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AZUL PEQUENOS SERES INACABADOS E OUTROS SILÊNCIOS

POEMAS DE

JOSÉ VICENTE . 1994/1995

SABER DE MIM

Se pelo jornal quiseres saber de mim fica a saber que utilizo o mar na secção dos anúncios Planetas Júpiter Saturno Plutão como apeadeiros de viagem O texto em forma de éter perfume antigo Os portos sem cais onde naufraga a vida Saberás de mim no sítio onde a terra acaba e os poetas começam Na cor que se veste uma vez e nunca mais se despe

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ARS LONGA

Quando chegaste partias de um país distante Dorida Tocada pelo pássaro em queda a rasgar o azul Abandonada no interior de uma gaiola de fios de porcelana Viajavas na folha seca do Outono e no fumo que procura o princípio da madrugada Pisavas o gelo que flutua na transparência da água escrevias cartas a um amante que sustentava a ausência da névoa de lua cheia Pousavas no vento que alivia a espinha das aves que navegam para Sul nos polares horizontes no bico afiado de um lápis de memórias na estearina Ars Longa

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VIAJO PARA SUL

Viajo para Sul Procuro o silêncio que deixas-te ao fechar a porta Bate-me o sangue o pensamento o calor frio das horas paradas excitadas Retratas-me sobre o ombro escondida na imaginação do espaço distante flutuante O espaço que desenho no espelho da noite dá-me imagens uma mão cheia de estearina com cinco chamas elementares Estigmas conjugados Fendas de paixão A chegada da viúva negra com um fio apenas dividiu a noite Fez-se dia

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PERCORRO O ETERNO

Percorro o eterno no corpo de uma noite encantada O poeta a vigiar-me Tu ali tão fina frágil porcelana de Sévres com sabor a azul de meia noite Esperávamos o raio verde E num instante a escuridão iluminou as palavras mágicas que levam ao silêncio à noite cúmplice dos apaixonados Uma gota de água mole escorre sobre um desejo que cresce por dentro numa gravidez de surda solidão Passa gente entre os momentos que adormecem nos penedos As águas curtas gravitam no espaço da memória fundamentalmente fardadas de exércitos guerreiros imaginários As lanças dores humanas agudas A árvore abate-se sobre a ponte do futuro e

imagine-se cria raízes no lago Depois uma aragem de tempo voa sobre um destino expirando o grito levemente

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SOLIDÃO DO ÉTER Regresso à solidão do éter vestindo a camisa de penas que o pássaro azul usou quando ultrapassou o Sol em altura e a luz em velocidade Encontro Saint - Ex Pardais perdidos dos ninhos Folhas deslizantes entre passeios da avenida Amantes de uma noite num quarto de hotel fugindo à paixão Uma mensagem uma voz sem suporte percorre os cantos da memória som do interior da saudade Il faut se quitter et dire au revoir et croire en été Il faut croire A lágrima escorre pelas estátuas frias Lágrima do éter que adormece seios de mulheres abandonadas numa gravidez de pequenos seres Pictogramas poéticos em jeito de perfume sobre um fundo de pássaros amarelos paus de vento e lágrimas de chuva Todos de dirigem ao silêncio do éter à solidão do éter 6

A ESCRITA Deixa passar esta dificuldade a escrita que hoje não me apetece dizer-te Vou sair em voo nocturno com Saint-Ex ! Quando voltar reserva-me um naco da tua carne da carne mais terna que tiveres pois o êxtase consome os rasgos da minha que empola que se esfola nas esquinas que as águas põem à vista na pedra azul Vou plantar violetas no cemitério de cruzes cinzentas esperar que a aragem do meu voo arraste a lua presa aos cordéis do meu tempo Os lábios são apenas as palavras necessárias que se dirigem ao jardim dos sentidos Por isso deixa passar esta última dificuldade a escrita

