito nessa região que não tinha nada. Era uma várzea, um campo de futebol. Rua Quebra Nariz, hoje a rua São Sebastião, em 1920.

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E aí, então, começou o progresso de Pedro Leopoldo. O calçamento com paralelepípedos, redes de esgoto, encanamento de água, apesar de ser tratada, precipitada e filtrada, mas havia já estação de água pra toda região. E tínhamos uma linha de bonde com trollers, que transportavam os passageiros da Fábrica e da região mais antiga da Estação para embarque e para a busca de mercadorias que desembarcavam na Estação de Pedro Leopoldo.

O trabalho de calçamento da Rua Comendador Antônio Alves em paralelepípedos.

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O trecho calçado da rua Comendador Antônio Alves, entre a praça Dr. Senra e a rua Dr. Herbster.

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Rua Dr. Herbster, em 1920, com a trilha do bonde que percorria o trecho da Estação Ferroviária até a Fábrica de Tecidos. Na foto ao lado, o Cine Teatro Otone.

“E tínhamos uma linha de bonde com trollers, que transportavam os passageiros da Fábrica e da região mais antiga da Estação para embarque e para a busca de mercadorias que desembarcavam na Estação.”

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Acontece que o primeiro cinema se chamava Progresso. Era de minha avó Ana Bahia de Alvarenga, morava onde mora o Cecé. E ao lado, ela tinha o cinema que se chamava Progresso, com máquinas francesas, muito rudimentares, em que as imagens andavam de arranco. Então, ela estava em dificuldades, ela tinha ficado viúva, então, meu pai comprou o cinema e o terreno e construiu lá um sobrado, o Cine Otone, que chamava, para fazer o cinema embaixo e moradia em cima. Quem morou primeiro em cima foi o Cristiano Otone Gonçalves Ferreira, médico, tinha casado de pouco. E embaixo, funcionava o Cine Otone. Ele perdurou por muitos anos, até que a decadência cinematográfica foi chegando aos poucos e os filmes já não agradavam muito, o Cine Otone deixou de funcionar. Parou. E lá embaixo, foi alugado para um mobiliário, para um judeu, onde trabalhava Lico Leroy como caixeiro do judeu.

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Fachada do Cine Central na rua Comendador Ant么nio Alves, em 1951.

Aí fundaram um outro cinema, na rua Herbster, com o nome de Cine Central, um tal Cardoso fundou esse cinema lá, num galpão enorme, comprido, quase sem fachada, nem nada, só para dar lugar às cadeiras e à tela do cinema. Esse Cardoso explorou esse cinema por bastante tempo. Depois, os irmãos Garson, o Manulo Garson e o irmão, compraram o cinema. Também exploraram o cinema por vários anos. Depois esse cinema foi vendido para Anélio Caldas, que era conferente da estação da estrada de ferro Central do Brasil. Explorou esse cinema por muito tempo. Até que então, também desanimados pela falta de frequência e prejuízos, fecharam o cinema. E para aqui veio de Ouro Preto o Milton Trópia, de família tradicional de Ouro Preto, fundou aqui outro Cine Central, na rua Comendador Antônio Alves. Também explorou por muitos anos isso aí, até que depois da revolução de 64, o Milton Trópia desanimou de mexer com o cinema, porque tinha um cinema em Ouro Preto e Mariana, aí ele não dava conta de olhar os 3 cinemas. Então, o Alexandre Jorge construiu o Cine Marajá, que começou a funcionar e está funcionando aí até hoje. Essa é a história dos cinemas em Pedro Leopoldo que eu sei contar. Os fatos aqui relatados sobre a história de Pedro Leopoldo são aqueles que foram possíveis contar sem trazer qualquer melindre a outras pessoas. Se fosse contar realmente outros fatos acontecidos, aqui em Pedro Leopoldo, principalmente na formação, na gestão da Fábrica, no operariado e de mais pessoas que aqui se localizaram com comércio, com alguma pequena indústria, podia causar melindres a pessoas vivas descendentes dessas a quem eu iria me referir, de maneiras que eu fico aqui na história de Pedro Leopoldo.”

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Pรกgina do jornal Oficina Humana, onde eram publicados os artigos do Sr. Elysio sobre a origem da cidade.

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A vida na

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A vida na Estação Ferroviária

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A vida na

Estação Ferroviária Depoimento

Antônio Coutinho Viana

O Sr. Antônio Coutinho Viana, filho de José de Paula Coutinho e Etelvina Viana Coutinho, nasceu em Pedro Leopoldo, no dia 7 de junho de 1932. Foi admitido na Central do Brasil em 1º de setembro de 1958 e aposentou-se 30 anos depois, no mesmo dia e mês da data de admissão, no ano de 1988.

“Na cidade de Pedro Leopoldo nesta época, só existia o centro, só o centro. E era ali, onde hoje é a rua Dr. Rocha, que antigamente era a rua do Contorno, porque ela contornava a linha ferroviária.”

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Sr. Antônio Coutinho Viana, em sua residência.

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Festa religiosa dos Vicentinos, na década de 40. Na foto à direita, o footing na praça da Estação, em 1939.

“De primeiro, falava em trem passageiro, e todo mundo ia lá pra ver os outros passarem. Tinha um trem de passageiro de manhã, um mais ou menos duas horas, e outro à noite. Foi acabando, acabando...”

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u nasci em 07 de junho de 1932, numa casa muito importante em Pedro Leopoldo, que era a antiga Prefeitura. Aquela casa era de meu tio Agenor Teixeira. Ele trocou depois com a Prefeitura e foi morar no campinho. Mas eu nasci ali. Sou filho de José de Paula Coutinho e Etelvina Viana Coutinho. Meu pai trabalhava com comércio em Cordisburgo. Depois ele mudou para a fazenda. Veio para Pedro Leopoldo, mas morava na fazenda do meu avô. Ele mexia com calcário. Queimava a pedra calcária para fazer cal. Meu avô era fazendeiro em Cordisburgo, mas ele nasceu aqui, naquela casa antiga do Industrial. O casarão da fábrica onde a chefia morava, aquela casa foi do meu bisavô. Minha família foi uma das fun­dadoras de Pedro Leopoldo. Na cidade de Pedro Leopoldo nesta época, só existia o centro, só o centro. E era ali, onde hoje é a rua Dr. Rocha, que antigamente era a rua do Contorno, porque ela contornava a linha ferroviária. Era daqui até a rua principal. Não existia a Maternidade, aquele lado de lá não existia. A rua principal existia até mais ou menos onde hoje é a Igreja São Sebastião. Dali pra lá, já era a fazenda de Sô Zeca. Depois que ele loteou e a cidade foi crescendo. Na infância o trem era só pra viajar. Era a condução que tinha pra ir em certas cidades, pois a ferrovia cortava as cidades mais importantes de Minas Gerais. Então pra ir em Cordisburgo, ou na festa de Curvelo, tinha que ir de trem. Pegava o trem em Dr. Lund e ia para Cordisburgo ou em Curvelo. Rua Dr. Herbster, no final da década de 20. À esquerda, ao lado do Hotel Diniz (hoje, Colégio Clita Batista), a casa de Agenor Teixeira, que sediava na época a Prefeitura Municipal e, hoje, sedia a Escola Municipal Melo Viana Sobrinho. Ao fundo, o Cine Teatro Otone.