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GRITO AGUDO

Grito agudo exala a pedra silvestre Rascunhar tenso da caneta Recorremos ao silêncio para a reconstituição dos passos Reconheço-te na multidão vinda do regresso dos que fogem à dádiva do encanto dos montes e das pedras alinhadas sobre as palavras Pássaros de bico partido restolham o eco nas rosas pintadas de amarelo campo Tudo se confunde à boca da tempestade Incapazes ordenam passagens e cobram espaços que o tempo divide em tarefa constante Raízes evaporam o néctar do colar de pedras azuis salgadas pelas lágrimas que me ofereces-te no momento da partida

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A MALGA ESTAVA VAZIA

A malga estava vazia dos ermos povoados por gente de água porque um peito rasgado cirurgicamente imolado em cordas secas de nenúfar cozido por agulhas de pinheiro e pequenos dedais de bolotas jazia fora do corpo Assim se representam os segredos que uma mão cheia de água percorre na noite E que noite ? Na noite em que as estrelas se alinham para compor um nascimento e o bailado se confunde com músicas saídas dos buracos extravagantes das trevas Impresso no selo de origem verifico a existência de seres inanimados à espera de vida Um coro de Deuses divulga as opções sangue ou líquido seminal Os seres ajudados por estrelas dispõem objectos com o rigor do princípio Mal apagada a chama alumia a nostalgia a imolação do silêncio

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TECENDO PALAVRAS À volta de um brocado de manchas rosa tecendo palavras encontro-te escondida no tule do violino de cordas Caminhas contra um Pacífico de seda vibrando o Sol dos caminhantes dos mártires do Sul Procuras a prata nos seres que encobrem nuvens brancas o rendilhado do cedro Os teus dedos vestem os prados de borboletas os lagos de ervas encarnadas E assaltas as memórias dos guerreiros dos púdicos dos imemoriais dos violinos puxados por cordas de balão Na sedução constróis a guerra que leva ao linho dos xailes pretos das viúvas do Sul de seres fálicos erguidos contra um vento de chuva azul e uma modernidade de distância ácida Constróis uma árvore velha fendida entre pernas por carne viva o fio que leva ao início da memória aos seres antes de testemunhados À linha que se fez ponto na adolescência

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PEQUENOS SERES INACABADOS

Caminhos levam os pequenos seres inacabados Transportam-nos carinhosamente nos sulcos que as águas da Primavera cavam para as lebres escarlate Embriões ressalvam o erro da concepção procurando pais Ígneas pedras de marfim rolam nas armaduras dos cavaleiros gelados parte homem parte mulher Pequenos seres inacabados Tudo suspenso em voo rasante do limbo de um tecto de estrelas azul cobalto Luas oscilam entre crescente e molhos de estevas pardas Um gato uiva e sussurra ao mesmo tempo que grita a dor de um parto com urgência pré-natal -Eu mal conheço essas coisas Flácida a pedra ressuscita para o crente depositado no altar A malga da filosofia transporta futuros peixes voadores massa gasosa de aromas ainda selvagens 11

A nesga de azul suspensa de todas as cores implora a liberdade de construir a cidade metaf贸rica e abre todas as portas aos seres inacabados Distante o crep煤sculo de um raio cristalino a ferir o instante

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NOCTURNOS SILÊNCIOS

Transgredimos nocturnos silêncios e a composição da vulgaridade para lermos nos astros o flash do iniciar da música. Cage Porta no deambular do anjo cego Eco no coro dos poetas livres A clássica atitude maternal que envolve as rosas curvas dos passeantes navais Colombo e Magalhães em cesta larga do tamanho de barcos punhos abertos à filiação de países vorazes Mas as virgens de sangue e virtude ? Que orientação seguir ? Na sua missão falhada Polar perde-se entre estrelas vulgares perde-se também o referencial Norte Que direcção seguir ? Um pingo de estearina em urgência de solidificação erradamente atribuída a Ícaro fossiliza no horizonte dos espelhos estivais A capacidade de criar imagens no nocturno silêncio dilui-se num mês fora do calendário Luceiro ? Lembro ? Rolho

? Tonho

?

Outra vez o nocturno silêncio separa as palavras dos sons 13

MADONAS

Esgotamos as madonas pétreas os búzios contemplativos jazigos de família Pontos de fuga Limites do horizonte esgotados em cadeia Infinitos esgotados Fábulas em baixa de preços Hebreus elegem orações no fim de uma tarde fechada a lacre Enjoativo sabor a constância queimada inebria a respiração das horas Rolamentos de pedra maciça fazem desvio a sul para direcção negada pelos ventos de tempestade sobre casas de prazer Esgotamos as crianças e as chamas dos percursos velozes Até as bolas de ar O azul leve é substituído por um azul pesado próximo do fim de prazo

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PAISAGEM

Ondula na paisagem o corpo de um fragmento de paixão Será que vi ? Texturas de uma casa Na noite o clarão da fechadura incendiada Não passam guias Apenas isolados seres tele transportados Orlando dança encantamentos de uma madrugada submersa nas horas atrasadas Na frente da multidão TU Será que vi ? O abismo servido por meses dourados A água em cascata formando uma porta fechada

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TAGLIONI Taglioni ficou suspensa no ar na dança de uma espiritualidade constante no interior de zeros absolutos de nuvens cinza de fins de tarde alentejanos Aprendemos a andar devagar a textura da casa as portas em ruína os interiores Taglioni abandona o ar num drama de braços e pés esculpidos pelo silêncio da música

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ACORDAR LENTAMENTE DE MANHÃ

Povoa-me a ideia de acordar lentamente de manhã num regaço esbatido em pedra viva Que procura um filho Esvazias o ar e crês estar perante o enorme poder de transformar as águas em terra o vento em quina de barco a rasgar o ventre de uma mulher sobre a erva de um luar Tudo isto acontece porque o teu sonho voa por cima das trevas na noite ainda selvagem Acendes a tocha no meio da escuridão iluminas a madrugada com a ténue névoa cinzenta que mancha e circunda a chama Caminhas no escuro com a chama numa mão e a tocha na outra Fendes o tule que reveste chão e tectos Não revelas a vida porque ela ainda não nasceu Do corpo os estigmas não de sangue só de fogo definem a solidão dos corpos no escuro intenso sem madrugada sem velocidade

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na estática de corpos e ideias nada se move Todos descansam sobre um triunfo feito de sonhos que constitui a massa da escuridão Num repente o relógio diz - são horas de acordar E o sonho termina naquela linha de arranque válida se não pisada

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PEDRAS

Pedras em forma fálica fluem como pássaros cuja leveza os seres já inventaram A lágrima vermelha próxima de um Deus jovem estagia A mão no limite do horizonte desenha grafias de azul Fui a Marvão na torre duas taças que prometemos partir

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ROMPER DA MADRUGADA Acompanho o romper da madrugada do alto do meu sonho na nesga de azul que dele escorre Suspensa na respiração de um halo marinho por momentos a madrugada pára embaciando os vidros do horizonte Uma ave redonda arrasta um pequeno fio de aranha deixando um risco no azul recente Por isso levanta-se uma pequena névoa de pó intenso embrulhado em brisa leve que o halo marinho e o risco no azul recente provoca Sucedem-se os dias as luzes das cores o brilho da água celeste que em gotas se desprende dos oceanos dos mares dos lagos dos rios permitindo acontecer a noite e logo a seguir o retorno do princípio do azul rasgado vertendo tinta e brilho nos quadros de uma exposição

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CAMPOS AZUIS DE FLORES

Se tivermos que percorrer campos azuis de flores onde o grito da águia tem a cor amarela que seja vestidos de vermelho em quina de vento para cortar a água do orvalho E que o destino nos guarde um tapete branco em pano cru agrafado às árvores E a pele película fotográfica sensibilizada pelos pensamentos de mim em ti da cor dos campos azuis rasgados pelo fio afiado do destino Deus angustiado pela existência do universo da escrita de não ser homem ou mulher correr campos ar universos molhar os pés na água do pó escondendo-se incapaz de ordenar palavras entre pedras negras tão pretas e tão próximas do azul 21