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A locomotiva a vapor, a chamada “Maria Fumaça”, nos anos 30.

Ah, na minha infância a gente vivia mais na fazenda. Mexia com criação, essas coisas. A gente era muito pequeno, mas mexia com cria­ção. E de vez em quando juntava uma turma, os meninos de Confins iam pra lá, pois tinha um terreiro grande, e nós fazíamos um futebolzinho de meia. Fazia uma bola de meia e ficava ali horas jogando bola com os meninos. Eu ficava mais na fazenda. Estudei aqui em Pedro Leopoldo no grupo São José. Vinha e voltava a cavalo da fazenda todos os dias. Depois eu morei na casa da minha tia, irmã gêmea de papai. Era perto daquele hotel de esquina, acho que hoje nem é hotel mais. É em frente à padaria Jacques. Minha tia morava ali no fundo; era costureira e depois eu fui morar com ela. Eu ia embora aos sábados, não tinha aula eu ia embora. Nesta época, eu tinha a idade de grupo. E depois, em 1947, eu estu­dei em Itabirito; inclusive estudei com uma das personalidades do futebol mais importante hoje. Com o Telê Santana, que foi colega meu de escola. Fui morar em Itabirito, porque aqui não tinha escola, e antiga­mente só existia escola em Conceição do Mato Dentro, Dom Bosco e Itabirito. Eu ia pra lá e ficava no internato, mas não era com os padres, era com professor. Estudei até o 2º ano e vim embora. Voltei e trabalhei na fazenda. Mais tarde meu cunhado me incentivou a entrar na ferrovia. Nesta ocasião, eu já trabalhava na Cauê, foi quando eu fiz concurso para a ferrovia e passei, no ano de 1958. Quando eu fui admitido, fui para Corinto para trabalhar na esta­ção. Vendia bilhetes, fazia despacho, movimento de trens, manobras, formação de trem, essas coisas todas. Ficava à disposição do agente. Mas eu trabalhava na estação. A bilheteria era muito grande, e vendia passagem para os ramais todos. Lá não era fácil não! A passagem era um cartãozinho, Tinha o preço das passagens, o número da sequência para não haver falsidade e essa coisas... E o destino, de Corinto para Montes Claros, por exemplo, com a série para não ter furo. As passagens não eram caras, o preço da ferrovia era bem acessível. Era bem mais barato que a rodoviária, bem mais. Tinha passagem para a primeira e a segunda classe, e também o trem passageiro noturno que corria à noite, que tinha dormitório. Ven­dia-se a passagem que era reservada por telegrama. O sujeito chegava e: ‘Eu quero um leito para Montes Claros para amanhã’.

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Era Central do Brasil, aquela Maria Fumaça ainda. Depois foi trans­formando... Criando muita estrada, muita rodovia. Foi diminuindo, até aca­bar com o trem de passageiro. Hoje só tem trem de carga, infelizmente!

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Aí a gente man­dava um telegrama para Belo Horizonte para reservar o leito. Leito su­perior ou inferior. A gente esperava a resposta do leito guardado para Pedro Leopoldo, número tal. Extraía o bilhete, o passageiro chegava e já sabia sua acomodação. Também trabalhei no armazém de carga. Fazia despacho de vagão lotado de mercadoria. Já tinha outro setor que era de encomenda, que era uma mercadoria mais rápida que viajava no trem de passageiro, de enco­menda. E tinha também a composição, que era onde formavam os trens. Por exemplo, o vagão de Pedro Leopoldo para Sete Lagoas, o peso dele era 36 toneladas, aí colocava lá 36 e, consequentemente, colocava todos os vagões com tantas toneladas, não podia ultrapassar a capacidade. Para Sete Lagoas a máquina a diesel subia com 945 toneladas e para Pedro Leopoldo com 1425. Porque de lá pra cá não tinha morro. Antigamente transportava muito boi, madeira, carvão e mercado­ria pequena. Vinham fardos e mais fardos de algodão. Depois a fábrica parou e não veio mais. Despachei

A Estação Ferroviária de Pedro Leopoldo, em 1910.

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muito leite e fardo de sal para a cooperativa. Lá na estação tinha de tudo... Tinha conserva de vagões, tinha uma oficina grande demais, tinha escala de chefe de trem, escala de maquinista. Era lá que centralizava: um maquinista pegava daqui até Corinto, e lá eu descia e passava para outro. Descansava e voltava com o trem. Você sabe o que é formar um trem? Pois é, ele tinha que ser formado. Tinha um prefixo do trem, por exemplo, 106 era um carguei­ro. Aí você vai juntando todos os vagões e vai adequando. Por exem­plo, um vagão para Matozinhos, se ele tiver carregado, coloca na frente ligado à máquina. Sete Lagoas vem oposto. Aí vai formando até chegar a capacidade da máquina. Se ela cabe 30 vagões, então, você pode pôr os 30 vagões. Aí está formado o trem. Pode fazer o boletim. Foto da instalação da Vila de Pedro Leopoldo, em 27 de janeiro de 1924.

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Eu ainda trabalhei com a máquina vaporosa, depois logo entrou a diesel. A diferença entre as duas é muito grande, pois a vaporosa é um trem muito lento, com menos força. Pra subir uma rampa inclinada, era uma dificuldade. Por exemplo, uma rampa igual àquela do hospital era uma tristeza! Subia com seis vagões. Hoje uma diesel sobe com sessen­ta, oitenta vagões, a capacidade aumentou demais. Mesmo assim os passageiros sofriam, porque com a subida, forçava e saía faísca de car­vão que sujava tudo, e se

Casa do final do séc. XIX, vendida por Cândido Fonseca Vianna para a Estrada de Ferro Central do Brasil juntamente com o chalé, à direita. A casa, que se tornou a residência do engenheiro chefe, atualmente abriga o Centro de Referência do Professor e a Secretaria de Educação. O chalé foi, por muito tempo, o escritório local da Rede Ferroviária. Nele existe, até hoje, uma amostragem dos tipos de trilhos utilizados nas malhas ferroviárias do Brasil desde seu advento. Na foto à direita, a casa do Agente de Estação, que foi demolida há alguns anos.

Era muito difícil de ocorrer algum acidente na linha, pois o Dr. Wilson Lobato Martins cuidava muito do trecho dele, mas de vez em quando acontecia porque não é só a linha que provoca acidente. Às vezes acontece de um friso da máquina estar desgastado, de uma sapata que crava, o trem sobe em cima e desencarrila. São vários os fatores que promo­vem o descarrilamento. Mas sobre o trecho da linha, não. Era muito bom! Dr. Wilson cuidava muito. Ele colocava o pessoal para cuidar, limpar os regos, esgoto, para quando a chuva chegar não entrar dentro da linha. A convivência com os colegas de trabalho era muito boa, graças a Deus! Até hoje... Pelo menos a turma que eu trabalhei aqui. Eu tinha 30 e tantos empregados no Leopoldão, que hoje é um pátio, que se chama Wilson Lobato Martins. A convivência com os colegas, até hoje é muito boa! Eu não tenho nenhum inimigo. Sou amigo de todos. Eu ganhava muita coisa: manteiga, leite, doce...

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tivesse de roupa branca ficava todo pintadinho. As máquinas a diesel variavam de tamanho. As menores eram pra fazer lastro, andava com o pessoal pra arrumar a linha. E as maiores, podia colocar cinco, seis máquinas e um maquinista só comandava. Colocava todas pra funcionar ao mesmo tempo.

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Então eu saí de Corinto em 58, depois de trabalhar nestas esta­ções. Todos os setores que tinham na estação eu corri. Tinha o setor do armazém que era para fazer despacho. Bilheteria, telégrafo e o telégrafo de licenciamento de trem. E tinha o setor de ajudante do chefe de esta­ção. Eu vim pra Pedro Leopoldo como auxiliar de estação também. Não me recordo quando foi. Eu fui chefiar a estação de Leopoldão onde hoje é Wilson Lobato. Eu estava na ajuda aqui, e fui pra lá. Trabalhei no Leopoldão quatro anos e aposentei. Foi em 1974, 76 que eu fui pra lá. Em 1988 eu saí. Dia 1º de setembro de 1988 eu aposentei.

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A praça da Estação, em 1939. Na foto à esquerda, a oficina que atendia toda a região de General Carneiro a Corinto.

“Ferroviário não tinha lazer, tinha trabalho. Era muito difícil.”

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Cabeçalho de documento de comunicação interna da Estação.

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Eu vim para Pedro Leopoldo em 1958, e foi em 61 que eu casei. Vim constituir família aqui nesta cidade, pois estava trabalhando aqui por perto. É porque eu trabalhei muito em Vespasiano, Nova Granja, Dr. Lund, Matozinhos. Essas estações eu rodei elas todas. Para dar folga aos funcionários ou férias. Ferroviário não tinha lazer, tinha trabalho. Era muito difícil. Às vezes, a gente estava trabalhando e era mandado para Carreira Cumpri­da, que eram os frigoríficos, perto de Santa Luzia, e tinha que ir nas férias ou nas folgas. Se você saísse de lá 7:00 horas da manhã não tinha condução. Se pegasse um trem daqueles e tivesse um fiscal ele manda­va você descer no meio do caminho. Não deixava você vir. Você era empregado. Hoje não. Hoje eles carregam à vontade. No meu tempo não carregava não. Não tinha passe livre! Tinha passe livre só para o trem de passageiro, mas se saísse 7:00 horas da manhã, ia esperar um passageiro 8:00 horas da noite para vir embora? Não tinha jeito. Perdia a folga toda ou arriscava e vinha escondido. Chegava aqui, às vezes, todo sujo de carvão, porque o carvão vinha batendo, chegava aqui pretinho. Não tinha outro jeito. Agora melhorou muito. Aqui em Pedro Leopoldo funcionavam todos os expedientes da estação. Tinha a bilheteria, os telégrafos, o armazém e a parte da chefia. E fora da estação tinha os manobreiros e os guarda-chaves, pra mano­brar o trem. Só os guarda-chaves eram quatro, um por dia. Depois que aumentou muito o serviço com a Ciminas, que passou a ser dois por dia e colocaram um manobreiro. Então trabalhavam três. Eu graças a Deus trabalhei nesses lugares todos e nunca peguei nada, doença nenhuma. Ah, mas já vi de tudo! Dengue, malária... Inclusive, de vez em quando, vinha Documento de comunicação interna, 1941.

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um pessoal da saúde pública, batendo fumaça, batendo remédio em brejo e ribeirão. Hoje, o ribeirão dificilmente transborda. Antigamente, qualquer chuvinha, o ribeirão transbordava, e na época da seca, do calor, vinha o mosquito de malária... O trem não era fácil, não! É com tristeza que eu vejo esse desmanche que teve da Rede Ferroviária. Desativou tudo, o governo entregou de mão beijada pra essa empresa que está aí. Ela não está dando conta! E acabou, principalmente, porque os fretes estão subindo muito e ela é privada. Veja, a Cauê não despacha mais. Ela era a que mais despachava cimento e carvão. Hoje, ela não despa­cha mais nada! A Ciminas geralmente despacha porque ela tem vagão pró­prio, e tem abatimento no frete, então ela carrega nos vagões dela. Diminuíram as viagens ferroviárias desde a época do Juscelino, que começou aquele crescimento da rodovia. Esse pessoal devia até soltar alguma propina pra a chefia pra não melhorar a rede. Porque infelizmente, a rede ficou estacionada, teve pouca melhoria, pois parece que o governo não interessava. Não interessava para a rede ferroviária privada competir com a rodovia. Infelizmente acabou mesmo! Antiga­mente a gente obedecia à capacidade da máquina. Hoje não, enquanto tiver vagão, eles vão colocando; 100, 120, 130 toneladas... Se não aguenta subir em algum lugar, eles mandam outra máquina pra ajudar. Ninguém está ligando... Toca mesmo, vagão vazio na frente... carregado atrás... Uma vez, eu fui levar uma licença para o maquinista e vim embo­ra. Quando eu estava vindo, pisei em alguma coisa... Nossa Senhora! O que foi isso aqui que eu pisei? Quando eu fui ver, era a cabeça de um homem. Cortou a cabeça dele no pescoço certinho. Ele deitou com a cabeça na linha, o tem recuou e ‘ziu’... Na hora que eu vi, pisei na cabeça dele com o lampião. Não tinha nem As informações de distância e altitude presentes nas estações são em relação à Central do Brasil, que fica no Rio de Janeiro.

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A Estação Ferroviária de Pedro Leopoldo, em 1945.