Deus que escreve poemas de cruzes no meio de um jardim de guerra de cor vermelha do sangue O azul eterno rasgado pela passagem do espinho da rosa levemente pendido cria agora uma passagem por onde se escapam Tu Eu um sol mais pequeno e um Deus mais compreensĂ­vel

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ELEMENTOS

Navegamos no limbo aquoso de chamar os elementos Nomeamos as pétalas quebradas erguidas por fosseis vegetais cartas de vazio eterno de azul e de outras cores não fixas Emendamos a linha de costura da pele a fazenda na máquina do vento o cristal das balanças siderais o retorno dos argonautas Sideramos as pérolas com o olhar ártico de cortar tarefas as mãos que abrem fatias de sonhos de líquido amniótico as linhas que terminam em pontos os pés que sonham ser trevos na dança de Pina os anjos perdidos sobre nuvens de casas

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NOITE SIDERAL

Xailes de musas estão agora cheios do medo da morte adormecem crianças Adultos idosos próximo dos xailes e do medo da morte adormecem de dia Noite vegetal próxima do medo da morte chegar devagar oculta tapetes voadores sonhadores de uma noite de cisnes lagos de prata reflexos de lágrimas relâmpagos de sal Quando chegar quero antever ver chegar a aurora dos xailes das musas da solidão fria que percorre as costas de uma mão cheia de vazios silêncios luzes de vidros manhãs submersas em éter de recados guerreiros de pedra anjos de azul cabeças de memória filhos atrasados na exiguidade do tempo da vida estearina do meu silêncio do meu sofrimento de respirar o meu hálito de vida levemente à noite sideral que explode em mim

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POENTES TARDIOS

Com líquenes flutuando em bosques equinociais tardes isoladas do contexto dos dias Pesadelos de meninos esvoaçam como pombos da cidade Quadros de púrpura pendurados nos gestos dos poetas seres selvagens patines em meninas de bronze inócuos beijos profundos aos confins da língua sóis isolados por luas cadastradas cadafalsos inoportunos para o silêncio da morte Mágica entre os dedos de uma guitarra cena épica subordinada à ordem de uma virgem vestida peles de cobra ondas de vazio A noite pisa já o dia Afoga o azul nas transições polares onde se escoa o som e se apaixonam as estrelas Pequenos fantasmas iluminam as chamas dos vivos mortos Sede de água pura de cristais de Éden Fugazes olhares de êxtase

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ACONTECE

Acontece na raiz da pequena estrela no olhar da anémona Para além dos infinitos reflexos Nostalgia de andar primeiro quebrando cavalos soltos pelo pensamento em duas metades Flutuar na residência aquosa de rosas vermelhas palavras ainda adolescentes aranhas em malhas de Verão e sedas de marfim perfeito Pulsares de um nó vivo absorvendo silêncio na raiz de todo o poder espécie de descendência do azul fabricando Primavera Horizonte da linha ponto de fuga na pausa do som eco soma do grito de todos os homens abandonados às armaduras de prata elmos de ouro espadas de vinho cálices de sangue Safiras cravadas entre olhos de duas direcções Passa-se na raiz da pequena estrela

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LAGO AZUL

Lago azul de pensar poentes reflectir fios de prata em noites de luar seres voadores quando os meninos adormecem Homem em berço de verga mãos de canas milenares cravadas entre joelhos de vida selvagem absorve mulheres que esvoaçam nas asas dos pequenos seres Pedras de estrelas relógios atrasados pelo pulsar de uma respiração lenta agitada arfante do lago palácios de pérola castelos de palavras envoltas em línguas de cães dourados garras de falcão diamante olhares caçadores paixões que percorrem o tempo da exiguidade e a imaginação da conquista do vento invisível Sopro do divino pensar fogo interior de negro servido Mesas de chão terra vegetal guardanapos de linho bordado ao nascer dos cestos artesanais Mãos que procuram sinais do tempo em que as águas regressavam por canais uterinos ao fundo do Lago ao fundo da vida