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lanterna, era lampião. Ele ficou à noite e o dia inteirinho lá. A polícia tirou ele de tarde. Ele era meu conhecido das fazendas. Não sei se ele bebeu ou o que foi. Morreu. Aqui em Pedro Leopoldo também morreu um funcionário. Ele estava manobrando. Alberto, coitado, era bom empregado. Ele cortou um vagão pra mandar o trem embora, que já estava licenciado. Quando ele saiu, o trem não tinha cortado, e aquele vagão não podia ir embora, então ele levou a mão no engate. Não sei o que foi. O vagão espremeu ele. Colocaram-no numa caminhonete, levaram rapidamente para Belo Horizonte, mas não adiantou. Morreu. Em Pedro Leopoldo, a ferrovia trouxe um desenvolvimento mui­to grande por causa do transporte da Cauê e da Ciminas. Aqui tinha transporte de calcário, de mármore, que carregava pra São Paulo. E tinha a fábrica de São João Evangelista, fábrica de farinha que mandava farinha pra Minas Gerais toda. Acabou tudo! De primeiro, falava em trem passageiro, e todo mundo ia lá pra ver os outros passarem. Tinha um trem de passageiro de manhã, um mais ou menos duas horas, e outro à noite. Foi acabando, acabando... Esse transporte de passageiro começou acabar mais ou menos em 1976 e 1978 já tinha acabado. A única ferrovia que tem passageiro é a Vale do Rio Doce, de Belo Horizonte a Vitória. Eu acho que o trem de passageiro acabou porque ele já estava muito deficitário, então, preferiram acabar. Tinha que dar preferên­cia para o de carga, para garantir a renda. Só existe agora o de turis­mo, de Tiradentes a São João Del Rei. E Ouro Preto também estava circulando um trem até Mariana, mas as linhas já acabaram todas. A beira do ribeirão, eles cavaram pra retirar ouro. E hoje as linhas estão suspensas no ar. Não tem nada debaixo delas. Acabou. Aquele trecho acabou, não corre trem nenhum mais. Faz dó, mas o que se pode fazer? Os homens estão mandando... Fernando Henrique acabou com tudo... A vida depois que aposentei está boa, porque graças a Deus estou com saúde. As coisas estão difíceis, porque o salário não aumenta há oito anos. Igual eu gosto de pescar, tem um ano eu fui no Xingu, esse ano não deu para ir. Já trabalhei muito... 35 anos! Trinta e cinco anos de ferrovia. Só dois meses que eu trabalhei na Cauê depois fui chamado na Rede. Saudade. Tenho saudade da convivência, porque eu gostava de trabalhar. Fazia de tudo. Não reclamava de nada. Fica a lembrança... pois foram 30 e tantos anos ali. Uma vida toda!”

A Estação em 1986, antes da privatização.

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Alcindo de Oliveira

Nascido em Matozinhos, mudou-se para Pedro Leopoldo em 1939. Foi jogador de futebol dos 3 times que existiam na cidade: o Industrial, o Sport Club e o Pedro Leopoldo Futebol Clube. É funcionário aposentado da Inspetoria Regional de Fomento de Produção Animal, a Fazenda Modelo.

“Então, daqui saíam determinações e foram criadas subinspetorias em várias cidades do Estado de Minas... E é esse serviço que Chico Xavier pegou pra ele em 1935 e eu, em 1940. E eu fiquei no serviço lá até aposentar.”

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Sr. Alcindo de Oliveira, em frente a sua residĂŞncia, ao lado de uma oliveira plantada em seu jardim.

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Estrada de acesso Ă  Fazenda Modelo, nos anos 30.

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avia um espaço que se chamava Granja Pastoril, que era do Estado e, devido a situações de quando um espaço não está assim muito cumprindo bem algo para que foi criado, mudou em 1918, por aí, para a União. Pouco depois disso, veio passar o inspetor-chefe, foi criada aqui uma Inspetoria Regional de Fomento da Produção Animal. Quer dizer, a sede que nós temos aqui administrava o assunto do Estado. Então, daqui saíam determinações e foram criadas subinspetorias em várias cidades do Estado de Minas: Lavras, Barbacena, Juiz de Fora, Rio Pomba. E é esse serviço que Chico Xavier pegou pra ele em 1935 e eu, em 1940. E eu fiquei no serviço lá até aposentar. A atividade principal era o fomento de produção animal. O Ministério adquiria reprodutores estrangeiros bovinos, equinos e, inclusive, carneiros e emprestava esses reprodutores.

Entrada da Fazenda Modelo.

Vista da Fazenda Modelo.

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Entrada da Fazenda Modelo. Na primeira foto à esquerda, a ponte da Fazenda Modelo, nos anos 40. Na segunda foto à esquerda, funcionários em frente ao escritório. Na terceira foto à esquerda, detalhe da ponte. Na foto no topo desta página, a Lagoa Preta, que ficava à direita da estrada de Pedro Leopoldo a Vera Cruz.

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A finalidade fundamental era emprestar reprodutores, então, criavam estação de monta que chamavam de estação de monta provisória, porque o criador não tinha condições de comprar um reprodutor, mas tinha condições de cuidar, ele recebia um animal, um reprodutor e ficava por 1 ano, talvez 2 ou 3, de acordo com o consentimento, e os funcionários cuidavam disso, do Estado todo. Em quase toda cidade, são muitas, Machado, Lavras, Barbacena, Juiz de Fora e Rio Pomba tinham postos de criação. Postos de criação eram o quê? Não era um escritório, era um espaço, vamos dizer assim, uma espécie de fazenda de criação que importava os reprodutores e produzia reprodutores aqui, porque havia a união das crias para fomentar. E isso durou muitos anos.

Exemplar de leitoa da Fazenda Modelo. Na foto à direita, os estábulos e o silo.

O importante papel da Fazenda Modelo

Com isso concluído, o chefe daqui foi para o Rio para ser diretor-geral, fez o serviço que teve e me levou para lá. Eu não tinha formação, mas tinha experiência e uma situação assim, de aceitação por ele. Isso foi já tem muitos anos. Depois disso, tempos depois, a essa altura, eu já trabalhava aqui, mas a minha presença no Rio também foi morando nesta casa aqui. Eu ia pra lá segunda-feira e voltava na sexta. Até que Getúlio Vargas suicidou e terminou a nossa ação. O chefe era chefe diretor-geral, aí mudou tudo. Tempos depois, esse serviço foi encerrado. Também já tinha muitos anos que o Ministério havia esse tipo de ação e os criadores já tinham também avançado muito, como está até hoje. Hoje, eles criam até novas raças etc., mas, no início, foi a Inspetoria de Fomento que deu início a essa história.

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Sede da Fazenda Modelo.