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PORQUE CONHEÇO A MADRUGADA

Pergunto-me Porque conheço a madrugada e o som da música distante? E em corpo de poema - Tu? Imaginário presente sibilar da ausência perfume nos cantos da casa. Lá fora encontro pensamentos vagueando na cidade Aqui imolo-me na velha manta da ausência Ali adormeço com a protecção dos tocados pela paixão e pelas cantigas dos poetas vadios. Estremeço O pensamento inibe-me Tudo se parece com as águas que gravitam à roda de um pequeno ninho Na distância imagino um pousar sereno sobre a crista de uma onda quebra-mar de padrão imaginário Por isso o azul marca-me o fundo dos poemas sonhos e madrugadas É assim este azul rompido pelo silêncio antes do sol nascer por detrás da alvorada. 28

TEOREMA

O mensageiro metralha o anúncio do dilúvio Fende o silêncio dos postigos Gnomos de um tempo de pedras senhores da terra construção de crianças cruzam o estelar de sonhos Andorinhas gravitam em voos riscados de azul. Teorema : Um quadrado de palavras Uma diagonal de sangue Misturo vazio com proximidade de nada obtenho a equação do silêncio a lágrima fóssil Nas mãos de um homem surge um diamante lapidado pelo fio de Ariane

Inventámos Astrid Por isso e para Astrid viver transexuamos Roubamos por instantes as palavras que nos poetas exprimem o azul e o sentimento do silêncio 29

SOL SECO MERIODIONAL

Enrolada por um sol seco meridional a mulher de barro azul viaja nas folhas de um livro Em princípio de Outono Detém o poder de transportar na imaginação seres que vivem na bola de cristal hermética e pequenos sinais luminosos no lugar das trevas Preenchendo vazios Riscando silêncios A mulher de barro azul possui no seu centro a exalação do aroma perfeito e bicos de diamante no peito que corta o brilho à prata das mãos de Cedalion

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NO CENTRO DO MUNDO

No centro do mundo invisível um homem refaz o seu número embalando cristais de ciência manipulando silêncios pequenos seres imagens dos elementos a linguagem que invade o sonho os elementos que invadem os números e lhe dão a combinação da pele da carne da paixão dos dogmas um homem escreve um nome no azul como quem leva um filho pela mão descansa num banco de pó e suporta cadinhos de seda vive um nó que lhe ata a boca veladuras no horizonte dos sentidos cai e quando se levanta já é pedra ou cinza de árvore de fogo um homem refaz o seu número encaixando estrelas no lugar do Universo criando luz no seu próprio umbigo transformando dedos em cabelos de anjos respirando o silêncio 31

O ASSALTO DA ESCRITA

Assalta-me a escrita em forma de evitar o cruzamento com a palavra Pavimento falso sobre o pântano Do outro lado da rua uma máscara isolada com pálidos olhares sem incidência de luz . O cristalino cruza-se no pequeno mundo da infância da música com escalas vegetais e um sinal enviado do vazio para poder conciliar o evitável consagrando vagamente o domínio de um estranho e condenável poder

Flocos da árvore quebrada pela tempestade de relâmpagos caem na cabeça de transeuntes De fatos cinzentos e azuis dedos deformados pela dor de um reumático envelhecido por ácidos de lugares selvagens e barrigas disformes de vazios do tempo Esta gente flutua meninos de acácias e bichos de seda transparentes na colina de trigos eternos dourados pela patine de imaginários Rolam peças de conflitos marginais à vida das estrelas

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A ESTRUTURA DA FÉNIX

Nesta manhã a neblina cobre a cidade Os barcos passarolas voadoras saídas da transparência de um limbo grasnam cantares do último dia de Janeiro Excêntrico um vagabundo terrestre arruma uma mala de vazios Os bancos da Avenida suspendem transeuntes de um dia distante como a próxima madrugada o está ainda desta neblina da manhã Uma fénix sacode um pó estelar e rápidamente ganha formas conhecidas pessoas que encontro todas as noites a definhar e madrugadas a renascer a partir de um sonho de luz Algumas tremem como se o seu interior fosse o ajustamento de uma tectónica precisa a arquitectura da transformação prefeita Outros iniciam-se no sentido de respirar a liberdade saindo da noite de insónias em que o sonho não chegou A madrugada foi apenas o alívio do pesadelo que dura sempre .

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Esperar para quê ? Que a bruma se dissipe tornando clara a imagem difusa ? Haverá uma proximidade tão precisa que nos evidencie o traço de personalidade da fénix ? Ou será apenas o fio que agarramos para não nos perdermos no futuro e sempre podermos regressar ao passado ?

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I Um pé descalço percorre um eixo de linha perfeita Pontas Dedos de sangue amargo curvado sobre um lado de cicatrizes Pequenos seres de um espelho partido por uma vida de curvas serenas Pontas distantes do despertar do mágico de cera Mármores envidraçados em peles de animais vazios e pequenos pelos de sereias No mirante um navegante solitário observa a manobra do barco vazio e da candeia Náufragos pintados de lágrimas e cactos selvagens no meio de rosas prateadas pelo sol que pica o inverno Um som uivo irrompido do silêncio da distância percorre um corpo cozido a meio mas descaído sobre a esquerda de uma aura cinzenta

II Ressoa na meninge , fora do limite , um sinal de vida . Navegantes solitários navegam na memória dos sons , na música que exala das rosas , nas orquídeas do sangue .

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Som, de um lado solidão , do outro , a fluorescência brusca das palmas de uma mão vazia de linhas e montes de Lua . A bruma densa , povoada de sons , entre um nevoeiro de cedros de uma paisagem mínima , composta por principiantes , ondula nos dedos de uma mulher perdida nos ideais antigos , romances de cavalaria e sonhos de vergonhas libidinosas . Dívidas do som ao silêncio , contabilizadas por cariátides que sustentam o templo . Poetas antigos , percorrem a história em ciclos de primavera , num esvoaçar, levemente sonoro , de extermínios secretos , param o instante . Fixados espontaneamente no percurso mais recente da composição . A batuta de um maestro , para som maior , vindo do reverso do universo , fere o negro do silêncio , criando música a partir de um reflexo de espelho , esteticamente caído , no negro da estrada .

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III Uma mancha denuncia a alma rasgada por um fio de diamante Tecido na aurora da tempestade . Urdida na vaidade dos olhos negros perante uma imensa clareira na floresta dos enganos . Do azoto curtado por um pingo de ardor , saído do peito de uma mãe criadora de todos os universos e de uma nota pequena , ainda antes do silêncio . Do começo do êxtase da vida e do marchar dos inválidos para uma arca sem destino . Viajantes eternos num imenso e eterno dilúvio de sons , inaudíveis , inatingíveis . Onde estão os violinos e o corpo de um delito comum à música - os arcos ? E os melhores momentos dessa sinfonia que escorre sibilante do triunfo dos cegos ?

- Na luz que irradia da cauda de um piano preto viajante numa estrada de estrelas - Já tudo existiu no pó das bermas mal calcinadas . No entulho dos Deuses e no fosso da orquestra . 37

IV Como dejecto . Repugnante , pestilento . Entre pedras em constante mudança de forma . De projectos de lapidação . Do retorno da escala onde se inicia a sinfonia agonizante . Alastra a revolta em fina toalha de liquido invertebrado . Películas queimadas pela luz das trevas durante uma noite no rebordo de uma esmeralda lançada de um penedo cavado no interior do ar . Faiscam instrumentos como lemes de madeira seca ao natural . O fogo factuo sai de pequenos dedos , sobre um teclado do piano , encravado na garganta de um menir . Do outro lado dos caminhos os peregrinos entoam gargulas em consola Destinos de fados soltos como cavalos ou mulheres de cio enroladas em mantas de trapos . De vestes nupciais . Do grito , do jazer despido entre dois cedros sobre uma pedra e um tinteiro à cabeceira .

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Poesia 1994-1995