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FuncionĂĄrios da Fazenda Modelo, nos anos 30. Chico Xavier ĂŠ o 4Âş da direita para a esquerda.

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A Inspetoria tinha o apelido de Fazenda Modelo. Aqui é a sede do serviço no Estado de Minas. Pra atender as outras demais dependências, tinha bastante funcionários: agrônomos, veterinários, funcionários administrativos. Eu, por exemplo, era agente administrativo. Chico Xavier também era e outros que fizeram concurso e foram admitidos. Inclusive, 1 ou 2 vezes por ano, reunia os funcionários todos que trabalhavam fora para prestar contas do serviço realizado, geralmente era no princípio do ano, com a programação a seguir. Dentre as outras coisas que falei, tinha técnico de nível superior agrônomo ou veterinário ou zootecnia. Daí, tinham outras inspetorias em outros estados também. São Paulo tinha em São Carlos, em Mato Grosso tinha, nos

Registro de animal da Fazenda Modelo, de 1946. Na foto à direita, a entrada do Redondel da Fazenda.

O importante papel da Fazenda Modelo

estados do Norte. Uma inspetoria em um determinado estado administrava, às vezes, 2, 3 estados, dependendo do tamanho. E isso foi de grande utilidade chegar no ponto de hoje o Brasil, um dos maiores produtores de carne do mundo. E também havia muito fomento e incentivo com relação à melhora do gado de leite, com importação da Itália, da Espanha. Quase a totalidade, aliás, a totalidade dos reprodutores iniciantes foi importada. Mas, com a presença deles, depois já tinham as crias locais. Com isso, houve um aumento muito grande da qualidade da produção. Daqui saía também de nosso serviço, pessoas habilitadas a ensinar a fazer pastagem, cuidar da pastagem, fazer silos, tudo em torno de produção.

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Registro de animal da Fazenda Modelo, de 1953.

O Sr. Alcindo de Oliveira, Ă  esquerda. Ao centro, Chico Xavier.

A primeira exposição agropecuária realizada em Pedro Leopoldo foi em um terreno de minha propriedade, em um bairro que chama Várzea Antônio Elias, contornando o terreno ali da Cauê, produtora de cimento. Depois foi criado esse espaço que funciona até hoje (Parque de Exposições Assis Chateaubriand). As exposições em Pedro Leopoldo hoje são mais festivas do que reprodutivas. Tinha um moço que incentivava isso, você já deve ter ouvido falar dele, o Nicolau Neto. Ele frequentava muito aqui. Ele dizia: ‘É possível até que apareça alguma vaca’. Mas ele foi um dos que criaram uma situação de mais conhecimento da cidade, porque ele tinha representantes em várias cidades.

Parte externa do primeiro escritório.

O importante papel da Fazenda Modelo

O nosso chefe estudou na Inglaterra e junto com ele veio um colega de escola. Então, aqui era administrado pelo Dr. Rômulo Joviano e o inglês que chamava Thomaz Dalton, que ficou aqui desde o início da Inspetoria até a morte. Dr. Dalton morreu aqui. O Dr. Rômulo voltou para o Rio e morreu por lá. Chico Xavier ficou aqui até 1959 e depois foi para Uberaba, porque lá também tinha um espaço, administrado por nós.

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Dr. Thomaz Heath Dalton, Chico Xavier e Jos茅 Vieira, em 1942.

Chico Xavier, R么mulo Joviano e Pietro Ubaldi.

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Dr. Dalton, Fausto Joviano e Chico Xavier.

Chico Xavier trabalhando na Fazenda Modelo.

“O nosso chefe estudou na Inglaterra e junto com ele veio um colega de escola. Então, aqui era administrado pelo Dr. Rômulo Joviano e o inglês que chamava Thomaz Dalton, que ficou aqui desde o início da Inspetoria até a morte.”

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Vista parcial da Fazenda Modelo, em 1940.

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Ele cuidava disso junto aos Diários Associados, assim, representando a cidade. Quem trouxe muita coisa a Pedro Leopoldo foi Chico, Nicolau Neto e uns falam que Dirceu Lopes também. Fui jogador de futebol também, eu joguei nos 3 times daqui. Quando eu vim para aqui, quem primeiro me convidou foi o Industrial, eu tenho um campeonato lá. Eu passei para um outro time aqui, chamava Sport. Esse Sport tinha um dono, um produtor industrial de cal. Então, os jogadores trabalhavam pra ele nos serviços de produção de cal. Ele produzia e vendia cal por atacado. Eu fiquei lá 1 ano e depois vim para o Pedro Leopoldo. No Pedro Leopoldo, não fiquei muito tempo, não. Fui acidentado. Parei jovem ainda. Gostava muito de futebol, passei a ser treinador uns tempos, juiz, atuei na Federação Mineira de Futebol durante vinte e tantos anos. Assim, como uma presença, sem salário, porque eu gostava mesmo. Eu era uma espécie de relações públicas. Representava vários clubes na hora de votações, mudança de diretoria, porque a Federação agia no Estado todo. Pedro Leopoldo, você já deve ter ficado sabendo, é uma cidade semi-industrial, com 2 fábricas de cimento dentro do município, coisa rara vir de um município pequeno, tinha uma terceira em Matozinhos, que está daqui a 8 km, isso em virtude da presença de matéria-prima. Quem monta uma fábrica de açúcar tem que ter canavial. Em Matozinhos, foi montada uma fábrica de açúcar sem ter canavial. Fechou em pouco tempo. Matozinhos é onde eu fiquei até adolescente, aí quando eu tinha 17 anos, saí para o exército e não voltei mais. Fui cuidar da vida. Aqui em Pedro Leopoldo, eu estou há mais de 70 anos.”

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Pedro Leopoldo Futebol Clube, em jogo realizado em Nova Lima, em novembro de 1943, contra o Comercial Futebol Clube. Em pé, da esquerda para a direita: Lafaiete, Afonso, Jésus, De noite, Bolota, Djalma, Dimas Pereira (presidente do time). Agachados, da esquerda para a direita: Mauricinho, Dedé, Alcindo, Pacote e João Gabriche.

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Time do Industrial Esporte Clube em Curvelo, em jogo contra o Maria Amália, nos anos 50. Em pé, da esquerda para a direita: Manoel Lopes, Manoel Pacheco, José Hilário, Clarindo, Lico Leroy, João Bóia, Zé Pires, Carlos Barromeu, Pega Frango, Onofre, Roberto Amorim, Jota, Valdir, Ratinho, (?), Álvaro Lobo Manso e (?). Agachados, o time do Maria Amália de Curvelo. Na primeira foto à esquerda, o time do Pedro Leopoldo Futebol Clube, nos anos 20. Na segunda foto à esquerda, o time do Sport Club Pedro Leopoldo, campeões de 1956. Em pé, da esquerda para a direita: Adelso, Lecir, Dartagnhan, Jair, Jésus, Geraldo Pião, Antônio Carvalho, Itamar, Wilson Sales. Agachados, da esquerda para a direita: Cajucí, Caveirinha, Laerte, Otávio Augusto, Vêu e Zezinho.

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Angélica Grellmann Breunig

Especialista em História e Cultura Mineira pela Faculdade de Ciências Humanas de Pedro Leopoldo e gerente da Secretaria de Educação e Cultura de Pedro Leopoldo, que funciona no prédio do Centro de Referência da Secretaria de Educação.

“Aí a cidade de Pedro Leopoldo nasce daquele núcleo da Fábrica de Tecidos. É ali que começa tudo. Então, nos primeiros anos, tinha 2 ruas na cidade, praticamente.”

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Angélica Grellmann Breunig na sala de jantar de sua residência.

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primeiro núcleo de povoação aqui de Pedro Leopoldo foram, por ordem, Quinta do Sumidouro e Vera Cruz. A Quinta do Sumidouro ficou povoada desde Fernão Dias e Vera Cruz, ela ficou povoada porque ela estava ligada à rota de Venda Nova, que era uma rota de comércio, que passava por Venda Nova, Curral Del Rey e ía para a região das minas. Então, a rota que saía daqui, pois aqui em Pedro Leopoldo só tinha a Fazenda da Cachoeira, e então passava por aqui, pegava uma rota em direção a Vera Cruz e ía embora em direção a Belo Horizonte, o Curral Del Rey e Venda Nova, que o nome do bairro já chamava Venda Nova. Aí a cidade de Pedro Leopoldo nasce daquele núcleo da Fábrica de Tecidos. É ali que começa tudo. Então, nos primeiros anos, tinha 2 ruas na cidade, praticamente. Era a que saía da Fábrica e tinha o largo, que hoje é a praça Dr. Senra, aí pegava a Comendador, que na época era Ferreira Mello. Na verdade, o nome da rua é Comendador Antônio

Rua da Cadeia, atual rua Romero Carvalho, na década de 30. A cadeia foi demolida para a abertura da rua Senador Melo Viana.

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Rua Ferreira Mello, atual rua Comendador Antônio Alves.

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Praça Dr. Senra. Em seu entorno, a elite pedroleopoldense da época contruiu suas casas.

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Alves Ferreira Mello, e tem até uma discussão aí por conta do Ferreira Mello, mas que está certinho, pois era o nome do Comendador mesmo. Só que as pessoas acham que, como é Comendador Antônio Alves, eles acham que é o Antônio Alves da Silva, o fundador da fábrica. Então isso já deu muito pano pra manga. Aí seguia a Comendador, subia a Herbster e chegava na Estação. Acaba a cidade. Então, todo o comércio, tudo se desenvolvia ali era em torno disso. Aos poucos, foram abrindo a rua da Cadeia, que é a rua Romero Carvalho, a rua da Boiada, que é a rua Cristiano Otone, que era por onde passava toda a boiada, para chegar até a fazenda dos Viana, que começava ali onde é a Casa do Fazendeiro e seguia até onde é a Cauê. Ali eles foram povoando sem avisar a Prefeitura. Foram só construindo casas. Quando a Prefeitura assustou, que viram: ‘que porteira mais movimentada essa!’. Aí eles foram verificar e já tinha um monte de casas. Então eles foram abrindo as vias, abrindo condomínio.

Antiga casa do Engenheiro, onde hoje é o Centro de Referência da Secretaria de Educação. Na foto à direita, o antigo escritório da Estação Ferroviária.

Aí aquela região ali era o seguinte: a Estação e a casa do agente, que foi demolida, foram construídas logo em seguida em imóveis cedidos pela Fábrica de Tecidos. Onde hoje é o Restaurante Estação era a nova casa do agente, pois com o crescimento da estrutura, construíram uma casa nova para o agente e a outra casa ficou para o subagente. A casa, onde hoje é o Centro de Referência do Professor, era a casa do Engenheiro e ela já existia. Na verdade, ela era de um dos sócios da Fábrica, que era Francisco Viana Sobrinho, e ele vendeu a casa para a rede, tanto a casa, quanto o chalé ao lado, que era o escritório. Eles compraram aquela esquina ali, mais as águas, mais a parte de trás. Ali tem um veio de água, tem uma bica, tem um poço. Tinha a água da cascata, pois quando se falava Parada da Cachoeira, não era a Cachoeira Grande, era essa cachoeira, que era uma cachoeira e que agora é um filete d’água. Ali tem uma vertente e ela se unia à cachoeira, mas eles drenaram, arrumaram, pois ali dava muita enchente. Então, a casa, onde hoje é o Centro de Referência, era o palacete, por isso tinha planta. E a planta é igualzinha. O partido dela em L é igualzinho até hoje. O que que eles

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A ocupação do contorno da rede ferroviária foi exatamente junto com a da Fábrica. A rede ferroviária recebeu da Fábrica de tecidos um terreno para estabelecer a Estação e a casa do agente. No início, não era estação, era uma parada. Era só um lugar para carregar a mercadoria da Fábrica e ir embora. Só que lá se tornou um lugar movimentado e acabou virando estação, eles viram o potencial da Fábrica e a região começou a caminhar para cá também para poder despachar as coisas. Isso ainda construindo, eles viram que só uma parada não era suficiente. Por isso eles já fizeram logo a estação maior. Aí, em vez de Estação da Cachoeira, era Parada da Cachoeira. Aí mudaram o nome porque o Dr. Pedro Leopoldo, que era um engenheiro nordestino, morreu pouco antes, aí em homenagem a ele, deram o nome à Estação. E virou o nome da cidade.

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fizeram? Na década de 70, eles tiraram o que era de madeira na frente e fizeram uma fachada no estilo ferroviário, que tinha um pouquinho de art decó, que nessa época chamavam de eclético, uma decoraçãozinha assim básica e fizeram uma varanda na frente. A varanda que existia era de madeira, ela era de fora a fora. Aí eles tiraram, mantiveram as 2 portas e fizeram uma varanda menor. E, do lado, eles chamavam de chalé, igualzinho ao que era. O que que eles fizeram por dentro: tiraram paredes e transformaram, por exemplo, 2 quartos em 1 quarto mais 1 banheiro, 1 quarto em 2 banheiros, mas a cozinha ficou a mesma. E foi a 1ª casa com piscina de Pedro Leopoldo, que foi aterrada agora recentemente. Um pecado. Aí do lado pra lá, é tudo Fazenda Modelo já. É do Governo Federal. Então o CEPPEL é concessão do Governo Federal, a Torre de Pizza, aquelas casinhas ali perto, o próprio Parque de Exposições. Então tudo pra lá é do Governo Federal. Então, a gente teve a primeira ocupação ali em torno da praça Dr. Senra, Comendador e Herbster. Aí depois foram abrindo as ruas laterais e foi seguindo no sentido do que a gente chama de Jockey Club, que não é essa rua que é hoje, era uma lá embaixo, na várzea da Cauê. Esses dados também dão confusão, porque como mudou o nome

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Jockey Club, em 1935. Na foto à direita, a rua Dr. Rocha, onde a maior parte das casas ainda está conservada.

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Legenda original da foto do Jockey Club.

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Legenda original da foto do Campo de Aviação.

“Era porque lá tinha o Jockey Club... Aí lá onde é o Parque de Exposições Assis Chateaubriand tinha o aeroclube.”

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Campo de aviação, em 1930. Na foto à direita, Parque de Exposições, em 1966.

E o Parque de Exposições tinha mega exposições, eram muito bem pagas e a Fazenda Modelo tinha os melhores exemplares de tudo que pudesse imaginar de caprinos, bovinos. Ela vivia disso, era referência no Brasil e no mundo, e ela recebia exemplares de tudo quanto é lugar. O Seu Geraldo tem entre os documentos dele, vários certificados

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de lugar, a gente pensa que está num lugar e está em outro. Era porque lá tinha o Jockey Club. E foi abrindo até em direção de onde é a Cauê. Aí só na década de 50 que chega a Cauê, aí dá aquele bum de crescimento para aquele lado lá. Começa a povoar por lá tudo. Aí lá onde é o Parque de Exposições Assis Chateaubriand tinha o aeroclube. Era a febre da aviação que veio da Revolução de 30 até JK. Ele que impulsionava esse negócio do progresso, que tinha que pousar avião toda hora, em qualquer lugar. Parou porque para sustentar era complicado. Aí que virou o Parque de Exposições.

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de procedência dos animais, tem o pedigree, da Fazenda Modelo ele tem esse tipo de coisa. Aí as exposições só foram melhorando. Quando a gente chegou aqui, já estava em decadência. Já era década de 90, tinha muito animal bonito, mas não era mais aquele glamour que era antes. Agora eles estão retomando de novo, já tem prêmios melhores, estão retornando ao circuito de novo. Mas as exposições naquela época eram um luxo, as pessoas desfilavam assim no maior chiquê e era no meio das vacas! Eu fico até imaginando. Aí eu vi outro dia um vídeo, que está com Seu Edson Jorge, onde Cecé estava recebendo uma geladeira, na década de 60, como prêmio por ter recebido o 1º lugar, eu acho que por um búfalo, tenho quase certeza disso. Na época, imagina, uma geladeira quando ninguém tinha geladeira era o ‘ó do borogodó’, era assim uma coisa muito legal. Então depois eu fiquei conversando com Cláudia, neta dele, e ela falou: ‘Não, vovô sempre ganhava nessas feiras. Ganhou carro, ganhou cavalo, ganhou geladeira, ganhou um monte de coisas’. Aí nessa época também, o pessoal começou a subir o São Geraldo. Na década de 60, já está começando a ocupação no são Geraldo. Mas a ocupação mesmo se dá em função da Ciminas, já na década de 70. Em 1972, Renato Andrade Pinto, que faleceu recentemente, ele era interventor, que a ditadura militar que colocava os prefeitos na época, conseguiu trazer a Holcim pra cá. Isso foi um grande feito. E isso deu um bum para Pedro Leopoldo. Pedro Leopoldo na década de 70 e 80 viveu muita prosperidade em função das 2 cimenteiras. Então se imaginava que esse dinheiro não ia acabar mais. Então, quem trabalhasse lá, se dava bem. Pois no início da cidade, tinha 3 fontes de renda: era a Fábrica de Tecidos, a rede ferroviária e a Fazenda Modelo. Destes, quem ganhava bem era da rede ferroviária e, claro, aquela meia dúzia de pessoas que gerenciava a Fábrica e os gerentes da

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Fazenda Modelo. Só a alta cúpula. Mas na rede ferroviária, todas as pessoas até as mais simples tinham um salário muito melhor comparado com os demais setores. E acho que quebrou por isso, pois não conseguiram sustentar a carga tributária, os salários e a incorporação que teve de funcionários, que foram demitidos na época em que a tecnologia avançava. Aí tinham funcionários sobrando. Então, um dos motivos que a rede entrou em dificuldade foi isso. Aí a cidade foi crescendo dessa forma. Então se imaginava que essa base cimenteira a gente não fosse perder nunca. Agora tem que repensar onde aplicar os investimentos. Tem que se ver pra onde vai crescer. Os imóveis estão hiper mega valorizados, o que é patrimônio ninguém quer deixar em pé, porque estão muito valorizados. Eles acham muito bonito se preservar na cidade dos outros, vão visitar e acham maravilhoso e não conseguem enxergar a preservação daqui do que tem que se preservar. Se não for um negócio muito velho, de preferência caindo, não é patrimônio. Pra você convencer uma pessoa de que você pode construir hoje e hoje mesmo tombar, é um negócio que pra eles não tem lógica nenhuma. A rua de comércio aqui era a Herbster. A rua Comendador Antônio Alves tinha comércio só perto da praça Dr. Senra, depois era residencial. Isso bem no inicinho. Casa Comercial de Amando Belisário Filho, em 1934. Na foto à esquerda, a construção da cimenteira Cauê, na década de 50.

Família Belisário.

Depois, as 2 ruas foram virando pontos comerciais. Os comércios famosos que tinham era justamente a disputa do Sr. Otone e do Dr. Tonico Carvalho. O Romero Carvalho e Otone Alves tinham uma disputa pela hegemonia da política local, pelo comércio, disputa de poder mesmo, quem tinha mais dinheiro, quem passava a perna em quem, aí se você escutar as famílias tem o maior chororô de um com o outro, fulano fez isso, mas não podia falar porque beltrano era casado com fulana. Tinha uma outra família que era bastante influente, mas que não ficava no meio dessa briga, que eram os Belisário. E eram famílias que comandavam a vida política local e econômica também. Aí foram chegando o que eles chamavam de turcos, que eram famílias que vieram se estabelecer no comércio. Um comércio que era muito interessante é o Moinho do Fubá, o Moinho Campestre, que é naquela esquina onde é hoje a casa de tintas. Na verdade, pegava quase que aquela quadra toda, ia até lá atrás, onde hoje é a casa do frango. Até ali no São José. Aquilo tudo era o Moinho do Fubá, onde tinham os grandes bailes de carnaval, onde eles deixavam o salão limpo só para o baile. E ali onde é o Grupo São José era um Parque Municipal, a quadra toda, na verdade. Primeiro foi construído o São José, e depois os demais imóveis. Ficou uma árvore dentro do São José, enorme, aquela que é tombada pelo meio ambiente, é protegida. É que quando eles pediram a emancipação de Pedro Leopoldo para a categoria de distrito de Santa Luzia e não de Matozinhos, o Macedo exigiu que seja feita uma escola, uma igreja, uma drenagem da região, um cemitério... Então ele exige uma série de providências, e uma delas era o Parque Municipal, aí eles fazem a reserva ali. Era uma reserva relativamente pequena, era só uma quadra. E a escola São José era ali onde é a Papelaria Papirus. E onde é a casa de Dr. Tonico Carvalho, onde Na primeira foto, a família Nassif. Na segunda foto, a família Carvalho.

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Construção do Moinho Campestre, nos anos 30.

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Grupo São José.

“E ali onde é o Grupo São José era um Parque Municipal, a quadra toda, na verdade. ”

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hoje é a Unimed, era uma várzea, um banhado. Ninguém conseguia chegar ali direito. Aí eles drenaram e Romero Carvalho construiu lá. Quem fez esse plano todo de drenagem, de como é que a cidade ia se compor, levar canalização para o ribeirão, isso tudo foi o Dr. Senra, ele era médico sanitarista. Tinha um senhor aqui chamado João Macedo, ele era projetista. Na época, até a década de 70, você podia ser projetista. Então, ele desenhava à mão os traços. Ele criou um estilo arquitetônico na cidade. Então, todas as casas que têm essa varanda com o recorte em diagonal no telhado, é no estilo João Macedo. Ele gostava muito de fazer uma varandinha também, que tinha um poste no meio dela. Ele fazia uma varanda cortada e com um poste. Então o pessoal falava que queria uma casa no estilo João Macedo. ‘A minha casa não foi o João Macedo que fez, mas foi no estilo dele’. Virou um estilo. Aí tinham vários construtores. Mas chegou a década de 70 e teve uma reforma no sistema de educação brasileiro, onde o projetista não podia mais assinar a planta, que nem contador. O técnico contábil não podia mais assinar a contabilidade da sua empresa. Ele podia saber muito mais do que o contador que saía da faculdade, mas como tinha que valorizar o nível superior, então eles proibiram essas pessoas de assinarem. Tinha que assinar o engenheiro, ou tinha que assinar o arquiteto. Na década de 70 era o engenheiro e na década de 80 bombou o arquiteto. Então, na década de 70, a maioria são casas assinadas por engenheiros. Não que já não tivesse arquiteto, já tem. Na década de 60, já tem o Walter Machado, acho que ele é irmão mais velho de Tubã, ele que fez o Clube Social, a planta da casa de Cecé, a casa onde está a Via Informática agora, que era uma casa marrom e agora está azul, aqui em cima na Herbster. É a casa de Roberto Belisário, quase em frente à Escola Melo Viana, em frente à Unir. E ele é arquiteto. Ele começou aqui, mas ficou muito famoso em Belo Horizonte. Fez um monte de coisas lá. Pedro Leopoldo é um negócio engraçado. Se você for analisar, Pedro Leopoldo sempre foi um lugar de muita produção e de muita coisa boa. Eu fico imaginando se nessas épocas, eles também achavam que não acontecia nada. Porque em Pedro Leopoldo acontece muita coisa, mesmo com tudo que a gente tem de problemas, que nem precisa ficar citando. Pedro Leopoldo acontece coisa demais. A gente não deve olhar para os outros para achar que a gente está bem, mas se a gente olhar Matozinhos, Lagoa Santa, Sete Lagoas, onde a gente vai, as pessoas têm inveja das coisas que a gente tem. Eu sei que o pasto do vizinho é sempre mais verde, mas a gente tem muita coisa bacana. As estruturas que a gente tem aqui de conservação são muito boas. A própria cidade, se

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Projetos de Walter Machado.

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comparada. Eu vim morar aqui porque eu achei Pedro Leopoldo muito mais bonita do que qualquer outra que eu visitei. Era muito mais bonita. Com todos os problemas, por exemplo, podia ter recuos nas ruas, as casas podiam ser construídas mais pra dentro, podia um tanto de coisas. Mas a cidade é absolutamente de seu tempo, ela foi sendo construída à medida que foi aparecendo a necessidade. Então, por exemplo, uma coisa que eu morro de dó em Pedro Leopoldo foi que perdeu o Cine Otone. A renda do Cine Otone construiu o hospital. Só por isso ele já merecia ser conservado. Pedro Leopoldo teve 3 cinemas, numa época em que as pessoas só iam no cinema. Na cidade em que eu morava, só tinha 1 cinema, que eu sei. E aqui chegou a ter 3 cinemas: o Cine Central, o Cine Otone e o Cine Marajá na mesma época. Aí o Otone, claro, fechou, o Central fechou, o Marajá fechou na mesma época. O Cine Marajá reabriu agora, mas ele também chegou a fechar e ficou um tempo fechado. Depois que ele virou shopping,

Os 3 cinemas que existiram na cidade: Cine Otone, Cine Central e Cine Marajá (antes da reforma para se transformar em Cine Shopping Marajá).

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com uma sala de cinema, fechou de novo e agora reabriu com a lei de incentivo, que a gente mandou o projeto e conseguiu, graças a Deus. Aí o Cine Otone foi demolido para abrir a rua da rodoviária para a Herbster, numa reta. Tanto que aquele pedaço se chama Francisco Viana. O Hugo Belisário, que é quem fez o projeto pra demolir, ele disse: ‘Angélica, se eu tivesse o conhecimento que eu tenho agora na década de 70, eu jamais teria feito isso. Eu jamais teria demolido o Cine Otone. Teria achado uma outra solução para a cidade’. E, de fato, ele era uma pessoa extremamente inteligente. Só que, na época, ainda estava começando essa conscientização. O IEPHA foi criado em 72, quer dizer, isso foi antes da criação do IEPHA. Então, a consciência estava muito recente ainda. E na época da criação do IEPHA, ele só protegia grandes monumentos, tipo o Palácio da Liberdade, a Praça da Liberdade. Não tinha essa identificação do que está mais próximo do povo. Agora o discurso já é diferente.”

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Panfletos dos cinemas que existiram em Pedro Leopoldo.

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Este livro foi impresso em Papel Couché Fosco, 170g/m² e Papel Vegetal 120g/m². Impresso no Brasil. Dezembro de 2010.


A história da criação de Pedro Leopoldo contada pelo Arquivo Geraldo Leão